Calle Soriano

“O Grande”, de Juan José Saer

Posted in Literatura by iurimuller on 7 de janeiro de 2015
epígrafes de "O Grande"

epígrafes de “O Grande”

São eles próprios mundo, realidade, destinados a segregar, em cada um de seus atos, mais mundo, mais realidade, são, mais ainda, o próprio presente, que à medida que se desloca vai criando mais presente, e ao mesmo tempo, sem perceber, afundando-nos no passado” (fragmento da página 246).

Publicado na Argentina, traduzido para idiomas estrangeiros, à disposição nas livrarias de Buenos Aires e de São Paulo, seria um erro ou uma ilusão afirmar que “O Grande”, de Juan José Saer, é um romance que não se completou. Ou ao menos uma ilusão parcial. La Gran, no título original, é o último livro do escritor santafesino e o mais longo dos seus romances; escrito na França, como ocorreu com grande parte da sua obra, o livro acompanhou Saer até as últimas semanas de vida, e algumas das páginas foram rascunhadas e lidas num hospital francês. Saer reconstitui a história de uma vida e de um regresso em sete dias de semana; o último deles, a segunda-feira, no entanto, não pôde passar da primeira frase: “Com a chuva chegou o outono e, com o outono, o tempo do vinho”. Saer morreria pouco depois, em junho de 2005.

Em “O Grande”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, tradução de Heloisa Jahn, estão as fascinações constantes de Juan José Saer: o encadeamento de frases longas, a preocupação com a pontuação que estabelece velocidades e ritmos muito próprios, alguns dos personagens que aparecem em outros momentos da sua literatura, a repetição de um espaço narrativo (a Província de Santa Fé, objeto também de sua poesia), as recordações de uma infância remota que são também gatilhos para uma narrativa profundamente ancorada no presente. Apesar das conexões, inevitáveis, ao que parece, quando se tem a consciência de que à frente do escritor está a sua última obra, a última possibilidade de se fazer literatura, “O Grande” não precisa ser lido como totalização de um projeto literário, ou como a maior das tentativas do escritor argentino na ficção.

Willi Gutiérrez voltou a Rincón, pequena cidade às margens de Santa Fé, depois de trinta anos de ausência. Viveu na Europa e atravessou três décadas sem praticamente deixar rastros ou fazer com que notícias suas encontrassem o solo argentino. De volta ao povoado local, parece ansiar pelas coisas que tinha, ou que idealizava, ou que imagina ver, antes de partir. Voltou mais rico e enigmático do que partiu, dizem os que o conheceram de antes, com um sorriso dúbio que se instala nos lábios e parece não sair dali. De uma terça-feira de chuva até o dia seguinte ao churrasco dominical que Gutiérrez planeja em sua casa para receber os amigos de antes e os que agora se fazem presentes em sua vida, “O Grande” se desenvolve com enormes e múltiplas ramificações, tal como são muitos os afluentes do Rio Paraná, famoso cartão-postal da província e que se transporta com vida para a literatura de Saer.

Durante a semana, os personagens veem o tempo passar em longas conversas, muitas vezes acompanhadas de vinho tinto, em passeios pelas margens da água, em recordações do que foram num outro tempo e dos que já não estão, e nas reflexões filosóficas que Nula, quase jovem perto dos homens e mulheres que se reencontram com Gutiérrez, leva adiante e questiona sobre as modificações do tempo sobre o espaço (é a mesma a cidade visitada depois de uma longa viagem? é a mesma a praça com que um homem se reencontra após uma caminhada de pouco mais de vinte minutos pela paisagem de todos os dias?). Ao lado de Nula, aparecem seres como Soldi e Gabriela, que se esforçam por reconstruir a vida literária da região, em especial o período das vanguardas, para o que Gutiérrez é um dos principais interlocutores.

As descrições minuciosas de Juan José Saer, que por vezes se estendem por dezenas de páginas, nalguns momentos acendem luzes de uma cor quase mágica (como o instante em que Nula recorda as sensações do tempo em que visitava os campos do avô e divide as lembranças pela memória tátil, auditiva, olfativa, gustativa e visual) e noutras, como no penúltimo capítulo, justamente o aguardado churrasco que empreende Gutiérrez, imobiliza a narrativa e faz do não-movimento um motivo de esforço para que o leitor siga adiante. “O Grande” é um livro sobre o que o tempo transforma, sobre a inevitabilidade das alterações contínuas. Parte da alma do romance pode estar na epígrafe que recupera o poeta entrerriano Juan Laurindo Ortiz, que versa e se pergunta: “Voltava. — Esse que voltava era eu?”

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