Calle Soriano

Sobre “A ocasião”, de Saer

Posted in Sem categoria by iurimuller on 12 de setembro de 2017

Busquei a edição brasileira de A ocasião, de Juan José Saer, por um estranho e certamente contraditório motivo: voltar a ler algo em português em meio à maratona de leituras hispânicas, boa parte dela, justamente, feita de textos de e sobre Saer. Foi a forma encontrada para, ao mesmo tempo, voltar ao meu idioma e não me afastar do texto do autor neste momento. A tradução de Paulina Wacht e de Ari Roitman para a Companhia das Letras foi editada em 2005 no Brasil, e A ocasião aparece ao lado de A pesquisa, Ninguém nada nunca, O enteado e O Grande entre os livros de Saer que a editora publicou. O estranho é que o autor não consta mais no catálogo da editora em seu site, e não sei dizer se isso se deve a um critério editorial, a algum erro ou desatenção ou se a editora perdeu os direitos de publicação do escritor no país.

A ocasião (1988, no original) é um texto-chave para entender o processo de escritura de Saer: no breve romance, estão presentes alguns dos elementos reiterados da sua narração, certas obsessões temáticas e um trabalho particular de linguagem. Se a frase e o parágrafo por vezes são esticados, enovelados e reencaixados ao infinito em textos como Ninguém nada nunca e Glosa (sem tradução para o português), em A ocasião o que se vê é um Saer digamos que mais veloz: aqui, a linguagem por vezes se ocupa mais das pretensões do enredo do que do seu próprio recolhimento, e as diversas modulações no tempo da narrativa também estimulam o emprego desta quase velocidade.

Espécie de pré-história dos textos que se ocuparão do território de Santa Fé em seus romances, o texto se afasta da temporalidade de personagens conhecidos da constelação literária do autor, como Tomatis, Gato e Pichón Garay e Washington Noriega, por exemplo, e se infiltra na relação entre Bianco, um ocultista europeu que, perseguido pelos positivistas de Paris, se exila na Argentina do final do século XIX, e Gina, uma jovem santafesina que logo se aproxima de Bianco. Entre Gina e Bianco, pairam umas quantas dúvidas – indefinições persistentes, angustiantes (ao menos para Bianco, visto que Gina parece, com o passar das páginas, se encastelar em um estoicismo inquebrável e silencioso) e que acabam por se tornar labirínticas.

O ponto de inflexão do texto, rapidamente perceberá o leitor, acontece no momento em que, depois de cavalgar sob chuva, entre o final de uma tarde e o começo da noite, da sua cabana no campo em direção à casa na cidade, Bianco encontra Gina em uma ocasião ambígua com o seu único amigo no país, o doutor Garay López – médico em Buenos Aires, herdeiro de uma das tradicionais famílias da região e sempre disposto ao galanteio inconsequente, às caminhadas com Bianco por este novo lugar e à conversação sobre o que separa e distingue o espírito da matéria; discussão que, para o europeu, custou a viagem para além-mar, o desterro e quem sabe o arrefecimento dos seus poderes.

Desde então, a mesma cena retorna, uma e outra vez, nunca com as mesmas cores, sempre mais sórdida, em uma escalada enlouquecedora, à memória de Bianco, que não pode mais viver em paz sem descobrir se houve de fato algo entre a sua mulher e o amigo: “Sentada numa poltrona, com o pescoço apoiado no encosto, a cabeça um pouco jogada para trás, as pernas esticadas e os calcanhares apoiados em outra poltrona, os sapatos de cetim verde jogados ao acaso pelo chão, Gina, de olhos semicerrados e expressão de prazer intenso e, para Bianco, um tanto equívoco, está dando uma profunda sugada num grosso charuto que sustenta entre o indicador e o dedo médio da mão direita. Em outra poltrona, com um cálice de conhaque na mão, um pouco inclinado na direção dela, Garay López lhe diz alguma coisa com expressão malévola, e Bianco não consegue saber se a expressão de prazer de Gina vem do charuto ou das palavras de Garay López que ela, apesar dos olhos semicerrados, parece ouvir com atenção sonhadora” (p. 29-30).

É Garay López o personagem que aproxima, no interior da obra de Saer, os textos que se situam antes, no tempo da narrativa, com os contos e romances contemporâneos do cosmos santafesino. A família Garay, tida como uma das fundadoras da cidade, desta zona geográfica na qual mergulha Saer, aparece de modo onipresente em sua obra: para além dos irmãos Gato e Pichón, protagonistas ou personagens secundários em distintos textos, também há espaço para o Garay López, o melancólico juiz de Cicatrices e, em A ocasião para o personagem homônimo, central para o desenvolvimento da narrativa.

A reiteração dos nomes próprios e dos sobrenomes e o vínculo com romances e contos anteriores coabitam este espaço de repetições com a incidência dos fenômenos naturais, do calor, das estações indefinidas, da chegada de tormentosas chuvas no enredo: como em outros textos de Saer, o clima incide bruscamente na narrativa, move algumas das ações dos personagens, desloca algumas convicções. Afugenta ou atrai mosquitos, atiça o ânimo dos cavalos, provoca cenas ambíguas entre seres humanos, espalha ou impede o avançar da peste.

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