Calle Soriano

Ler Anna Kariénina

Posted in Literatura by iurimuller on 21 de março de 2016
Avenida Niévski, Petersbugo.

Avenida Niévski, Petersbugo.

Para ler Anna Kariénina é preciso, para além do interesse por Tolstói e da vontade de conhecer um romance clássico, uma disciplina desafiadora, ao menos para este tempo. A vasta arquitetura do romance, as dezenas de personagens, a sua extensão (oitocentas e duas páginas, divididas em oito partes) e as frequentas digressões que carregam o leitor para um ponto exterior ao texto exigem perseverança e permanência – duas condições talvez um tanto raras na literatura contemporânea.

Voltei a Anna Kariénina depois de ter abandonado o livro, há mais de um ano. Na ocasião, havia deixado o marcador por volta da página de número 200; fiz uma pausa para encadear novelas menores, livros de contos e textos teóricos e, de maneira discreta, vi que o livro voltou a se acomodar na estante dos romances inacabados. A suspensão da leitura provocou uma frustração na época, sentimento que logo se dissipou. A lista das leituras do ano seguiu farta, e não era composta apenas por livros contemporâneos. Havia mesmo algo de Tolstói: novelas de menor extensão, seus contos. Mas nada, ou quase nada, que se poderia comparar ao tamanho de Anna Kariénina.

Desta vez, a proposta era clara e feita de modo consciente para que não se pudesse voltar atrás. Iniciar no verão, num mês de poucas atividades, e dedicar um ritmo constante, diário, para que o impulso inicial não acabasse outra vez na água. As primeiras quatro partes fluíram de maneira impressionante: cinquenta páginas de leitura por dia, não menos do que isso, um esboço feito a caneta numa página que sempre acompanhava o livro, no qual estavam anotadas as relações entre os personagens e as suas cidades, para que as linhas narrativas não se perdessem, e a transcrição de uma ou outra passagem num caderno. Naquele ritmo, leria o romance em menos de um mês, sem deixar de lado as atividades profissionais obrigatórias e a leitura de outros textos menos exigentes.

Mas logo chega o momento de uma viagem para a qual se vai apenas de mochila, e colocar ali dentro o exemplar da Cosac Naify, longo e pesado, parece um exagero. São três dias em que me distancio de Tolstói, não há problema. Retorno, tento impôr o mesmo ritmo, mas algo se dispersa, me vejo às voltas com Deshoras, o último livro de contos publicado por Julio Cortázar, retiro títulos na biblioteca, leio em pouco tempo algo de Schnitzler, de Rodolfo Walsh, de Patrick Modiano, me demoro nos estudos de teoria literária. E há dias em que sento na cadeira para ler Anna Karienina e preciso levantar dali em menos de meia-hora, para não voltar naquela tarde.

As interrupções parecem inevitáveis e quase pertencentes ao romance. Leio que Tolstói abandonou a escritura, numa desistência que por pouco não foi sem volta. Chegou a dizer que “escrever corrompe a alma” e se afastou de Anna, Liévin, do conde Vrónski e do velho Cherbátski. Pôde retornar e, de maneira veloz, terminou o texto e passou a publicá-lo em capítulos. Desta vez, também não houve abandono por aqui e, embora as últimas duas partes tenham sido lidas com maior lentidão, em nenhum momento o processo se tornou penoso ou desinteressante.

Penso que o que há de mais forte em Anna Kariénina e nos romances longos de Tolstói é a forma com que os textos, para o leitor, acabam por se confundir com os dias, romper o plano da leitura e correr para toda parte. Hoje, por exemplo, quando me faltavam trinta páginas para fechar o livro, adiei inconscientemente o momento da leitura com outras tarefas, revisões, uma inesperada limpeza no espelho do banheiro, o retorno a uma novelinha que havia terminado de ler no mês passado e sobre a qual já não havia mais nada a fazer. Terminar o livro era me desprender de situações que me acompanharam quase que diariamente nos últimos dois meses.

Foram vários os momentos em que não uma passagem direta, mas uma atmosfera daquele instante da ficção, quem sabe, se deslocava do livro para o dia. A minuciosa construção do estado de ciúme e de quase-loucura que envolve a protagonista, por exemplo, e que se prolonga por centenas de páginas, deixam marcas no leitor. A angústia indeterminada de Liévin, algo que não se resolve com o desfecho, apesar da confortante marca religiosa das últimas páginas, também impacta dessa maneira. E, durante a leitura, é possível ouvir uma frase num encontro com amigos e pensar que já havia encontrado uma postura semelhante em alguém, e pouco depois perceber que se tratava não de um conhecido, mas de Stiepan Arcáditch Oblónski.

No dia 27 de fevereiro, anotei sobre o que lia: “encanta (…) a sensibilidade ao retratar momentos de decisão dos personagens: lembro Alekisei Karienin andando em círculos no seu escritório, depois de saber que foi traído; Liévin, numa noite curta de verão, deitado sobre um monte de feno, numa propriedade rural alheia, e colocando um plano em execução; Anna, em silêncio na carruagem, depois das trágicas corridas, com a verdade que não pode mais esperar na boca. (…) Para se transcrever, para que não se perca: duas caminhadas matinais, andanças por ruas ainda vazias – a radiante e sonâmbula de Liévin, em Moscou, do hotel para a casa de Kitty, onde a pediria em casamento; e a de A. Karienin pela Avenida Niévski de São Petersburgo, com as calçadas desertas, sem saber se encontra Anna viva ou morta em sua casa.

Penso que, com o livro fechado e de volta à estante, não estarei por completo desprendido de Anna Kariénina, e que uma revoada de descrições e cenas continuarão a voltar nos próximos dias. E então, logo será preciso abrir outra vez o caderno das transcrições e escrever ali para adiar um pouco mais a perda e o esquecimento.

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“O Grande”, de Juan José Saer

Posted in Literatura by iurimuller on 7 de janeiro de 2015
epígrafes de "O Grande"

epígrafes de “O Grande”

São eles próprios mundo, realidade, destinados a segregar, em cada um de seus atos, mais mundo, mais realidade, são, mais ainda, o próprio presente, que à medida que se desloca vai criando mais presente, e ao mesmo tempo, sem perceber, afundando-nos no passado” (fragmento da página 246).

Publicado na Argentina, traduzido para idiomas estrangeiros, à disposição nas livrarias de Buenos Aires e de São Paulo, seria um erro ou uma ilusão afirmar que “O Grande”, de Juan José Saer, é um romance que não se completou. Ou ao menos uma ilusão parcial. La Gran, no título original, é o último livro do escritor santafesino e o mais longo dos seus romances; escrito na França, como ocorreu com grande parte da sua obra, o livro acompanhou Saer até as últimas semanas de vida, e algumas das páginas foram rascunhadas e lidas num hospital francês. Saer reconstitui a história de uma vida e de um regresso em sete dias de semana; o último deles, a segunda-feira, no entanto, não pôde passar da primeira frase: “Com a chuva chegou o outono e, com o outono, o tempo do vinho”. Saer morreria pouco depois, em junho de 2005.

Em “O Grande”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, tradução de Heloisa Jahn, estão as fascinações constantes de Juan José Saer: o encadeamento de frases longas, a preocupação com a pontuação que estabelece velocidades e ritmos muito próprios, alguns dos personagens que aparecem em outros momentos da sua literatura, a repetição de um espaço narrativo (a Província de Santa Fé, objeto também de sua poesia), as recordações de uma infância remota que são também gatilhos para uma narrativa profundamente ancorada no presente. Apesar das conexões, inevitáveis, ao que parece, quando se tem a consciência de que à frente do escritor está a sua última obra, a última possibilidade de se fazer literatura, “O Grande” não precisa ser lido como totalização de um projeto literário, ou como a maior das tentativas do escritor argentino na ficção.

Willi Gutiérrez voltou a Rincón, pequena cidade às margens de Santa Fé, depois de trinta anos de ausência. Viveu na Europa e atravessou três décadas sem praticamente deixar rastros ou fazer com que notícias suas encontrassem o solo argentino. De volta ao povoado local, parece ansiar pelas coisas que tinha, ou que idealizava, ou que imagina ver, antes de partir. Voltou mais rico e enigmático do que partiu, dizem os que o conheceram de antes, com um sorriso dúbio que se instala nos lábios e parece não sair dali. De uma terça-feira de chuva até o dia seguinte ao churrasco dominical que Gutiérrez planeja em sua casa para receber os amigos de antes e os que agora se fazem presentes em sua vida, “O Grande” se desenvolve com enormes e múltiplas ramificações, tal como são muitos os afluentes do Rio Paraná, famoso cartão-postal da província e que se transporta com vida para a literatura de Saer.

Durante a semana, os personagens veem o tempo passar em longas conversas, muitas vezes acompanhadas de vinho tinto, em passeios pelas margens da água, em recordações do que foram num outro tempo e dos que já não estão, e nas reflexões filosóficas que Nula, quase jovem perto dos homens e mulheres que se reencontram com Gutiérrez, leva adiante e questiona sobre as modificações do tempo sobre o espaço (é a mesma a cidade visitada depois de uma longa viagem? é a mesma a praça com que um homem se reencontra após uma caminhada de pouco mais de vinte minutos pela paisagem de todos os dias?). Ao lado de Nula, aparecem seres como Soldi e Gabriela, que se esforçam por reconstruir a vida literária da região, em especial o período das vanguardas, para o que Gutiérrez é um dos principais interlocutores.

As descrições minuciosas de Juan José Saer, que por vezes se estendem por dezenas de páginas, nalguns momentos acendem luzes de uma cor quase mágica (como o instante em que Nula recorda as sensações do tempo em que visitava os campos do avô e divide as lembranças pela memória tátil, auditiva, olfativa, gustativa e visual) e noutras, como no penúltimo capítulo, justamente o aguardado churrasco que empreende Gutiérrez, imobiliza a narrativa e faz do não-movimento um motivo de esforço para que o leitor siga adiante. “O Grande” é um livro sobre o que o tempo transforma, sobre a inevitabilidade das alterações contínuas. Parte da alma do romance pode estar na epígrafe que recupera o poeta entrerriano Juan Laurindo Ortiz, que versa e se pergunta: “Voltava. — Esse que voltava era eu?”

Buenos Aires, por Borges

Posted in Literatura by iurimuller on 20 de novembro de 2014

¿Qué será Buenos Aires?

Es la Plaza de Mayo a la que volvieron, después de haber guerreado en el continente, hombres cansados y felices.
Es el dédalo creciente de luces que divisamos desde el avión y bajo el cual están la azotea, la vereda, el último patio, las cosas quietas.
Es el paredón de la Recoleta contra el cual murió, ejecutado, uno de mis mayores.
Es un gran árbol de la calle Junín que, sin saberlo, nos depara sombra y frescura.
Es una larga calle de casas bajas, que pierde y transfigura el poniente.
Es la Dársena Sur de la que zarpaban el Saturno y el Cosmos.
Es la vereda de Quintana en la que mi padre, que había estado ciego, lloró porque veía las antiguas estrellas.
Es una puerta numerada, detrás de la cual, en la oscuridad, pasé diez días y diez noches, inmóvil, días y noches que no son en la memoria un instante.
Es el jinete de pesado metal que proyecta desde lo alto su serie cíclica de sombras.
Es el mismo jinete bajo la lluvia.
Es una esquina de la calle Perú, en la que Julio César Dabove nos dijo que el peor pecado que puede cometer
un hombre es engendrar un hijo y sentenciarlo a esta vida espantosa.
Es Elvira de Alvear, escribiendo en cuidadosos cuadernos una larga novela, que al principio estaba hecha de
palabras y al fin de vagos rasgos indescifrables.
Es la mano de Norah, trazando el rostro de una amiga que es también el de un ángel.
Es una espada que ha servido en las guerras y que es menos un arma que una memoria.
Es una divisa descolorida o un daguerrotipo gastado, cosas que son del tiempo.
Es el día en que dejamos a una mujer y el día en que una mujer nos dejó.
Es aquel arco de la calle Bolívar desde el cual se divisa la Biblioteca.
Es la habitación de la Biblioteca, en la que descubrimos, hacia 1957, la lengua de los ásperos sajones, la
lengua del coraje y de la tristeza.
Es la pieza contigua, en la que murió Paul Groussac.
Es el último espejo que repitió la cara de mi padre.
Es la cara de Cristo que vi en el polvo, deshecha a martillazos, en una de las naves de la Piedad.
Es una alta casa del Sur en la que mi mujer y yo traducimos a Whitman, cuyo gran eco ojalá resuene en esta página.
Es Lugones, mirando por la ventanilla del tren las formas que se pierden y pensando que ya no lo abruma el deber de traducirlas para siempre en palabras, porque este viaje será el último.
Es, en la deshabitada noche, cierta esquina del Once en la que Macedonio Fernández, que ha muerto, sigue
explicándome que la muerte es una falacia.
No quiero proseguir; estas cosas son demasiado individuales, son demasiado lo que son, para ser también Buenos Aires.
Buenos Aires es la otra calle, la que no pisé nunca, es el centro secreto de las manzanas, los patios últimos,
es lo que las fachadas ocultan, es mi enemigo, si lo tengo, es la persona a quien le desagradan mis versos
(a mí me desagradan también), es la modesta librería en que acaso entramos y que hemos olvidado, es esa
racha de milonga silbada que no reconocemos y que nos toca, es lo que se ha perdido y lo que será, es lo
ulterior, lo ajeno, lo lateral, el barrio que no es tuyo ni mío, lo que ignoramos y queremos.

Em ‘Elogio de la sombra’, de 1969.

Zugzwang

Posted in Jornalismo, Literatura by iurimuller on 3 de abril de 2014
Walsh joga com as brancas em La Plata.

Walsh joga com as brancas em La Plata.

Rodolfo Walsh (1927-1977) estava num café de La Plata, às voltas com um tabuleiro de xadrez e com copos de cerveja, quando ouviu falar pela primeira vez sobre o caso dos fuzilamentos clandestinos que narraria depois em “Operação Massacre”. No prólogo definitivo deste livro, reescrito algumas vezes, Walsh escreve que a partir deste momento deixara os bispos e as torres de lado para aventurar-se na “vida real”, e também no relato de não-ficção. Depois de “Operação Massacre”, hoje tido como um dos mais bem acabados livros do gênero na Argentina e no continente, o escritor publicaria, na mesma linha de investigação, ao menos outras duas obras. Se é certo que com o jornalismo Rodolfo Walsh construiu outra consciência política (combativa e indignada, à serviço dos trabalhadores organizados e dos que não encontravam espaço na Justiça burguesa), não se pode dizer que depois daquela noite de La Plata, em que o xeque-mate e o gole foram interrompidos bruscamente, Walsh tenha abandonado o jogo de xadrez e o que ele representa para a sua literatura – tão ou mais poderosa do que puderam ser os seus textos políticos e jornalísticos.

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Publicado há poucas semanas no Brasil, o livro “A máquina do bem e do mal” finaliza a tradução dos contos de Rodolfo Walsh para a língua portuguesa. Antes, a Editora 34 já havia organizado “Essa mulher e outros contos” e “Variações em vermelho”, também a partir dos contos do escritor argentino. Em “Essa mulher…” há ao menos duas peças-chave para a literatura de Walsh: o conto que dá nome ao livro, tido por alguns críticos como “um dos melhores” da literatura argentina, e o relato intitulado “Nota de rodapé”, na qual há um deslumbramento simultâneo por parte do leitor quanto à força da narrativa e a ruptura na forma com que se constrói o texto. A publicação seguinte, “Variações em vermelho”, composto maioritariamente por narrativas policiais, gênero que alcançou Walsh como ávido leitor e tradutor do inglês, conta com “As aventuras das provas de prelo” – conto à altura dos melhores policiais, com uma indefectível cor bonaerense.

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Neste “A máquina do bem e do mal”, seis dos contos do volume aparecem sob o título prévio de “Os casos do delegado Laurenzi”. Como nas “Variações…”, outra vez está presente o personagem Daniel Hernández, que decifra alguns dos enigmas a partir da experiência e do raciocínio típicos do revisor de textos. Ou do jogador de xadrez. Laurenzi e Hernández se encontram repetidamente no Café Rivadavia, às vezes durante longas madrugadas, em outras ocasiões pouco antes do almoço. Ali, tomam café (o delegado prefere a bagaceira) e devoram peões aos montes. Entre uma jogada e outra, um gole e outro, o delegado irá contar a Hernández uma de suas tantas histórias – ele, afinal, esteve à frente das mais obscuras delegacias das províncias argentinas, e dos extremos Norte e Sul surgem histórias sobre profetas, charlatões e criminosos impensáveis. A narração de Laurenzi é, de tempos em tempos, entrecortada pelas dúvidas de um Hernández bem menos atento do que no livro anterior. Agora, a lucidez e o raciocínio cabem melhor ao delegado.

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O enxadrista, mais do que calcular habilmente cada um dos seus movimentos, atenta para outra condição, igualmente fatal: prever, ou acreditar que poderá imaginar, também as ações de seu adversário. Assim ele irá se movimentar pelo tabuleiro, atento às suas peças e ao jogo de quem está sentado à sua frente. Rodolfo Walsh talvez tenha jogado xadrez em cada um dos seus melhores livros. Narrativas perfeitas de não-ficção como “Operação Massacre” e “Quién mató a Rosendo?” se ancoram em pistas, no raciocínio, no que os poderosos buscam esconder para que a história não ganhe outra versão que não a que convém ao imobilismo. No xadrez, a condição na qual um dos jogadores não poderá escapar da derrota seja qual for o seu próximo movimento é chamada de “zugzwang”, palavra que também dá nome a um dos contos de “A máquina…”. Walsh (ou Laurenzi) apresenta um jogo de xadrez por correspondência (chamado de xadrez epistolar no Brasil) mantido há meses por um homem calado que frequenta os cafés bonaerenses e um inglês que, no passado, também esteve na Argentina. Mais do que as indicações do próximo movimento, as cartas também revelam algo sobre a vida de cada um – inclusive laços improváveis e violentos entre os dois. É mais um dos casos em que o leitor, à frente dos escritos de Walsh, também se vê encurralado: e então será preciso permanecer no jogo.

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“Noturno indiano”, Antonio Tabucchi

Posted in Literatura by iurimuller on 19 de fevereiro de 2014
Escrito em 1984, publicado pela Cosac Naify no Brasil em 2012.

Escrito em 1984, publicado pela Cosac Naify no Brasil em 2012.

Como escrever sobre o “Noturno indiano” de Tabucchi? A começar, quem sabe, pela frase da fotógrafa francesa que o narrador encontra numa das últimas passagens da novela: “desconfie dos trechos escolhidos”.

1. Quase um segundo livro pode ser encontrado – ou imaginado – para além da moldura do texto apresentado por Tabucchi. Neste relato de viagem, a maior parte dos dias de expedição passa sem qualquer nota, assim como alguns encontros são suprimidos e os diálogos bruscamente interrompidos. O que a novela alcança ao leitor é o objetivo dos deslocamentos – encontrar alguém, “uma Sombra”, este Xavier que parece ter se perdido no país asiático.

2. Ao início, Tabucchi lista os lugares e cidades da Índia em que a narrativa se desenvolve. Como o Beach Candy Hospital, de Mumbai, provavelmente uma pista falsa nesta procura, os hoteis de luxo em regiões ainda assoladas pela miséria, a sede da Sociedade Teosófica, em Madras (por onde passam ecos de Fernando Pessoa, poeta português traduzido por Tabucchi), estações de trem e paradas de beira da estrada. O italiano, na nota prévia, convida o leitor comovido a seguir os seus passos: “(…) a ilusão de que um repertório topográfico, com a força que o real possui, pudesse iluminar este Noturno em que se procura uma Sombra; ou então a irracional conjectura de que algum amante de percursos incongruentes pudesse um dia utilizá-lo como guia”.

3. Sobrevoa o romance certa atmosfera mística, que o narrador-personagem não parece aceitar de todo. Há, além das cartas de Madras, endereçadas aos membros da Sociedade Teosófica, um encontro na estrada que leva o viajante a Mangalore. Naquela parada de ônibus, descrita pelo escritor como um barracão mal iluminado às margens da pista, o narrador se defronta com um adivinho (um pequeno homem com membros e rosto deformados) e seu irmão, espécie de tradutor. O adivinho, ainda que tenha recebido dinheiro, tem dificuldades para decifrar o “karma” e o “atma” do narrador. Limita-se a observar a cena de um barco ao mar, com muitas luzes ao seu redor. “Mais não vê, é inútil insistir”, resigna-se o irmão.

4. Em certos momentos, a novela aproxima o leitor do passado em comum que parece ter existido entre Xavier e o narrador. Há menções a duas mulheres do mesmo círculo – Magda, Isabel – e de um convívio que tinha dado, a cada um dos quatro, um apelido. O de Xavier (Nightingale) seria evocado outra vez no desenrolar da novela. “Fiquei muito tempo na cama pensando naqueles momentos, percorri de novo paisagens, rostos, vidas. Lembrei os passeios de carro através dos pinherais, os nomes que tínhamos dado uns aos outros, o violão de Xavier e a voz aguda de Magda, que anunciava com irônica gravidade, imitando os ambulantes das feiras: senhoras e senhores, atenção, temos conosco o Rouxinol Italiano! E eu entrava no jogo e começava a cantar velhas canções napolitanas (…)”.

5. Destino histórico de escritores, a Índia pintada neste Noturno é encantadora e misteriosa. É o país do hospital de Mumbai, situado num bairro em que a corrente elétrica é tão fraca à noite que os ventiladores de teto não podem aliviar o calor dos enfermos. É o país dos templos religiosos, em que “ser ateu é a pior maldição”, das longas distâncias, dos portugueses que passaram por Goa, do luxo em contraste permanente com a miséria e a desolação.

6. E, ao fim e ao cabo, ele pôde encontrar a Sombra perseguida? Numa noite quente do Oberoi Hotel, na costa de Goa, talvez tenham estado separados por poucas mesas, ou este é apenas o final pensado para o livro que o narrador afirma escrever sobre a viagem. Um livro em que poucas pontas apareceriam, novela de acontecimentos nublados, tal qual o “Noturno indiano”. “Mas nesse livro tudo está fora da moldura?”, pergunta a fotógrafa no amplo pátio do Oberoi. Guiada pela caneta impecável de Tabucchi, a história deste Noturno permanece para o leitor mesmo muito depois do ponto final.

“Afirma Pereira”, Antonio Tabucchi

Posted in Literatura by iurimuller on 13 de fevereiro de 2014
Tabucchi pela Cosac Naify: "Afirma Pereira", "Noturno indiano", "O tempo envelhece depressa".

Tabucchi pela Cosac Naify: “Afirma Pereira”, “Noturno indiano”, “O tempo envelhece depressa”.

O Dr. Pereira, depois de atuar por trinta anos como repórter policial num grande jornal de Lisboa, passou a dirigir a página cultural de um modesto vespertino que leva o nome da capital portuguesa. Desde então, trabalhou sozinho numa pequena sala da Rua Rodrigo da Fonseca e manteve hábitos aprisionados: a passagem diária pelo Café Orquídea, onde bebia limonadas e comia omeletes, a conversa em voz alta com o retrato da sua mulher, já morta, e a tradução de contos franceses do século XIX para o suplemento de sábado de Lisboa. E poderia ter sido assim para sempre se o Dr. Pereira não vivesse na Europa do final dos anos 1930, ou se não tivesse conhecido o jovem Monteiro Rossi.

Quando Antonio Tabucchi morreu em 2012, o diário Público escreveu: “falece o escritor italiano que escolheu Portugal para viver”. E a narrativa de “Afirma Pereira” mostra que a frase não foi um impulso patriótico do jornal lusitano; Tabucchi ambienta uma Lisboa muito viva e descreve o cenário histórico do continente, em que Portugal padece nas mãos do ditador Salazar, a vizinha Espanha se vê em guerra civil e a Segunda Guerra Mundial já é uma nuvem que se aproxima com perigo da Europa.

Ao longo da novela, os fatos políticos, o alastramento do fascismo no período e o encontro quase casual com os jovens Monteiro Rossi e Marta, envolvidos com a causa republicana na Espanha, fazem com que a vida e a rotina de Pereira se transformem bruscamente – a ponto do jornalista católico se descobrir corajoso e sonhador depois dos cinquenta anos.

Na nota que abre o livro, Tabucchi conta que “Afirma Pereira” passou a ser pensado quase que por acaso em agosto de 1992, quando o escritor encontrou no jornal a notícia de um falecimento: um veterano jornalista português, que o autor chegara a conhecer em Paris, tempos antes, estava sendo velado em Lisboa. “Era um homem que exercera sua profissão de jornalista por volta de 1945, em Portugal, sob a ditadura de Salazar, e que conseguira pregar uma peça na ditadura salazarista, publicando num jornal português um artigo feroz contra o regime. Depois, naturalmente, passou a ter sérios problemas com a polícia e teve que escolher o caminho do exílio”.

Ainda no texto introdutório, o italiano conta que um personagem então se apresentava, à procura de um narrador que levasse à escritura a sua história. “Na hora não soube o que lhe dizer e, no entanto, compreendi confusamente que aquele vago semblante que se apresentava com o aspecto de um personagem literário era símbolo e metáfora: de algum modo, era a transposição fantasmática do velho jornalista a quem eu fora levar a última saudação”. E o Dr. Pereira, com as suas repetições diárias (que Tabucchi submete à linguagem, sem dificultar o ritmo da prosa), tem força e graça, e sua construção é tão importante quanto o próprio enredo.

“Afirma Pereira” é um relato sobre a necessidade de se ter coragem em tempos sombrios; é uma enorme reflexão sobre a função social da arte e da literatura, sem que isso beire, em instante algum, o viés panfletário. Mesmo após o término da leitura, permanecem na imaginação os cafés de Lisboa e a carta desafiadora que o Dr. Pereira teve, ao fim, o ímpeto de escrever.

“Os rios profundos”, José María Arguedas

Posted in Literatura by iurimuller on 6 de janeiro de 2014
Arguedas, "Os rios profundos"

Arguedas, “Os rios profundos”

“Índios e mestiços gostam muito de falar da morte; nós também. Mas, ouvindo falar dela em quéchua, quase se abraça, como um fantoche de algodão, a morte, ou como uma sombra gelada que oprimisse o peito de alguém, roçando o coração, sobressaltando-o; apesar de chegar como uma folha de lírio, suavíssima, ou de neve, da neve dos picos, onde a vida já não existe”.

“Era uma estrela mais luminosa e gelada que a lua”.

O peruano José María Arguedas, antropólogo, escritor e o autor de Os rios profundos (1958), sentia demais as águas, as montanhas e as planuras do seu país. Ernesto, o personagem deste romance, é tão sensível como o escritor. No livro, ele é um menino que viaja de forma errante pelo Peru, acompanhado do pai, um advogado que permanece por poucas semanas em cada povoado. As viagens, algumas delas longuíssimas e feitas a pé, mostram muito de como se dão as relações sociais e culturais naquelas terras.

Ernesto vê cidades paupérrimas, tomadas por casas de telhado de malahoja, o teto dos índios que trabalham por poucas moedas para os brancos. Observa, também, o comportamento dos pongos, índios que vivem e servem nas fazendas, mas que por momentos precisam atender também nas casas do patrão. Em cada viagem, Ernesto se encanta com a profundidade e a força dos rios, “pontes sobre o mundo”, linhas que dividem o Peru dos brancos com o Peru dos índios.

Mas os passos num certo dia cessam e Ernesto passa a viver num colégio de internos na cidade de Abancay. Ali, suas relações se transformam, e as conversas não se dão mais com pongos e patrões do interior peruano, mas com meninos de idade semelhante. No colégio, estão o padre Miguel, negro como foi San Martín de Porres, estão Valle, Palacitos, Peluca e Antero, companheiros de dormitório, de ócio, com quem Ernesto formula as primeiras impressões sobre a cidade e a juventude.

Neste momento da narrativa, Os rios profundos se assemelha por um instante (ao menos na temática e na atmosfera) com os primeiros contos de Mario Vargas Llosa, publicados sob o título de Os chefes. Em comum, estão os frequentes duelos juvenis, de precipitadas raiva e violência, a espera nos pátios internos do colégio, as primeiras tentativas de antever a vida adulta e a tentativa de doutrinação religiosa. E Abancay, a cidade em que o romance se desenvolve, mostra também a tensão social do país nas primeiras décadas do século XX.

Alguns dias são intensos, e nestes Ernesto pode ultrapassar os muros do colégio. Numa das fugas, chega à fazenda Patibamba, local de fartura para os patrões e de uma lúgubre existência destinada aos indígenas. Ele testemunha a disputa pelo sal, o papel das cholas na luta social – as mulheres desafiam o governo, os padres, enfrentam com a voz e força os destacamentos do exército. E levam o sal para as casas mais pobres das estâncias. Assim Ernesto se encanta pelas lideranças, por Dona Felipa, frequenta as chicherías ao lado de músicos, das cholas, dos soldados.

Se parte do mundo peruano é dos brancos, outra é dos índios e um terceiro trecho já é território mestiço, transculturado, o mesmo acontece com a linguagem de José María Arguedas. As canções populares são transcritas em castelhano e em quéchua, os diálogos têm a frase entrecortada com fragmentos de uma e outra língua. No internato, parte dos alunos se comunica em quéchua – é a forma com que a palavra mais se aproxima da morte, quando beira a essência das coisas que importam: o rio, os ventos, o Pachachaca, o Apurímac, as orações.

Os rios profundos tem, nas suas páginas finais, muito de desespero. Basta caminhar pela cidade – e já havia sido assim em Cuzco – para o menino se deparar com a exploração e senti-la com profundidade. As cholas são perseguidas pelo exército, precisam fugir para as montanhas, atravessar a ponte da cidade. Algumas parecem não escapar dos tiros. Pouco depois, a peste tem início num povoado próximo e caminha em direção a Abancay. Os colonos (índios que pertencem às fazendas) já sentem a febre, estão quase resignados a morrer aos montes. Mas marcham a Abancay para receber a missa. Ernesto, sim, está à salvo e, com o coração modificado pelo que viu, volta a errar pelo Peru.

“O estaleiro”, Juan Carlos Onetti

Posted in Literatura by iurimuller on 2 de janeiro de 2014
El astillero, Onetti.

El astillero, Onetti.

Larsen, Kunz e Gálvez, nomes pouco prováveis para aquele povoado do sul, trabalham sete horas por dia nas salas de um estaleiro à beira do abandono. O proprietário, certo Jeremias Petrus, foi um magnata que empregou em algum momento dezenas de operários nas fábricas da região. Mas, naquele instante, os instrumentos e os restos de embarcações oxidam a cada minuto, sem espaço para acreditar a sério numa reviravolta. Mas os três empregados fingem crer muito bem – na redenção da empresa, na vida que levam entre os caminhos encharcados de Puerto Astillero e Santa María.

O romance O estaleiro, de Juan Carlos Onetti, orienta os personagens neste sul lúgubre, palco de hoteis decadentes, mulheres sem rosto, de dinheiro que falta todos os meses, preguiça diária e de fingida preocupação com o futuro. As cenas são invariavelmente nubladas, mas é prazeroso, em meio à bruma, tatear o enredo da novela. Larsen retorna à Santa María, cidade de onde fora expulso há cinco anos. Naquele tempo, ganhou a alcunha de Juntacadáveres e ergueu um prostíbulo no povoado, casa que logo a hipocrisia e as tramas secretas tratariam de derrubar.

É impreciso o seu retorno ao lugar. Alguns juram tê-lo visto outra vez junto às ruas da costa, mas nem o trabalhador de um posto de gasolina admite ter certeza. Pensa que era Larsen, mas chovia um pouco e o caminho estava escuro. É inverno em O estaleiro durante todo o livro. Sem retomar as relações em Santa María, Larsen vive na pensão Belgrano, num dos quartos que o proprietário construiu sobre o bar de mesmo nome. Todos os dias, passa horas lendo e organizando os papeis e documentos da Jeremias Petrus S.A., a empresa que aguarda por uma decisão judicial e pela ajuda de algum ministro para voltar à atividade.

Houve vida no estaleiro, mas quando Larsen desembarca ali são apenas os três. Três homens que fingem acreditar que trabalham duro, que os negócios podem voltar a dar certo; fingem até mesmo que recebem salários dignos e que há algum sentido naquilo tudo. A crença, contudo, aparece sempre com um rasgo de ironia num canto do lábio. É assim também com os dias que passam. Gerente-geral da companhia de Petrus, Larsen se encontra periodicamente com a filha do patrão nos jardins do casarão da família – mas acabará, na última noite do romance, no quarto de Josefina, a silenciosa empregada dos Petrus.

Fala-se muito do pessimismo e dos espaços decrépitos que habitam os livros de Onetti, e são percepções inevitáveis. Mas não há sensação uniforme nestas linhas – de modo que enxergamos também traços de bondade, de resignação e de algum conforto na desgraça, no adiamento das decisões, nos retornos e nas despedidas. Onetti não precisa pintar o sol para enxergarmos Santa María, cidade mal iluminada e pouco receptiva aos forasteiros, cidade na qual que o médico Diaz Grey, personagem também de A vida breve, procura às cegas o primeiro cigarro do dia quando a luz já inundou o porto.

Larsen desta vez não foi expulso do povoado, mas teve de deixá-lo de qualquer maneira. Se derrotado estava, pouco se importou. Tentou até o último momento garantir alguns pesos de Jeremias Petrus – que se viu encarcerado e doente, mas sem nunca deixar de jogar o jogo da trapaça – e de ver Angélica Inês, a filha do ex-magnata, com quem se encontrava periodicamente no caramanchão da casa. Ficou sem o dinheiro e a visita, deixou que o dia e os ventos de Santa María o levassem para outros lados. “Desde muchos años atrás había dejado de creer en las ganancias del juego; creería, hasta la muerte, violento y jubiloso, en el juego, en la mentira acordada, en el olvido”.

No último ano, consegui registrar – ainda que em papeis soltos – todos os livros que li. Para 2014, a intenção é escrever algumas linhas sobre boa parte deles.

Prólogo de Galeano para um livro de Gelman

Posted in Literatura by iurimuller on 11 de novembro de 2013

“¿Quién se contempla en esos ojos? La mujer que brilla como el sol mientras la noche golpea la ventana y el hachero que gastó su vida volteando árboles y no encuentra, al final, cuatro tablas para el cajón. Rostros del mundo, pobres del mundo, soles: esos ojos devuelven los resplandores de unas piernas azules, mujer de la que bajan otras mujeres, y los garabatos de luz de las lámparas de carburo de los mineros de los socavones. Esos ojos, ¿qué ven? La bella caparazón del sanatorio, las manchas del techo de yeso sobre los amantes y la incierta luz de la madrugada, casi mundo ya, donde los amantes deshacen el amor. ¿Por qué no se cierran esos ojos? Jadean las bestias en la oscuridad. Botas que pisan y pesan. Mientras el poeta yace entre sábanas de fierro, sus ojos tocan la cara del hijo perdido, fulgor en la noche de los verdugos, y la cara de Paco, desenvainada como espada o fe, y otras caras de los compañeros caídos que descansan en guerra, plantitas que volarán yendo y viniendo.

Esa nariz, ¿que respira? Los aromas de las maravillas desoladas bajo el sol, la leche de los pechos de mujer, el resinoso humo de las hogueras, los calores que suben a la cara de los astros. La podredumbre del aire es el precio de la pureza del aire. Vuela muy alto quien bien conoce la asfixia del último círculo de los infiernos.

Porque el poeta es capaz de escuchar, puede decir. Las orejas reciben el silencio del pajarito que no canta y el árbol que no crece y el galope de los caballos de la revolución. El gallo cantor y otros cantares. El vuelo del pueblo y otros volares. Por esos oídos entran los oleajes de tristeza que arrasan la ciudad de Buenos Aires, perros célebres vientos, melodías que no imitan al tango porque lo contienen, furores del propio corazón: el poeta escucha las sirenas policiales que cortan la noche, los pasos que los buscan y las voces del niño que pide una moneda y un perro verde y música de reloj.

La boca dispara la belleza incesante. El poeta nos ofrece su comarca y su gente. El es, para mi gusto y el de muchos, uno de los mejores poetas actuales de la lengua castellana. Poco se ha difundido en España, porque en el boom no estaban todos los que eran ni eran todos los que estaban, porque la poesía es un género maldito y porque no conozco a nadie tan ajeno a la auto-progaganda y al afán de prestigio. En la Argentina, su país, está prohibido. Los oprimidos suelen equivocarse de enemigo; los opresores, no. El poeta no vive de espaldas. Dice palabras puras, pero no inocentes.

Esta boca canta y hace cantar. Habla de combates y dignidades; ofrece certidumbres que parten de la duda y libertades que vienen de la cárcel. Desde el exacto centro de la muerte, celebra la vida. Los versos nacen del encuentro entre una piedra y un fulgor de otoño. No cree el poeta que alcanzará por sus versos el perdón ni la gracia. Pero los torturan y nacen, los sentencian y nacen, los fusilan y nacen. No hay explicación que los merezca”.

*Escrito por Eduardo Galeano em 1980, este texto abre os livros Relaciones e Hechos, do poeta argentino Juan Gelman.

O ruído das coisas ao cair

Posted in Literatura by iurimuller on 27 de maio de 2013
Alfaguara, 2013. Tradução de Ivone Benedetti.

Alfaguara, 2013. Tradução de Ivone Benedetti.

“Naqueles dias minha cidade começava a desprender-se dos anos mais violentos de sua história recente. Não estou falando da violência de facadas ordinárias e tiros perdidos, de acerto de contas entre traficantes de pouca importância, mas daquela que transcende os pequenos ressentimentos e as pequenas vinganças da gente miúda, da violência cujos atores são coletivos e escritos com maiúscula: Estado, Cartel, Exército, Frente. Nós, bogotanos, tínhamos nos acostumado com ela, em parte porque suas imagens nos chegavam com portentosa regularidade em noticiários e jornais.”
(Juan Gabriel Vázquez, “O ruído das coisas ao cair”)

No romance mencionado na epígrafe, Juan Gabriel Vázquez narra o tempo em que a a cidade de Bogotá começava a se desprender dos anos mais violentos de sua história recente. Ainda assim, mesmo que sem os episódios espetaculares da batalha urbana – o narcotraficante que mandava mais que o presidente, os assassinatos nas ruas centrais em qualquer hora do dia, os aviões que caíam com bombas do Cartel de Medellín – as balas e as mortes nunca largaram a Colômbia de vista. Mais do que nada, muito se explica pela alta desigualdade social que coloca o país como o terceiro maior abismo entre ricos e pobres do continente, e pela vigência do conflito armado que se estende ao longo das décadas. (more…)