Calle Soriano

Ruas de dezembro

Posted in Sem categoria by iurimuller on 25 de dezembro de 2014

Nalgumas cidades do interior, quando se observa o ângulo de uma rua que sobe, quase todas as vezes uma ladeira formada por paralelepípedos, o que se vê no topo desta rua é o fim da cidade. Enxerga-se o céu, se a inclinação for de fato grande, ou o campo, paisagem que demonstra o limite do concreto, metros adiante. Em cidades muito pequenas, localidades limitadas a poucas quadras residenciais no centro e subúrbios discretos, estas visões podem surgir mesmo na praça principal, desde que haja suficiente relevo para o efeito acontecer.

Mas não é assim nesta cidade, ao menos não costuma acontecer desta maneira. Por aqui, quatro ou cinco bairros populosos preenchem toda a área central, e a periferia não é feita de planícies verdes, mas de prédios baratos e altos, de casas que se acotovelam umas nas outras e se parecem com uma casa só, larga e comprida, e não mais com uma sequência disforme de moradias, como de fato se constitui. Resta ver o céu, tela azul que nos surpreende no topo de alguma subida, quando a cidade se encontra num estado de modorra ou de quietude e as proporções quase que se modificam.

Vinte e quatro de dezembro, seis e meia da manhã: é véspera de natal, mas ele caminha (caminha com frio, o vento do amanhecer o atacou desprevenido, com pouca roupa a proteger o corpo magro) com a expressão de quem ignora por completo a situação do calendário. Volta para casa, precisa voltar para casa, a companhia da madrugada, das últimas várias madrugadas, madrugadas de sonho, ele diria, viajou no primeiro ônibus da manhã, minutos antes. Caminha com certa imprecisão; o frio faz com que tente se movimentar depressa, mas o sono o atrapalha, desequilibra um pouco as suas pernas. O passo sai torto, ele oscila pelas calçadas. De longe, poderia ser confundido com um bêbado que ruma sem destino e ainda não encontrou nenhum lugar para deitar os braços e então anda, anda indefinidamente.

Ele dormiu por apenas três horas. Das três da manhã até o instante em que precisa, às pressas, juntar os dois livros do chão, vestir-se, ajudá-la com as malas e descer as escadas, do quarto andar até o térreo. Faz isso em pouquíssimos minutos e ainda se concede o excesso de lavar o rosto e escovar os dentes, de se aquecer num abraço longo. O resto de uma garrafa de vinho (cabernet sauvignon uruguaio, treze reais no mercado da Avenida) e duas taças ficam pelo quarto, e por lá terão de esperar durante vários dias até que alguém abra a porta e retire a garrafa e as taças para a pia da cozinha.

O ritmo da cidade ainda é lento; caminha cedo demais e ainda falta tempo para o comércio abrir, para os carros se encherem de gente. Trata-se, também, de um dia atípico, mas ele não sabe ao certo se no vinte e quatro de dezembro há maior agitação ou se as pessoas dormem até mais tarde, num descanso de feriado que se antecipa. Vê os primeiros movimentos, o espreguiçar-se de uma cidade sonolenta. Faxineiras varrem o chão da relojoaria, chegam os primeiros empregados na farmácia e se esforçam para descer as grades de ferro. Sob a aba de um hotel, fuma e examina o rosto dos raros passantes um homem de roupas escuras e traços de quem veio de longe, talvez imaginando-se invisível em meio à fumaça do cigarro.

Na altura de uma esquina, algumas quadras adiante, a visão, o fenômeno óptico dos ângulos e das ladeiras, o alcança. Vai atravessar a rua, olha para os dois lados para evitar o possível encontro com um carro que chega em alta velocidade e oferece perigo, mas não se depara com automóvel algum: se depara com o céu, e aquele céu atordoa. Um céu ainda borrado, fruto cansado da batalha entre noite e dia, de um roxo que vai se tornando cada vez mais azul, espera (melhor seria dizer descansa, pois parece exausto) no alto de uma rua de paralelepípedos.

Para lá, para onde enxerga, a cidade é baixa, não crescem prédios e não aparecem os parques, não há nem mesmo uma torre de igreja a cortar a visão. O céu assume a profundidade do ângulo e indica que ali, espaços depois, termina uma parte desta cidade. Ele segue caminhando, precisa andar por mais quinze ou vinte minutos para chegar em casa e então dormir um pouco mais. Acordará por volta do meio-dia, com o telefone que toca, e na ligação simulará a voz de quem despertou cedo para ler um romance de Juan José Saer e tomar mate na sacada, enquanto a luz do dia se acomoda acima das coisas.

24.12.2014.

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