Calle Soriano

Haikus, de César Aira

Posted in Sem categoria by iurimuller on 8 de fevereiro de 2018

Haikus, editora Mate.

Publicado pela pequena editora Mate, do tamanho de um envelope para balas, Haikus (2005) é uma das dezenas de novelinhas que César Aira espalhou, em desordenada difusão, pelas livrarias da Argentina. Busquei o livro na estante, onde esperava pela leitura desde que chegou de uma já remota viagem, depois de ler o ensaio de Fabián Casas na Review: escreve Casas sobre a poética de Aira, o vínculo do autor com a arte contemporânea e os seus inimigos, sobre a caótica distribuição dos livros de Aira no mercado editorial, a aparente despretensão que habita as suas novelas – que são dezenas, quase todas beirando as cem páginas, para mais ou para menos, por vezes editadas por casas invisíveis, ou desaparecidas, ou interioranas, ou, para que tudo se embaralhe, em alguns casos também pelas maiores do país.

Também reúne Casas, em seu texto, algumas das opiniões de Aira sobre a literatura argentina e os seus contemporâneos; sobre Saer, por exemplo, são graciosas as apreciações do autor nascido em Coronel Pringles, província de Buenos Aires.

Haikus se forma com a progressão de um solilóquio ensimesmado (nem todo solilóquio é necessariamente ensimesmado; pode se bifurcar infinitamente por um labirinto de temas e variações), da cobrança, entre desesperada e violenta, de uma dívida de reduzido valor por parte de um homem que afunda – e afunda em uma cidade, Buenos Aires, igualmente endividada e em crise, cidade que também ela se aproxima da loucura e que se debate entre os extremos do clima. Na novela o termômetro é um pêndulo que marcha do calor atroz que deixa idosos mortos pelas casas e ruas, até o frio quase polar que castiga e acelera a decadência dos que precisam sobreviver à intempérie.

Cada capítulo de Haikus é, ao mesmo tempo, um canto, uma oração e uma ameaça de morte; ou, mais do que nada, palavras que um homem joga ao vento, visto que não parecem nunca encontrar o seu interlocutor. Palavras com as que se imagina um novo dia possível com o pagamento da incessante dívida. Se o pagamento chegasse, pensa o narrador, poderia escapar, por alguns minutos, por meia hora, com sorte, das garras da tarde quente, sentar-se em um bar de esquina e, com o dinheiro que chega, pedir a cerveja mais gelada e ver a gente que passa. Poderia, também, refugiar-se por uma vez que seja no presente imediato, protegido, na evasão do momento, do tempo que verte: “el tiempo pasa todo el tiempo; hasta cuando no pasa nunca, está pasando, porque es lo único que hace (…). Y mis urgencias son mucho más inmediatas, estoy en otro ritmo: soy el segundero del reloj, y vos te estás portando como la aguja de la hora, cuyo movimiento nadie alcanza a discernir”.

É certo que o relógio e o verão e a cidade e a rua voltariam, logo depois, a recuperar a sua autoridade, sua violência. Mas, se ao menos a dívida fosse paga, algo teria se modificado: afinal, já seria possível voltar a pensar em outra coisa.

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