Calle Soriano

O ruído das coisas ao cair

Posted in Literatura by iurimuller on 27 de maio de 2013
Alfaguara, 2013. Tradução de Ivone Benedetti.

Alfaguara, 2013. Tradução de Ivone Benedetti.

“Naqueles dias minha cidade começava a desprender-se dos anos mais violentos de sua história recente. Não estou falando da violência de facadas ordinárias e tiros perdidos, de acerto de contas entre traficantes de pouca importância, mas daquela que transcende os pequenos ressentimentos e as pequenas vinganças da gente miúda, da violência cujos atores são coletivos e escritos com maiúscula: Estado, Cartel, Exército, Frente. Nós, bogotanos, tínhamos nos acostumado com ela, em parte porque suas imagens nos chegavam com portentosa regularidade em noticiários e jornais.”
(Juan Gabriel Vázquez, “O ruído das coisas ao cair”)

No romance mencionado na epígrafe, Juan Gabriel Vázquez narra o tempo em que a a cidade de Bogotá começava a se desprender dos anos mais violentos de sua história recente. Ainda assim, mesmo que sem os episódios espetaculares da batalha urbana – o narcotraficante que mandava mais que o presidente, os assassinatos nas ruas centrais em qualquer hora do dia, os aviões que caíam com bombas do Cartel de Medellín – as balas e as mortes nunca largaram a Colômbia de vista. Mais do que nada, muito se explica pela alta desigualdade social que coloca o país como o terceiro maior abismo entre ricos e pobres do continente, e pela vigência do conflito armado que se estende ao longo das décadas.

Governo e FARC – o maior grupo guerrilheiro, mas não o único, mesmo em tempos de esvaziamento nas organizações armadas – hoje sentam na mesa de diálogo formada em Havana e parecem finalmente não ter pressa para abandonar as cadeiras. Juan Manuel Santos, o presidente, em nenhum momento interrompeu as operações militares que colocam o Exército atrás dos guerrilheiros, mas parece não ter o mesmo fervor de Álvaro Uribe – o presidente que, segundo opinião unânime na esquerda, apostou no paramilitarismo para desestruturar as organizações ditas revolucionárias. De qualquer modo, desde Cuba chegam notícias de que o diálogo caminha, e que nos últimos dias houve acerto sobre tratativas relacionadas à questão agrária.

Já em “O ruído das coisas ao cair”, Vázquez conta como o medo da violência – e a paranoia gerada por uma bala que atinge um destino inesperado – se instala no corpo e nas ideias de Antonio Yammara, professor de Direito em Bogotá e jogador de sinuca nos intervalos da vida universitária. Yammara em algum momento conhece Ricardo Laverde, que habita o bar próximo à universidade. Laverde – o dedo sempre sujo de giz, pouca eficiência nas tacadas, a sensação de apenas deixar o tempo passar enquanto as bolas do jogo caem nas redes – em pouco tempo se torna algo parecido como um amigo. Amigo que, há pouco tempo, havia saído da prisão, e que aguarda ansioso o regresso da antiga companheira dos Estados Unidos.

Mas há mais: além de Yammara e Laverde, não passam sem huellas pelo romance Aura Rodríguez e sua filha Letícia, Elena Fritz e sua filha Maya. Há quem se ocupe do pavor que perturba o cotidiano do marido, quem não se permita ficar em Bogotá depois que o sol caia, quem nasça depois que o terror finalmente passou por ali. O romance é daqueles que te fazem sorrir sem perceber quando se leva dentro da mochila. Creio que Vázquez arrisca muito ao traçar o retrato dos habitantes de um lugar que lida como pode com o medo, esta presença diária que aparece sem avisar numa esquina do Centro, no cheiro de uma carta antiga, na recordação que já parece inventada. E, entre tantos riscos, o autor chega bastante longe.

***

Um trecho a mais:

“Eu tinha catorze anos naquela tarde de 1984 em que Pablo Escobar matou ou mandou matar seu perseguidor mais ilustre, o ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla (dois assassinos de aluguel numa moto, numa curva da rua 127). Tinha dezesseis anos quando Escobar matou ou mandou matar Guilherme Cano, diretor de El Espectador (a poucos metros das instalações do jornal, o assassino deu-lhe oito tiros no peito). Tinha dezenove e já era um adulto, embora ainda não tivesse votado, quando morreu Luis Carlos Galán, candidato à presidência do país, cujo assassinato foi diferente ou é diferente em nosso imaginário porque foi visto pela tevê: a manifestação que aclamava Galán, depois as rajadas de metralhadora, depois o corpo a desabar sobre o estrado de madeira, caindo sem ruído ou com ruído abafado pelo tumulto e pelos primeiros gritos. E pouco depois foi o avião da Avianca, um Boeing 727-21 que Escobar mandou explodir no ar – em algum lugar do ar que há entre Bogotá e Cali – para matar um político que nem sequer estava lá”.

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Uma resposta

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  1. Sul 21 » O ruído das coisas ao cair said, on 28 de maio de 2013 at 21:05

    […]  Leia mais. […]


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