Calle Soriano

Respiración artificial, de Ricardo Piglia

Posted in Sem categoria by iurimuller on 22 de junho de 2017

27247dda9c47ff7ffe2a25b57e74aac9e696e423Publicado em 1980, numa época em que, de acordo com a crítica argentina, a literatura do país atravessava dias de certo torpor, Respiración artificial poderia ter sido muitos: de suas páginas, que não deixam de ser breves, saltam três, quatro linhas narrativas suficientemente densas e desenvolvidas como que para anunciar um romance futuro; romance de que Piglia preferiu desviar e assim construir, de modo entrecortado, um livro que em algum momento se aproxima da novela policial, em outro, do discurso da história, e ainda do debate de ideias, de uma reflexão crítica sobre os autores e a literatura argentina, sobre os rasgos de dependência e dívida ainda nítidos no país.

Em primeiro plano, está a história de uma busca: a busca por um tio que, com poucos gestos, rompeu por completo com as relações familiares e construiu, aparentemente em completa solidão, uma nova trajetória, da qual pouco se sabe, mas que se acredita próxima dos livros, do ensino da História, e distante da cidade natal. Marcelo Maggi, o tio, passa a viver em Concordia, Entre Ríos, zona de fronteira com o Uruguai, e acaba restabelecendo o contato com Emilio Renzi, o perene alter ego de Piglia, quando Renzi publica o seu primeiro livro de ficção – texto em que faz referência, mesmo que de forma discreta, à história de Maggi, homem que, contam as versões, roubou o dinheiro da ex-mulher, ela a herdeira de uma longa e rica família que remonta aos começos da história nacional.

Dizer que Emilio Renzi é o narrador de Respiración artificial pode ser, ao mesmo tempo, acertada hipótese e insuficiente apontamento. Isso porque, principalmente na primeira parte do livro (“Si yo mismo fuera el invierno sombrío”), o romance é formado por uma miríade de discursos, cartas, solilóquios, argumentações paranoicas, estranhas recordações e um par de desencontros, sempre em muitas vozes. Está a obsessão de Marcelo Maggi por Enrique Ossorio, homem do século XIX que trabalhou ao lado de Rosas e, em prolongada ambiguidade, traiu o ditador e perambulou pelo mundo a sentir na pele as agruras do exílio, do tempo e da loucura, e a registrar as experiências e dificuldade de dar sentido ao que vivia em um diário; estão as cartas interceptadas por um personagem de nome Arocena, capazes de tocar, por vezes, o conteúdo dos demais fragmentos. E está, principalmente, o ímpeto de Emilio Renzi, que decide reencontrar o tio e se coloca em conversação epistolar com Maggi, até o momento em que empreende viagem a Entre Ríos.

A segunda parte do romance (“Descartes”) me interessa mais: trata-se de um longo relato em que poucos acontecimentos se encadeiam no tempo presente da narrativa, mas, através de um diálogo por vezes demoníaco entre Renzi e alguns dos habitantes da cidade fronteiriça, frequentadores, todos eles, do Club Social de Concordia, os temas caros a Ricardo Piglia se desenvolvem sem travas, censuras ou contenções. No Club Social, por exemplo, típico espaço provinciano em que se pode beber sem que ninguém estranhe demasiado a solidão e o alcoolismo, como explicou o enxadrista e filósofo polonês Tardewski, ele mesmo um membro assíduo do lugar, Renzi discutirá pormenorizadamente sobre o estado atual da literatura argentina, suas bases e tensões permanentes.

A mais rica das conversas se dá com Marconi, jovem entrerriano que trabalha no jornal local e, de tempo em tempo, publica sonetos na mesma publicação. Renzi, também ele um escritor, vem de Buenos Aires, e na Capital havia publicado o seu primeiro livro; Marconi vive no interior do país, em meio à rotina da província, e afirma que escreve poemas e não deixa de ler a Jorge Luis Borges. A discussão entre ambos, irônica durante bom trecho, acalorada em outros instantes, alcança, com humor, uma tensão mais ampla: a da vigência entre duas miradas distintas, de dois paradigmas tão antigos como ainda vivos, de um histórico de atração e repulsa entre Buenos Aires e o interior do país, entre um país unitário e uma ideia federalista de nação. Marconi ri dos modismos de Buenos Aires, e na linha seguinte admite que, em dois anos, a ideia, seja lá qual for, chegará com força na província. Renzi, por sua vez, caminha com alguma compaixão pelo panorama talvez desolador da fria noite do litoral do seu país.

Renzi e Marconi divergem sobre boa parte de temas e autores, mas principalmente sobre Roberto Arlt. Para Renzi (e para Piglia, como se pode ler repetidamente na obra ensaística do autor), Arlt é um escritor que merece atenção e mesmo uma defesa, visto que seria o único entre os autores do século XX a intervir detidamente na escrita produzida em território argentino, o único a tocar mesmo a estrutura da língua, alguém que, como autor, pôde jogar para dentro do romance o fragmento, a tradução, a colagem, os recursos que estiveram afastados da alta literatura até então. Para Marconi, Roberto Arlt é muitas vezes intragável, um autor de quem Borges não conseguiria ler duas páginas, um escritor que, mais do que nada, escreve mal, coisa que qualquer leitor, mesmo que disposto a reconhecer seus méritos, não poderia refutar.

Sobre a relação de Piglia com a literatura de Arlt, são válidas as linhas de Roberto Bolaño, afiadas, como sempre, e presentes no texto “Derivas de la pesada” (publicado em Entre paréntesis): “lo que pasa es que se me hace difícil soportar el desvarío – un desvarío gangsteril, de la pesada – que Piglia teje alrededor de Arlt, probablemente el único inocente em este asunto. No puede estar, de ninguna manera, a favor de los malos traductores del ruso (…), y no puedo aceptar el plagio como una de las bellas artes. La literatura de Arlt, considerada como armario o subterráneo, está bien. Considerada como salón de la casa es una broma macabra. Considerada como cocina, nos promete el envenenamiento. Considerada como lavabo nos acabará produciendo sarna. Considerada como biblioteca es una garantía de la destrucción de la literatura”. E nesta eu estou com Marconi e Bolaño, e não com Piglia e não com o ainda jovem Renzi.

É em Respiración artificial, a propósito, que Piglia mais se aproxima de Roberto Bolaño (não em seus temas e escolhas atmosféricas, pois isso se daria, no caso, com Plata quemada, mas no embricamento dos discursos, na ávida discussão de ideias, no debate que, por vezes, tende ao caos, e no minuto seguinte, será capaz de iluminar a página inteira). Tal aproximação parece se dar, creio, com maior intensidade nas páginas finais do livro, em que Emilio Renzi se encontra a sós com Tardewski, o melhor amigo de Marcelo Maggi em Concordia, e o polonês discorre largamente sobre as relações possíveis entre Kafka e Hitler, o rigor profético e melancólico das páginas do escritor tcheco, a sua (de Tardewski) busca inconsciente pelo fracasso – de aluno de Wittgenstein em Cambridge a professor particular no litoral argentino –, a ausência permanente de Marcelo Maggi, o tio que sempre escapa, do início ao final, imune aos sobrinhos, aos detetives, às buscas sempre vãs.

Romance estranho, de pensamentos e de afãs desesperados, este belíssimo Respiración artificial, livro que, me parece, agradaria a Bolaño e mesmo a Borges; a Marconi também, mas, coisa estranha, creio que não a Arlt.

Luz em agosto, de William Faulkner (em conversação com Juan José Saer)

Posted in Sem categoria by iurimuller on 21 de fevereiro de 2017

luz-de-agosto-faulknerBusquei Faulkner depois de ler Juan José Saer: talvez tenha sido um caminho inverso, mesmo para os leitores latino-americanos. Um caminho ao mesmo tempo ao revés (um caminho de volta, talvez) como também inevitável: após ler Saer com algum afinco, torna-se necessário retomar as origens de pelo menos parte – imagino que parte indispensável – do projeto literário que o escritor santafesino levou a cabo. Isso foi algo que me pareceu claro após ler Cicatrices, Glosa e os ensaios teóricos de Saer – ensaios que, em certas oportunidades, como acontece com os que estão reunidos em El concepto de ficción, ocupam-se nomeadamente de Faulkner.

De modo que, neste caminho de retorno, li neste início de ano, neste verão chuvoso no sul do mundo, o Luz em agosto (1932), de Faulkner, na edição da Cosac Naify. Antes, havia lido, não sem temores, não sem interrupções bruscas, O intruso, novela que não me pareceu a melhor porta de entrada para a obra em questão. Com Luz em agosto o processo foi distinto: não um caminho simples, mas quem sabe, sim, o início de algum entendimento do que acontece aqui sobre o como se narra, quantas vezes se narra, qual a direção do texto e como alguns dos artifícios vão alcançar, apaixonadamente, autores como Juan José Saer e Juan Carlos Onetti – para mencionar dois dos escritores do Rio da Prata que devem ao norte-americano traços que do que levaram adiante em posteriores contos e romances.

Em Faulkner, além da “perfeita página esculpida”, como li alguém dizer, está o recurso da repetição da narração para dar conta de um mesmo (e ao mesmo tempo algo deslocado, a cada vez) acontecimento. No caso de Luz em agosto, a linearidade se quebra muitíssimas vezes, e há nítida sobreposição temporal para dar conta, desde a intenção do autor, da travessia de Lena Grove e de Joe Christmas pelo sul dos Estados Unidos: assim, um incêndio, uma fuga, uma conversa ou um assassinato podem ser contatos repetidas vezes, de distintos ângulos, sem, no entanto, oferecer a ilusão de que a multiplicidade das miradas pode oferecer qualquer totalidade ou exaustão de um momento ou sucesso. Há algo desta tentativa (bem como a suposta banalidade de alguns gestos e certa presença demoníaca na narrativa) também em Cicatrices (1969), de Saer.

O que também ocorre, de forma radicalizada e perene, no projeto de Faulkner, é a tantas vezes mencionada construção geográfica que, por momentos, confunde o mapa literário com o plano real do sul dos Estados Unidos. E esta ambientação no ficcional condado de Yoknapatawpha (situado, a partir da caneta do escritor, a noroeste do Mississippi) encontrará semelhança, tempos depois, na zona geográfica em que se ergue, pouco a pouco, a ficção de Saer – a nunca mencionada Santa Fé se estende em seus romances, abarca cidades da região e forma um mesmo núcleo espacial, entre a ficção e os mapas correntes, por onde se movimentarão personagens que igualmente se repetem. Quanto à geografia, pode-se dizer que também em Onetti e na sua Santa María ficcional está a semente de Faulkner, ou ao menos seu desejo e seu impulso.

Por fim, durante toda a leitura de Luz em agosto esteve presente comigo a questão da nomeação no romance: para além do nome de um dos personagens principais (Joe Christmas, cuja correspondência nominal é evidente), o problema do nome encerra outros conflitos, como a busca de Lena pelo homem que a engravidou e que não voltou a encontrar, cujo nome, para ela, seria Lucas Burch, ainda que na nova cidade tenha se apresentado como Joe Brown, e nessa mesma procura Lena acabe por se encontrar com um outro homem, Byron Bunch, que a acompanhará com resignação apaixonada. Mesmo no gesto de nomear há, em Luz em agosto, perda e aproximação, reinvenção e engano.

Hombre en la orilla, de Miguel Briante

Posted in Sem categoria by iurimuller on 21 de setembro de 2016
A edição de 2013.

A edição de 2013.

Atento, há meses, para um aspecto da obra de Juan José Saer: a rede que se forma, em seus romances e contos, com acontecimentos e personagens que se tocam, de um texto para outro, e formam, pouco a pouco, por vezes crescendo e em outras retrocedendo, um conjunto de associações (de um enorme intertexto interno) nada linear. De outro modo, em diferente proporção, e com, mais do que nada, distinta proposta narrativa, há algo assim na literatura do também argentino Miguel Briante, como provam os quatro textos deste Hombre en la orilla, publicado pela primeira vez no ano de 1968.

Desconhecia os livros e mesmo o nome de Briante, nascido em General Belgrano, Província de Buenos Aires, em 1944, e morto precocemente na década de 1990, até o momento em que me deparei com um conto: “Fin de Iglesias”, se chama o texto, escolhido numa oficina literária (de José María Brindisi) que trabalhava o gênero conto na Argentina e mais além. Pude notar, em “Fin de Iglesias”, o esforço literário em levar a oralidade de um povoado de província para a ficção, o enredo que se firma em episódios locais, e a crença, que persiste também no livro em questão, de que os problemas e os conflitos da literatura podem ser encontrados, quem sabe todos eles, nas teias algo minúsculas e ensimesmadas de uma pequena cidade do sul do mundo. As linhas do conto, como em Saer, saltam para o que se vê nos relatos e na novela de Hombre en la orilla.

É certo que os quatro textos do volume podem ser lidos de maneira independente, com visível autonomia: os silêncios e espaços em branco são marcas de um estilo e de uma proposta, e se acabam preenchidos depois, em transposições sutis, como acontece com Briante, isso em nada diminui a força de unidade de cada relato. Pode-se ler “A lo largo de esta calle que da al río”, o mais longo dos textos, que se aproxima de uma novela, sem retornar aos contos anteriores, mas a leitura completa do volume (e de outras peças mais da obra de Miguel Briante, como já posso crer) irá tocar com algo novo as lacunas e levar outro gosto à página. Como Saer, e talvez a semelhança não se estenda mais do que a este aspecto, há, aqui, a construção de uma obra pensada em conjunto, em lenta progressão, e que marca, em um espaço narrativo (em Briante, el pueblo, que em algum momento é anunciado como General Belgrano, a cidade natal do escritor), as idas e vindas de um mesmo núcleo de personagens e acontecimentos, dos verossímeis deslocamentos e experiências de um povoado em que quase todos se conhecem e o que é estranho (os forasteiros, os que retornam, os malditos e os que vivem às margens, nas barrancas) salta aos olhos com força e agilidade.

O desenhar deste espaço se torna mais firme, e é para tanto que serve a repetição, conforme Hombre en la orilla avança. No primeiro texto, “Habrá que matar a los perros”, aparecem algumas referências (a lugares, a famílias, a sobrenomes) que retornarão na sequência, ao mesmo tempo em que uma narração em primeira pessoa, marcadamente provinciana, relata a decadência de uma estância local. Em “Hombre en la orilla” e “La Vasca” a perspectiva é a do homem jovem que retorna ao povoado (no segundo conto, de Buenos Aires, onde parte para viver e estudar), e que mantém no olhar entre nostálgico e piedoso o tom de quem oscila entre ser dali e ser estrangeiro, de manter os vínculos e as conversações com os amigos de infância, que agora só pode encontrar nas férias, e observar o que, apesar da passagem do tempo, permanece inalterado; em outro momento, o narrador de Briante lembra que, em povoados como este, o correr do calendário não significa necessariamente a transformação ou mesmo o acontecimento.

Penso que é em “A lo largo de esta calle que da al río” que os artifícios de Briante chegam mais longe: no relato de quase oitenta  páginas, o escritor pode se aproximar de alguns dos seres de General Belgrano (La Baguala e sua filha Elena Fuentes, que vivem num rancho à beira do rio e atordoam com sua força e pobreza; o louco, talvez bruxo, talvez vidente; o silencioso homem que chega do sul e espera por um momento impreciso para agir; as tradicionais famílias da localidade que acabam ridicularizadas numa noite de carnaval), saltar do presente do cidade para um passado anterior aos personagens e então a momentos pontuais em que algo, uma frase, um confronto, atrai a atenção de todos e destrói, por um par de dias, ao menos, a modorra do povoado – porque em lugares assim o tempo e a poeira, e quem sabe o cansaço, podem mais do que o ruído, e logo recolocam as antigas peças no lugar em que costumavam estar.

Hombre en la orilla, de Miguel Briante. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2013.

Jogo de damas

Posted in Sem categoria by iurimuller on 14 de julho de 2016

É uma noite de inverno e dois homens jogam damas na Praça da Alfândega. A iluminação pública é insuficiente e está claro que pouco devem enxergar as peças. Ao redor, as bancas de artesanato, roupa, panos, redes, terminam de fechar. Penso no que farão os dois jogadores quando terminarem a enevoada partida. O primeiro homem: a) leva, na mochila que carrega nas costas, uma muda de roupa quente e uns artigos a mais, próprios para o compromisso a que planeja chegar na sequência. Para tanto, depois de ganhar ou de perder, de guardar numa caixinha as peças brancas, deve rumar ao Mercado Público e então ao subterrâneo dos trens. Primeiro, irá trocar as vestes no banheiro da estação, sempre na terceira porta. Depois, devidamente pilchado, precisa de um vagão que o deixe em Esteio, onde acontece, por volta das dez, um baile de música gaúcha, muito perto da rodovia; b) a partida termina e ele fica, na verdade, algo desorientado na Alfândega vazia. Resolve atravessar a praça, de um extremo a outro, movido por pensamentos estranhos. Agora está na breve Avenida Sepúlveda, em frente ao cais, e sabe que mais um passo não poderá dar, ainda mais naquela hora, com os portões fechados. Olha para trás, procura em meio às árvores a sombra do companheiro de damas. Quem sabe está em tempo de outra partida, a última, ele pensa, pelo menos até que uma ideia melhor de como prosseguir com a noite o assalte. Mas não vê movimento algum, o lugar, com exceção dos que dormem encolhidos nos bancos, está mesmo deserto; c) encerra o jogo com pressa, pensa mal as últimas rodadas, entrega as peças sem parar. É observado com irritação pelo companheiro de damas, que não se contenta com uma vitória tão fácil. É que havia olhado para o relógio há pouco, e crê que está no horário limite para entrar num dos inferninhos que costeiam o largo Glênio Peres, se é que desta vez terá coragem de passar pelo letreiro luminoso. O segundo homem: a) percebe que as suas peças estão mal distribuídas pelo tabuleiro e que a vitória, neste quarto desafio do dia (antes, havia vencido um engraxate da Borges com alguma velocidade, e perdido duas vezes para o garçom de uma galeteria da Rua da Praia), está mui distante. Ter de correr atrás do resultado o perturba, não sabe, nunca soube, mover bem as peças quando se sente pressionado. Consola-o a sabedoria de que ainda lhe cabem uns doze anos de vida e centenas de partidas na Praça da Alfândega e no Parque Marinha do Brasil. Com sorte, ainda fará um par de viagens a São Borja, onde o aguarda, ele crê, um antigo amor; b) mira o tabuleiro: tem mais cinco peças, o adversário conta com seis, irá ganhar ou perder em questão de minutos, e isso não importa mais. O que precisa: sair dali a tempo de pegar o seu ônibus na Salgado Filho, descer na esquina de sempre, caminhar por quatro quadras, subir três andares de escada, ligar a estufa movida a gás na sala, encontrar o controle da televisão, apontar firme para o aparelho e buscar um cobertor para, enfim, entregar-se ao que Grêmio e Sport Recife podem lhe oferecer num estádio distante.

Tagged with: ,

Ler Anna Kariénina

Posted in Literatura by iurimuller on 21 de março de 2016
Avenida Niévski, Petersbugo.

Avenida Niévski, Petersbugo.

Para ler Anna Kariénina é preciso, para além do interesse por Tolstói e da vontade de conhecer um romance clássico, uma disciplina desafiadora, ao menos para este tempo. A vasta arquitetura do romance, as dezenas de personagens, a sua extensão (oitocentas e duas páginas, divididas em oito partes) e as frequentas digressões que carregam o leitor para um ponto exterior ao texto exigem perseverança e permanência – duas condições talvez um tanto raras na literatura contemporânea.

Voltei a Anna Kariénina depois de ter abandonado o livro, há mais de um ano. Na ocasião, havia deixado o marcador por volta da página de número 200; fiz uma pausa para encadear novelas menores, livros de contos e textos teóricos e, de maneira discreta, vi que o livro voltou a se acomodar na estante dos romances inacabados. A suspensão da leitura provocou uma frustração na época, sentimento que logo se dissipou. A lista das leituras do ano seguiu farta, e não era composta apenas por livros contemporâneos. Havia mesmo algo de Tolstói: novelas de menor extensão, seus contos. Mas nada, ou quase nada, que se poderia comparar ao tamanho de Anna Kariénina.

Desta vez, a proposta era clara e feita de modo consciente para que não se pudesse voltar atrás. Iniciar no verão, num mês de poucas atividades, e dedicar um ritmo constante, diário, para que o impulso inicial não acabasse outra vez na água. As primeiras quatro partes fluíram de maneira impressionante: cinquenta páginas de leitura por dia, não menos do que isso, um esboço feito a caneta numa página que sempre acompanhava o livro, no qual estavam anotadas as relações entre os personagens e as suas cidades, para que as linhas narrativas não se perdessem, e a transcrição de uma ou outra passagem num caderno. Naquele ritmo, leria o romance em menos de um mês, sem deixar de lado as atividades profissionais obrigatórias e a leitura de outros textos menos exigentes.

Mas logo chega o momento de uma viagem para a qual se vai apenas de mochila, e colocar ali dentro o exemplar da Cosac Naify, longo e pesado, parece um exagero. São três dias em que me distancio de Tolstói, não há problema. Retorno, tento impôr o mesmo ritmo, mas algo se dispersa, me vejo às voltas com Deshoras, o último livro de contos publicado por Julio Cortázar, retiro títulos na biblioteca, leio em pouco tempo algo de Schnitzler, de Rodolfo Walsh, de Patrick Modiano, me demoro nos estudos de teoria literária. E há dias em que sento na cadeira para ler Anna Karienina e preciso levantar dali em menos de meia-hora, para não voltar naquela tarde.

As interrupções parecem inevitáveis e quase pertencentes ao romance. Leio que Tolstói abandonou a escritura, numa desistência que por pouco não foi sem volta. Chegou a dizer que “escrever corrompe a alma” e se afastou de Anna, Liévin, do conde Vrónski e do velho Cherbátski. Pôde retornar e, de maneira veloz, terminou o texto e passou a publicá-lo em capítulos. Desta vez, também não houve abandono por aqui e, embora as últimas duas partes tenham sido lidas com maior lentidão, em nenhum momento o processo se tornou penoso ou desinteressante.

Penso que o que há de mais forte em Anna Kariénina e nos romances longos de Tolstói é a forma com que os textos, para o leitor, acabam por se confundir com os dias, romper o plano da leitura e correr para toda parte. Hoje, por exemplo, quando me faltavam trinta páginas para fechar o livro, adiei inconscientemente o momento da leitura com outras tarefas, revisões, uma inesperada limpeza no espelho do banheiro, o retorno a uma novelinha que havia terminado de ler no mês passado e sobre a qual já não havia mais nada a fazer. Terminar o livro era me desprender de situações que me acompanharam quase que diariamente nos últimos dois meses.

Foram vários os momentos em que não uma passagem direta, mas uma atmosfera daquele instante da ficção, quem sabe, se deslocava do livro para o dia. A minuciosa construção do estado de ciúme e de quase-loucura que envolve a protagonista, por exemplo, e que se prolonga por centenas de páginas, deixam marcas no leitor. A angústia indeterminada de Liévin, algo que não se resolve com o desfecho, apesar da confortante marca religiosa das últimas páginas, também impacta dessa maneira. E, durante a leitura, é possível ouvir uma frase num encontro com amigos e pensar que já havia encontrado uma postura semelhante em alguém, e pouco depois perceber que se tratava não de um conhecido, mas de Stiepan Arcáditch Oblónski.

No dia 27 de fevereiro, anotei sobre o que lia: “encanta (…) a sensibilidade ao retratar momentos de decisão dos personagens: lembro Alekisei Karienin andando em círculos no seu escritório, depois de saber que foi traído; Liévin, numa noite curta de verão, deitado sobre um monte de feno, numa propriedade rural alheia, e colocando um plano em execução; Anna, em silêncio na carruagem, depois das trágicas corridas, com a verdade que não pode mais esperar na boca. (…) Para se transcrever, para que não se perca: duas caminhadas matinais, andanças por ruas ainda vazias – a radiante e sonâmbula de Liévin, em Moscou, do hotel para a casa de Kitty, onde a pediria em casamento; e a de A. Karienin pela Avenida Niévski de São Petersburgo, com as calçadas desertas, sem saber se encontra Anna viva ou morta em sua casa.

Penso que, com o livro fechado e de volta à estante, não estarei por completo desprendido de Anna Kariénina, e que uma revoada de descrições e cenas continuarão a voltar nos próximos dias. E então, logo será preciso abrir outra vez o caderno das transcrições e escrever ali para adiar um pouco mais a perda e o esquecimento.

o que fazer quando se olha o rio

Posted in Sem categoria by iurimuller on 17 de agosto de 2015

desvencilhar-se das moedas de 25 centavos e dos óculos de sol comprados no camelódromo de uma metrópole quente;
fixar os olhos com toda a força e a perseverança possíveis no horizonte e tentar enxergar o que há na outra margem;
concentrar-se no ritmo das ondas, menos espalhafatosas do que as do mar, mais gentis do que as do mar e também mais pacientes, e pensar que os rios, tão descartados pela opinião pública, podem ser mais interessantes, portanto, do que o próprio mar;
admitir que qualquer corrente de água exerce sobre qualquer um de nós uma atração ao mesmo tempo vital e suicida;
perceber que alguém já havia pensado antes sobre o que o movimento da água provoca nos seres humanos: “Dobra à esquerda. Por quê? Porque não pode resistir à atração que uma corrente de água exerce sempre sobre nós. O pobre homem não seguirá muito tempo pela margem”;
imaginar quem havia estado por último no exato lugar em que, agora, se está olhando o rio: 1) um trabalhador no intervalo do almoço; 2) um turista deslumbrado; 3) três jovens que acendem cigarros que seis meses antes eram proibidos pelo governo;
descer, não sem perigo, para a curta faixa de areia que se estende diante da água e coletar os primeiros objetos que as ondas entregarão: 1) uma garrafa vazia; 2) um bispo de plástico que pertenceu a um tabuleiro infantil de xadrez; 3) um pente vermelho com cabelos ainda enrolados nas pontas;
cogitar até onde se conseguiria nadar por aquelas águas, recordando índices inexatos de uma aula de natação da época do colégio;
dormir quarenta e cinco minutos com o barulho da água muito perto dos ouvidos e despertar, desconcertado, com outro ruído, que pode ser o de uma gaivota ou de um ciclista ou de um guarda de trânsito;
beber vinho diretamente da garrafa e observar, durante a tarde, quanto tempo o céu se demora para modificar a luz do dia e quanto tempo depois esta luz já modificada transformará a cor da água;
escrever uma carta absurda e jogá-la no rio antes que ela se torne uma carta absurda e também perigosa.

rambla1

Tagged with:

Outono, fotografia

Posted in Sem categoria by iurimuller on 16 de março de 2015

Toco numas fotos de Paris que já me pareciam esquecidas. Ao encontrá-las, sinto um estranhamento em dois sentidos: de pronto, não me parecem minhas. Não identifico, ou apenas consigo aproximar, alguns dos lugares; noutros retratos, apenas reconheço as cores, algum traço desimportante do ambiente. As coordenadas precisas me escapam. Por fim, e aqui reside o segundo estranhamento, ao mesmo tempo me agradam. Há ali um cuidado que me parecia também esquecido. Datam de dois anos atrás, quando era outono e fazia um frio mais intenso do que indicava a época.

I. Duas curvas em Paris.

_DSC0101

II. O bairro num noturno amarelo.

.
_DSC0121

III. Discreto farol no Sena.

_DSC0083

IV. Le Monde, Le Figaro, L’Équipe…

_DSC0081 (2)

V. As janelas te miram.

_DSC0084

Tagged with: , ,

“O Grande”, de Juan José Saer

Posted in Literatura by iurimuller on 7 de janeiro de 2015
epígrafes de "O Grande"

epígrafes de “O Grande”

São eles próprios mundo, realidade, destinados a segregar, em cada um de seus atos, mais mundo, mais realidade, são, mais ainda, o próprio presente, que à medida que se desloca vai criando mais presente, e ao mesmo tempo, sem perceber, afundando-nos no passado” (fragmento da página 246).

Publicado na Argentina, traduzido para idiomas estrangeiros, à disposição nas livrarias de Buenos Aires e de São Paulo, seria um erro ou uma ilusão afirmar que “O Grande”, de Juan José Saer, é um romance que não se completou. Ou ao menos uma ilusão parcial. La Gran, no título original, é o último livro do escritor santafesino e o mais longo dos seus romances; escrito na França, como ocorreu com grande parte da sua obra, o livro acompanhou Saer até as últimas semanas de vida, e algumas das páginas foram rascunhadas e lidas num hospital francês. Saer reconstitui a história de uma vida e de um regresso em sete dias de semana; o último deles, a segunda-feira, no entanto, não pôde passar da primeira frase: “Com a chuva chegou o outono e, com o outono, o tempo do vinho”. Saer morreria pouco depois, em junho de 2005.

Em “O Grande”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, tradução de Heloisa Jahn, estão as fascinações constantes de Juan José Saer: o encadeamento de frases longas, a preocupação com a pontuação que estabelece velocidades e ritmos muito próprios, alguns dos personagens que aparecem em outros momentos da sua literatura, a repetição de um espaço narrativo (a Província de Santa Fé, objeto também de sua poesia), as recordações de uma infância remota que são também gatilhos para uma narrativa profundamente ancorada no presente. Apesar das conexões, inevitáveis, ao que parece, quando se tem a consciência de que à frente do escritor está a sua última obra, a última possibilidade de se fazer literatura, “O Grande” não precisa ser lido como totalização de um projeto literário, ou como a maior das tentativas do escritor argentino na ficção.

Willi Gutiérrez voltou a Rincón, pequena cidade às margens de Santa Fé, depois de trinta anos de ausência. Viveu na Europa e atravessou três décadas sem praticamente deixar rastros ou fazer com que notícias suas encontrassem o solo argentino. De volta ao povoado local, parece ansiar pelas coisas que tinha, ou que idealizava, ou que imagina ver, antes de partir. Voltou mais rico e enigmático do que partiu, dizem os que o conheceram de antes, com um sorriso dúbio que se instala nos lábios e parece não sair dali. De uma terça-feira de chuva até o dia seguinte ao churrasco dominical que Gutiérrez planeja em sua casa para receber os amigos de antes e os que agora se fazem presentes em sua vida, “O Grande” se desenvolve com enormes e múltiplas ramificações, tal como são muitos os afluentes do Rio Paraná, famoso cartão-postal da província e que se transporta com vida para a literatura de Saer.

Durante a semana, os personagens veem o tempo passar em longas conversas, muitas vezes acompanhadas de vinho tinto, em passeios pelas margens da água, em recordações do que foram num outro tempo e dos que já não estão, e nas reflexões filosóficas que Nula, quase jovem perto dos homens e mulheres que se reencontram com Gutiérrez, leva adiante e questiona sobre as modificações do tempo sobre o espaço (é a mesma a cidade visitada depois de uma longa viagem? é a mesma a praça com que um homem se reencontra após uma caminhada de pouco mais de vinte minutos pela paisagem de todos os dias?). Ao lado de Nula, aparecem seres como Soldi e Gabriela, que se esforçam por reconstruir a vida literária da região, em especial o período das vanguardas, para o que Gutiérrez é um dos principais interlocutores.

As descrições minuciosas de Juan José Saer, que por vezes se estendem por dezenas de páginas, nalguns momentos acendem luzes de uma cor quase mágica (como o instante em que Nula recorda as sensações do tempo em que visitava os campos do avô e divide as lembranças pela memória tátil, auditiva, olfativa, gustativa e visual) e noutras, como no penúltimo capítulo, justamente o aguardado churrasco que empreende Gutiérrez, imobiliza a narrativa e faz do não-movimento um motivo de esforço para que o leitor siga adiante. “O Grande” é um livro sobre o que o tempo transforma, sobre a inevitabilidade das alterações contínuas. Parte da alma do romance pode estar na epígrafe que recupera o poeta entrerriano Juan Laurindo Ortiz, que versa e se pergunta: “Voltava. — Esse que voltava era eu?”

Ruas de dezembro

Posted in Sem categoria by iurimuller on 25 de dezembro de 2014

Nalgumas cidades do interior, quando se observa o ângulo de uma rua que sobe, quase todas as vezes uma ladeira formada por paralelepípedos, o que se vê no topo desta rua é o fim da cidade. Enxerga-se o céu, se a inclinação for de fato grande, ou o campo, paisagem que demonstra o limite do concreto, metros adiante. Em cidades muito pequenas, localidades limitadas a poucas quadras residenciais no centro e subúrbios discretos, estas visões podem surgir mesmo na praça principal, desde que haja suficiente relevo para o efeito acontecer.

Mas não é assim nesta cidade, ao menos não costuma acontecer desta maneira. Por aqui, quatro ou cinco bairros populosos preenchem toda a área central, e a periferia não é feita de planícies verdes, mas de prédios baratos e altos, de casas que se acotovelam umas nas outras e se parecem com uma casa só, larga e comprida, e não mais com uma sequência disforme de moradias, como de fato se constitui. Resta ver o céu, tela azul que nos surpreende no topo de alguma subida, quando a cidade se encontra num estado de modorra ou de quietude e as proporções quase que se modificam.

Vinte e quatro de dezembro, seis e meia da manhã: é véspera de natal, mas ele caminha (caminha com frio, o vento do amanhecer o atacou desprevenido, com pouca roupa a proteger o corpo magro) com a expressão de quem ignora por completo a situação do calendário. Volta para casa, precisa voltar para casa, a companhia da madrugada, das últimas várias madrugadas, madrugadas de sonho, ele diria, viajou no primeiro ônibus da manhã, minutos antes. Caminha com certa imprecisão; o frio faz com que tente se movimentar depressa, mas o sono o atrapalha, desequilibra um pouco as suas pernas. O passo sai torto, ele oscila pelas calçadas. De longe, poderia ser confundido com um bêbado que ruma sem destino e ainda não encontrou nenhum lugar para deitar os braços e então anda, anda indefinidamente.

Ele dormiu por apenas três horas. Das três da manhã até o instante em que precisa, às pressas, juntar os dois livros do chão, vestir-se, ajudá-la com as malas e descer as escadas, do quarto andar até o térreo. Faz isso em pouquíssimos minutos e ainda se concede o excesso de lavar o rosto e escovar os dentes, de se aquecer num abraço longo. O resto de uma garrafa de vinho (cabernet sauvignon uruguaio, treze reais no mercado da Avenida) e duas taças ficam pelo quarto, e por lá terão de esperar durante vários dias até que alguém abra a porta e retire a garrafa e as taças para a pia da cozinha.

O ritmo da cidade ainda é lento; caminha cedo demais e ainda falta tempo para o comércio abrir, para os carros se encherem de gente. Trata-se, também, de um dia atípico, mas ele não sabe ao certo se no vinte e quatro de dezembro há maior agitação ou se as pessoas dormem até mais tarde, num descanso de feriado que se antecipa. Vê os primeiros movimentos, o espreguiçar-se de uma cidade sonolenta. Faxineiras varrem o chão da relojoaria, chegam os primeiros empregados na farmácia e se esforçam para descer as grades de ferro. Sob a aba de um hotel, fuma e examina o rosto dos raros passantes um homem de roupas escuras e traços de quem veio de longe, talvez imaginando-se invisível em meio à fumaça do cigarro.

Na altura de uma esquina, algumas quadras adiante, a visão, o fenômeno óptico dos ângulos e das ladeiras, o alcança. Vai atravessar a rua, olha para os dois lados para evitar o possível encontro com um carro que chega em alta velocidade e oferece perigo, mas não se depara com automóvel algum: se depara com o céu, e aquele céu atordoa. Um céu ainda borrado, fruto cansado da batalha entre noite e dia, de um roxo que vai se tornando cada vez mais azul, espera (melhor seria dizer descansa, pois parece exausto) no alto de uma rua de paralelepípedos.

Para lá, para onde enxerga, a cidade é baixa, não crescem prédios e não aparecem os parques, não há nem mesmo uma torre de igreja a cortar a visão. O céu assume a profundidade do ângulo e indica que ali, espaços depois, termina uma parte desta cidade. Ele segue caminhando, precisa andar por mais quinze ou vinte minutos para chegar em casa e então dormir um pouco mais. Acordará por volta do meio-dia, com o telefone que toca, e na ligação simulará a voz de quem despertou cedo para ler um romance de Juan José Saer e tomar mate na sacada, enquanto a luz do dia se acomoda acima das coisas.

24.12.2014.

Buenos Aires, por Borges

Posted in Literatura by iurimuller on 20 de novembro de 2014

¿Qué será Buenos Aires?

Es la Plaza de Mayo a la que volvieron, después de haber guerreado en el continente, hombres cansados y felices.
Es el dédalo creciente de luces que divisamos desde el avión y bajo el cual están la azotea, la vereda, el último patio, las cosas quietas.
Es el paredón de la Recoleta contra el cual murió, ejecutado, uno de mis mayores.
Es un gran árbol de la calle Junín que, sin saberlo, nos depara sombra y frescura.
Es una larga calle de casas bajas, que pierde y transfigura el poniente.
Es la Dársena Sur de la que zarpaban el Saturno y el Cosmos.
Es la vereda de Quintana en la que mi padre, que había estado ciego, lloró porque veía las antiguas estrellas.
Es una puerta numerada, detrás de la cual, en la oscuridad, pasé diez días y diez noches, inmóvil, días y noches que no son en la memoria un instante.
Es el jinete de pesado metal que proyecta desde lo alto su serie cíclica de sombras.
Es el mismo jinete bajo la lluvia.
Es una esquina de la calle Perú, en la que Julio César Dabove nos dijo que el peor pecado que puede cometer
un hombre es engendrar un hijo y sentenciarlo a esta vida espantosa.
Es Elvira de Alvear, escribiendo en cuidadosos cuadernos una larga novela, que al principio estaba hecha de
palabras y al fin de vagos rasgos indescifrables.
Es la mano de Norah, trazando el rostro de una amiga que es también el de un ángel.
Es una espada que ha servido en las guerras y que es menos un arma que una memoria.
Es una divisa descolorida o un daguerrotipo gastado, cosas que son del tiempo.
Es el día en que dejamos a una mujer y el día en que una mujer nos dejó.
Es aquel arco de la calle Bolívar desde el cual se divisa la Biblioteca.
Es la habitación de la Biblioteca, en la que descubrimos, hacia 1957, la lengua de los ásperos sajones, la
lengua del coraje y de la tristeza.
Es la pieza contigua, en la que murió Paul Groussac.
Es el último espejo que repitió la cara de mi padre.
Es la cara de Cristo que vi en el polvo, deshecha a martillazos, en una de las naves de la Piedad.
Es una alta casa del Sur en la que mi mujer y yo traducimos a Whitman, cuyo gran eco ojalá resuene en esta página.
Es Lugones, mirando por la ventanilla del tren las formas que se pierden y pensando que ya no lo abruma el deber de traducirlas para siempre en palabras, porque este viaje será el último.
Es, en la deshabitada noche, cierta esquina del Once en la que Macedonio Fernández, que ha muerto, sigue
explicándome que la muerte es una falacia.
No quiero proseguir; estas cosas son demasiado individuales, son demasiado lo que son, para ser también Buenos Aires.
Buenos Aires es la otra calle, la que no pisé nunca, es el centro secreto de las manzanas, los patios últimos,
es lo que las fachadas ocultan, es mi enemigo, si lo tengo, es la persona a quien le desagradan mis versos
(a mí me desagradan también), es la modesta librería en que acaso entramos y que hemos olvidado, es esa
racha de milonga silbada que no reconocemos y que nos toca, es lo que se ha perdido y lo que será, es lo
ulterior, lo ajeno, lo lateral, el barrio que no es tuyo ni mío, lo que ignoramos y queremos.

Em ‘Elogio de la sombra’, de 1969.