Calle Soriano

“Noturno indiano”, Antonio Tabucchi

Posted in Literatura by iurimuller on 19 de fevereiro de 2014
Escrito em 1984, publicado pela Cosac Naify no Brasil em 2012.

Escrito em 1984, publicado pela Cosac Naify no Brasil em 2012.

Como escrever sobre o “Noturno indiano” de Tabucchi? A começar, quem sabe, pela frase da fotógrafa francesa que o narrador encontra numa das últimas passagens da novela: “desconfie dos trechos escolhidos”.

1. Quase um segundo livro pode ser encontrado – ou imaginado – para além da moldura do texto apresentado por Tabucchi. Neste relato de viagem, a maior parte dos dias de expedição passa sem qualquer nota, assim como alguns encontros são suprimidos e os diálogos bruscamente interrompidos. O que a novela alcança ao leitor é o objetivo dos deslocamentos – encontrar alguém, “uma Sombra”, este Xavier que parece ter se perdido no país asiático.

2. Ao início, Tabucchi lista os lugares e cidades da Índia em que a narrativa se desenvolve. Como o Beach Candy Hospital, de Mumbai, provavelmente uma pista falsa nesta procura, os hoteis de luxo em regiões ainda assoladas pela miséria, a sede da Sociedade Teosófica, em Madras (por onde passam ecos de Fernando Pessoa, poeta português traduzido por Tabucchi), estações de trem e paradas de beira da estrada. O italiano, na nota prévia, convida o leitor comovido a seguir os seus passos: “(…) a ilusão de que um repertório topográfico, com a força que o real possui, pudesse iluminar este Noturno em que se procura uma Sombra; ou então a irracional conjectura de que algum amante de percursos incongruentes pudesse um dia utilizá-lo como guia”.

3. Sobrevoa o romance certa atmosfera mística, que o narrador-personagem não parece aceitar de todo. Há, além das cartas de Madras, endereçadas aos membros da Sociedade Teosófica, um encontro na estrada que leva o viajante a Mangalore. Naquela parada de ônibus, descrita pelo escritor como um barracão mal iluminado às margens da pista, o narrador se defronta com um adivinho (um pequeno homem com membros e rosto deformados) e seu irmão, espécie de tradutor. O adivinho, ainda que tenha recebido dinheiro, tem dificuldades para decifrar o “karma” e o “atma” do narrador. Limita-se a observar a cena de um barco ao mar, com muitas luzes ao seu redor. “Mais não vê, é inútil insistir”, resigna-se o irmão.

4. Em certos momentos, a novela aproxima o leitor do passado em comum que parece ter existido entre Xavier e o narrador. Há menções a duas mulheres do mesmo círculo – Magda, Isabel – e de um convívio que tinha dado, a cada um dos quatro, um apelido. O de Xavier (Nightingale) seria evocado outra vez no desenrolar da novela. “Fiquei muito tempo na cama pensando naqueles momentos, percorri de novo paisagens, rostos, vidas. Lembrei os passeios de carro através dos pinherais, os nomes que tínhamos dado uns aos outros, o violão de Xavier e a voz aguda de Magda, que anunciava com irônica gravidade, imitando os ambulantes das feiras: senhoras e senhores, atenção, temos conosco o Rouxinol Italiano! E eu entrava no jogo e começava a cantar velhas canções napolitanas (…)”.

5. Destino histórico de escritores, a Índia pintada neste Noturno é encantadora e misteriosa. É o país do hospital de Mumbai, situado num bairro em que a corrente elétrica é tão fraca à noite que os ventiladores de teto não podem aliviar o calor dos enfermos. É o país dos templos religiosos, em que “ser ateu é a pior maldição”, das longas distâncias, dos portugueses que passaram por Goa, do luxo em contraste permanente com a miséria e a desolação.

6. E, ao fim e ao cabo, ele pôde encontrar a Sombra perseguida? Numa noite quente do Oberoi Hotel, na costa de Goa, talvez tenham estado separados por poucas mesas, ou este é apenas o final pensado para o livro que o narrador afirma escrever sobre a viagem. Um livro em que poucas pontas apareceriam, novela de acontecimentos nublados, tal qual o “Noturno indiano”. “Mas nesse livro tudo está fora da moldura?”, pergunta a fotógrafa no amplo pátio do Oberoi. Guiada pela caneta impecável de Tabucchi, a história deste Noturno permanece para o leitor mesmo muito depois do ponto final.

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