Calle Soriano

Água morna

Posted in Crônica by iurimuller on 9 de fevereiro de 2014

Nem bem entrou no banheiro feminino, foi olhado por duas mulheres que antes buscavam encontrar a própria imagem no espelho descuidado. Da torneira, jorrava uma água morna, fruto do verão intratável que esquentava as caixas d’água. O espelho só era menos sujo do que o chão, superfície que não via o pano e a vassoura há uns quantos dias. Mas as condições de higiene nunca surpreenderam ninguém que entrasse à tarde no banheiro da estação rodoviária de Caçapava do Sul – ao contrário da presença daquele homem no lugar, esta sim nitidamente anormal.

A primeira mulher, a que estava mais perto do homem que agora a mirava com olhos de espanto, não reagiu com palavra alguma. Assustou-se ela também, terminou de lavar o rosto e ergueu rapidamente as duas sacolas do chão. Ao passar pela porta, desajeitada, esbarrou sem força nos ombros do homem, que permaneceu impassível, em pé. Em frente à segunda pia, um pouco mais distante da entrada, a outra mulher (jovem e bonita, ao menos em relação a primeira) mostrou-se corajosa:

– Eu não vou sair, não adianta ficar me olhando assim. E não vou parar de fazer o que estou fazendo. Tu é que vai sair daqui, e é bom que saia antes que eu grite.

O homem, que vestia uma camisa manchada pelo suor daquela tarde quente, não demorou sequer um momento para ruborizar-se. Já havia aberto a boca para tentar justificar a sua permanência ali, imóvel, como se estivesse a espiar as mulheres, quando uma das portinholas internas se abriu. Amparada pela bengala azul e de óculos escuros, Maria deixou o espaço de banho e caminhou em direção ao espelho, tateando as paredes brancas com as mãos.

– Estou aqui, querida. Pode vir devagar, disse ele, olhando para o chão.

O homem então enganchou o seu braço no de Maria, e os dois saíram do banheiro em silêncio. Minutos depois, estavam em frente ao único guichê aberto, onde compraram duas passagens para o ônibus que sairia no fim do dia em direção a Bagé. No quarteirão da estação rodoviária de Caçapava do Sul, há sete bares que vendem pratos-feitos, frituras, cervejas e cachaças. Mas isso aconteceu num domingo, de modo que apenas um deles estava aberto, e a cidade quase que vazia.

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