Calle Soriano

Os monges copistas

Posted in Sem categoria by iurimuller on 12 de abril de 2014
Hipódromo de Maroñas

Hipódromo de Maroñas

I.

Naquela noite, a cidade estava estranha e os ônibus que voltavam pelas avenidas não conseguiam espaço para adentrar o centro. Às margens dos canteiros, longe do destino final de cada linha, os passageiros desciam dos veículos e precisavam terminar o trajeto a pé.

Acontecia naquela hora, diziam os motoristas, um protesto de estudantes nas proximidades do mercado central, e em algum momento – tal como ocorreu em boa parte das passeatas anteriores – a polícia e os manifestantes se confrontaram com alguma violência. Perto do parque, as travessas estavam mal iluminadas e era preciso andar beirando as fachadas das lojas e bares ainda abertos para enxergar com nitidez a próxima esquina.

A maior parte dos que deixaram os ônibus e passaram a caminhar se perdeu em poucos minutos pela cidade. Nos próximos dias, ou mesmo semanas e meses, talvez tenham se sentado lado a lado nos mesmos ônibus, mas provavelmente não se reconheceram – os rostos se confundem nos trajetos repetitivos como aquele.

V. caminhou por cinco ou seis quadras (boa parte delas realmente largas, o que demandou um bom tempo de percurso) até entrar em casa, na Cidade Antiga, deixar os livros que levava na mochila em cima da mesa da sala, alimentar os gatos que ainda viviam no quarto dos fundos, deitar-se por cinco minutos, quase que só para descansar as pernas, e voltar a sair pela porta da frente. F., por sua vez, veio de longe e fez o caminho todo em cima de uma bicicleta pública, que alugou na estação próxima a um hospital.

Talvez tenha sido V. o primeiro a chegar, já que a distância que o separava do bar era menor, mas digamos que tenha sido F. e que F. chegou e não tardou muito para levantar a mão direita e pedir ao garçom uma cerveja comum. Era certo que, depois, beberiam vinho em jarra, mas por agora o calor atordoava e a cerveja o refrescaria com mais rapidez do que qualquer outra bebida.

No bar, naquela hora da noite – digamos que passasse um pouco das nove, não mais do que isso –, apenas quatro ou cinco mesas estavam ocupadas do lado de dentro. As mesas da rua, em função da temperatura, recebiam mais gente, em geral clientes que bebiam pouco e logo davam lugar a outras pessoas. Quando V. entrou no salão, F. já estava às voltas com a metade final da garrafa e ainda sentia resquícios da sede. Cumprimentaram-se sem entusiasmo e escolheram outra mesa, mais próxima da televisão, ainda que dificilmente olhassem para o aparelho.

Não é certo que tenha sido V. o primeiro a comentar a manifestação e o fato dos ônibus terem empacado antes da última curva do arroio, mas é bem provável que tenha sido ele pela importância que costuma dar a esses temas. Disse que, do seu ônibus, muitos dos que desceram caminharam com pressa para o centro interrompido, para se somarem aos que ainda tentavam resistir por lá.

Para F., era uma lástima a violência que a polícia da cidade empregava naquelas situações, e acreditava que em poucas semanas, se as coisas seguissem nesta crescente, algo de mais trágico poderia acontecer na cidade. Não quis que o assunto permanecesse na mesa, já que de pronto folheou o cardápio e sugeriu que pedissem um prato para duas pessoas, com ovos fritos e salada, além da jarra de vinho da casa. Mais uma vez, o que escolhiam sempre.

II.

Falaram sobre futebol, sobre uma pesquisa eleitoral e a exposição de um artista português que apareceria na cidade em poucos dias, até o momento em que chegaram os pratos e a bandeja do garçom. Por tempos, o que mais houve na mesa foi silêncio: fruto da fome que pisa forte nos finais de terça-feira.

Comeram mais do que beberam na primeira meia-hora, de modo que a jarra parecia quase que intacta quando F. limpou a boca com o guardanapo e disse que estava com medo de esquecer de coisas importantes – não porque estivesse mal da memória, mas porque algumas coisas sempre podem escapar e até parece inevitável que se percam. E então deixou de lado a comida ainda quente e passou a falar por minutos a fio.

F. havia conhecido, disse, a história de um colega de trabalho (creio que ele trabalhava em um banco, ou em um tribunal) que anotava em cadernos de duzentas ou trezentas páginas todas as partidas de futebol que ouvia no rádio, guardando ali as escalações, os gols do jogo, os momentos importantes e o tempo em que cada coisa aconteceu ou assim foi relatada. Fez isso primeiro por tédio e por distração, depois por ritual e inércia e por fim por necessidade e angústia. É que a memória começou a falhar e aos sessenta anos ele acreditou que poderia salvar o que houvesse de mais importante naquela coleção de papeis encadernados.

Desde então, F. continuava a contar, o homem destinava para as anotações de monge copista mais e mais prateleiras de suas estantes, e a coleção não parou de aumentar. Não eram só fichas técnicas do futebol em lugares longínquos, mas também os filmes que assistia no cinema e na televisão, as notas que imaginava importantes e que copiava do jornal, os diálogos que havia travado naquela mesma manhã com a mulher e o filho, antes de sair para o trabalho.

Chegara até mesmo a anotar recordações distantes, que surgiam na cabeça sabe-se lá de que maneira, mas como a transcrição destas lembranças começava a lhe parecer constrangedora demais, decidira parar por ali. Anotava, portanto, apenas o que era objetivo e relativamente recente. O passado que não estava nos cadernos poderia ficar para trás – nem para tudo havia espaço na sua jangada de madeira ruim.

E nem bem F. havia terminado o relato do seu colega de trabalho, homem que parecia mesmo admirar pela técnica corajosa e pouco orgulhosa que havia posto em prática, V. perguntou de que maneira F. poderia se utilizar daquilo, já que não tinha, até onde sabia, maior interesse por anotações esportivas, diálogos do cotidiano e recortes do jornalismo. Antes de responder ao companheiro, F. esvaziou a jarra nos dois copos e acenou para o garçom encher outra vez o recipiente.

III.

A resposta de F. iniciou com um ritmo lento, de modo que o pensamento de V. vagou pelo bar e foi parar nas palmeiras da avenida, entre as quais havia enxergado a lua no início daquela noite. Mas logo ouviu da boca de F. uma ou duas palavras interessantes e já estava imerso na conversa. Ouviu com atenção, entre goles vigorosos de vinho tinto seco, e me parece que o que escutou foi o seguinte.

F. não tinha, é verdade, a intenção de acumular papel com informações que não parecessem relevantes. Não importava, por exemplo, se Cristian Riveros havia marcado de cabeça contra o Defensor Sporting aos vinte ou aos trinta e cinco do segundo tempo; aliás, importava de alguma maneira, mas se o tempo modificasse essa recordação não haveria qualquer problema. O mesmo valia para fatos políticos (os acontecimentos impactantes permaneceriam, para ele e o mundo, quisesse ou não) e para suas conversas de cada dia.

Mas o que tinha o poder de amedrontar F., quem sabe a ponto de prejudicar algumas de suas noites de sono, ou mesmo de provocar um punhado de sonhos ruins e de presságios assustadores, era a possibilidade de perder as suas ideias, aquelas que poderiam servir para um conto ou um poema, e que desapareciam da memória em poucas horas, ou no dia seguinte se fossem fecundadas numa madrugada de insônia e tempestade.

E, ante o rosto algo debochado de V., F. esclareceu que não era para se enxergar nisso qualquer ambição literária ou aspiração profética, que provavelmente não escreveria nada a partir daqueles argumentos curtos, mas o que o angustiava era vê-los se tornar fumaça na memória e quem sabe não os recuperar mais. Ter imaginado e organizado minimamente o pensamento já bastava; escrevê-los sob a forma da literatura era consequência desnecessária. Não fazia, de maneira alguma, parte da mesma aflição.

Desde que havia escutado o relato do colega de trabalho e refletido um pouco sobre o que ouvira, F. tratou de comprar os mesmos cadernos de duzentas ou trezentas páginas e passou a escrever – às vezes na rua, sentado no meio-fio; ou no metrô, entre a estação Balcarce e a Los Andes – as ideias que poderiam, um dia, se encontrassem o instrumento e o sujeito competentes, assumirem a forma da frase e do verso. Isso aconteceu há poucos dias, e o resultado já era visível no acúmulo de folhas pautadas.

IV.

Já havia escrito em três linhas, por exemplo, a sugestão de uma cena em que uma aguardada carreira de cavalos (na São Paulo dos anos 1930, quem sabe) era interrompida por um avião que precisava aterrissar abruptamente no hipódromo, ao passo em que, a partir deste dia, que havia acabado bem, os precavidos cavalos sempre tentassem olhar para o céu após vencer a primeira curva daquele percurso.

Escrevera, também, em quatro ou cinco linhas, sobre a forma com que as torcidas do futebol argentino tratavam a finitude, já que a parcialidade de um clube (imaginava que do bairro de Boedo) cantava que acompanharia o clube até mesmo no céu, e a outra (talvez de Núñez, ou de Belgrano) entoava o cântico no qual admitia, resignada, que apenas a morte poderia separá-los. Eis o argumento-chave para um ensaio acadêmico, debochou de si mesmo F.

A isso seguiam, para riso e algum divertimento de V., pequenos apontamentos sobre um hotel em Moscou nos dias revolucionários em que a cidade não havia compreendido bem se estava sob o poder dos bolcheviques ou dos defensores da velha ordem, no qual os hóspedes não duravam ali mais do que duas noites e o público era formado quase que só por espiões, contrabandistas, fugitivos e imigrantes que se viam completamente perdidos no palco da história. E já havia escrito mais, contou a V., mas talvez não fosse o momento de ler em voz alta o caderno inteiro.

Com a leitura, o tempo parece que passou mais depressa no salão e a segunda jarra se esvaziou com a mesma velocidade. Ainda houve tempo e ânimo para tomar uma terceira, que o garçom encheu apenas até a metade, antes de saírem para a calçada. A noite ainda estava abafada como antes, mas os ônibus, ao que parecia, voltaram a percorrer as linhas como costumavam fazer. A polícia já havia dispersado a manifestação. V. despediu-se sem demora e sentia os primeiros sinais do sono, mas F., após a apertar a mão do amigo, tratou de se encostar na fachada do bar e deixar mais uma frase solta em seu primeiro caderno.

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Papéis molhados

Posted in Sem categoria by iurimuller on 27 de março de 2014
foto: santiago filipuzzi

foto: santiago filipuzzi

Está lloviendo en Buenos Aires

Eu trabalho num negócio pouco explorado aqui na cidade. Fica na Rua Estados Unidos, quase esquina com Lima. Entre Constitución, San Telmo e Balvanera, a cem metros da Avenida 9 de Julio. Discordo de que estejamos longe dos turistas. Não é um ponto ruim, a prova disso é que abri a loja há mais de dez anos, talvez a única que nasceu naqueles dias de pedradas e panelaços. E não é preciso que o balcão esteja rodeado por turistas, que os gringos parem de dois em dois minutos na frente da minha vitrine. Vender guarda-chuvas não é como vender alfajores ou discos de tango. O que os traz aqui é a necessidade, a impaciência da chuva que por vezes parece jamais abandonar Buenos Aires.

Recentemente, houve um agosto em que a chuva foi tão forte, e durou por tantos dias, que esquecemos as anunciações da primavera. Mas, entre tantos aguaceiros, houve um estranho domingo de sol. Domingo que contrariou os homens do tempo, a sabedoria dos padeiros. Os carros que vinham desde La Plata pareciam atordoados na metade da autopista. Aquela luz há tanto escondida quase cegava os que trafegavam pela cidade ainda molhada. Naquele dia, foram poucos os que saíram com o guarda-chuva em mãos. A claridade e o céu azul eram mais reais do que o noticiário inteiro.

Lembro esse domingo porque houve algo naquele sol que me fez pensar na minha loja, nos meus guarda-chuvas. Estava em San Telmo, como faço quase que diariamente, após contar os pesos do dia e chavear o portão. Passo, inevitavelmente, pela Rua Bolívar. Não sei se pela força do cotidiano ou por casualidade geográfica, mas com o tempo este trajeto deu-me alguns amigos pelo caminho. Com um deles, travo a amizade mais estranha dos meus cinquenta anos. Nossas frases emperram, e emperraram sempre. Pouco sei sobre a vida dele, se tem filhos, se nasceu na Capital Federal, se leu boa parte dos livros que vende. Desde que eu passo por ali, vejo-o sentado na mesma cadeira, ao lado das estantes e afogado na fumaça dos cigarros que se repetem enquanto a tarde perdura.

Apenas sei que se se chama Gonzalo, que é livreiro e que há muitos anos mantém o sebo na Rua Bolívar. E que é um bom sujeito, daqueles que nos conquistam com uma palavra certa e muito de silêncio. Durante a semana, a pausa na caminhada é rápida; deixo meu cumprimento e, por vezes, um comentário qualquer sobre o governo, as greves, a política. E então sigo o meu caminho. Nos finais de semana, fico por mais tempo, nem que seja para ouvir a chuva, o bandoneón triste que transborda no ambiente e as frases mínimas, justas, de Gonzalo. Foi assim até a véspera do domingo de sol, em que ele, por raivoso e emburrado, não deve ter vendido sequer um exemplar comemorativo da revista El Gráfico.

Quando cheguei, o cenário já tinha aquele ar que têm as coisas quando estão a ponto de explodir. Ele havia colocado música brasileira na vitrola, truque grosseiro para fisgar os turistas das cercanias. Muitos entraram, talvez pelo som, ou pela convidativa vitrine do lugar. Nenhum deles se esforçou a ponto de tentar um buenas tardes em espanhol, mas remexeram nas prateleiras. Eram ingênuos, qualquer pôster mofado de Gardel já servia para levantar suspiros. Apontavam o dedo para algum Macedonio Fernández, e creio que um deles se interessou por uma primeira edição de Roberto  Arlt.  Não  compraram  nada,  evidentemente.  Ali estavam para  escutar  um  fiozinho  do  Rio  de  Janeiro  e  satisfazer  a curiosidade que a figura gorda de Gonzalo suscitava.

Gonzalo desligou a vitrola quando o sétimo turista saiu. Havia amaldiçoado o sol alguns minutos antes; sentia saudade, imagino, do sábado anterior, repleto de goteiras, vento cortante e com o céu, como dizia a previsão do tempo, desmejorando sem parar. Não eram cinco da tarde quando avisou aos clientes restantes que não haveria nada mais. Que voltassem na segunda-feira, se quisessem. Quanto a mim, fui incluído no despejo. Gonzalo disse que precisava ficar sozinho, mas que apareceria na minha loja durante a semana. Compraria um guarda-chuva novo, de cabo de madeira, tão logo o sol  se  escondesse.  E  falou  qualquer  coisa  sobre  o desconhecimento humano em relação à poesia molhada. Como amigos,   livreiros   podem   ser   uma   companhia   silenciosa   e inconstante; como clientes, entretanto, ainda guardam rompantes de consumo enlouquecido.

Tempos depois, Gonzalo apareceu na Rua Estados Unidos. Havia voltado a chover. Observou os modelos expostos no mostrador antes de ultrapassar a porta. Naquela hora do dia a loja fica quase desabitada, ainda que, ao contrário dos livreiros, os vendedores de guarda-chuvas não impedimos a passagem de cliente algum. Gonzalo disse que queria o paraguas da promoção, o de trinta pesos. Mas eu sabia que diria mais. Nos minutos em que estávamos apenas na rota sonora dos pingos que estalavam no teto, eu esperava algum comentário sobre o último domingo. Ele tirou os pesos da carteira e por fim abriu a boca. Para dizer que, ao contrário do que parecia, os livreiros precisavam mais das chuvaradas do que os vendedores de guarda-chuva.

Não o questionei sobre a frase, mas tampouco entreguei o pacote, que aguardava fechado sobre o balcão. Gonzalo seguiu. Disse que dependia da chuva porque a poesia precisa da água. Não das tempestades ou inundações, mas ao menos de uma garoa que persiste por uma tarde inteira, ou de uma rua alagada que atrapalha a caminhada da manhã. Disse que poeta algum pôde escrever sem se molhar um pouco. Que Roberto Bolaño, fodido e doente na Espanha, não escreveu “esperas que desapareça a angústia/  enquanto  chove  sobre  a  estrada estranha/  em  que  te encontras” para as gotas que caíam sobre um camping descoberto, mas para a água que inundou a sua vida inteira. E quando parecia que falaria mais, que me  mostraria algo do que lia e pensava, Gonzalo apanhou o guarda-chuva, acenou um tímido chau e atravessou a rua em direção a Montserrat.

No dia seguinte, fui a Constitución e subi no trem que vai a La Plata. Eu viajava apenas para me encontrar com um distribuidor de guarda-chuvas automáticos, a solução encontrada por dois de cada três porteños que se protegem da chuva. No trem, vi a movimentação de sempre: vendedores de sanduíches, de livros infantis, de rádios movidos à pilha, de ingressos falsos para a próxima partida do Estudiantes; vi intérpretes improvisados que, antes e depois da curta canção, discursavam sobre as dificuldades em que viviam na Província de Buenos Aires, às vezes nas ruas, sem  qualquer  abrigo.  Ao  meu  lado,  no  entanto,  havia  um  tipo incomum; ainda que, a julgar pelas vestimentas, tivesse tão pouco dinheiro como todos nós.

Ele estava quase que alheio aos ruídos internos e ao freio da locomotiva nas estações de Quilmes e Plátanos. Deveria ter vinte anos, pouco mais. O rosto permaneceu a viagem inteira colado à janela, desviando os olhos de tempos em tempos para o livro que levava em mãos. Um livro de Mario Benedetti. Do escritor uruguaio, eu sabia pouco. Lembrava a novela em que um senhor, o personagem central, se apaixonava por uma mulher muito mais jovem que ele. Gonzalo havia comentado uma vez sobre essa história. Mas o livro que o rapaz tinha em mãos era de poesia, algo como uma antologia poética. Um livro de bolso, desses que estão à venda nas estações de trem, embora seja raro encontrar um leitor nos vagões que viajam para o sul.

Pude ler apenas um poema, não sei se completo ou se os versos continuavam na página seguinte. Lia o livro que descansava entre o rapaz e a janela, mas era como se ouvisse Gonzalo naquele último encontro. Dizia assim: “com rios, com sangue, com chuva, ou orvalho/ com vinho, com neve, com pranto/ os poemas costumam ser papel molhado”. Em La Plata, permaneci somente por pouco tempo. Não é simples para um vendedor de guarda-chuvas ser atingido assim, de pronto, pela poesia. Ainda mais quando sente que, enquanto vende estes automáticos, ou mesmo os mais clássicos, que ainda levam cabos de madeira, o que na verdade faz é impedir que a chuva atinja o que precisa atingir.

Há poucos dias, encontrei-me com Gonzalo na mesma Rua Bolívar. Por casualidade, era um domingo ensolarado. No bairro, os turistas tocavam em tudo e compravam pouco. Gonzalo fumava, enfileirava cigarrillos que o nublavam ainda mais o humor. Mas ainda assim resolvi contar sobre aqueles dias, a viagem a La Plata, sobre como impactou em  mim  aquela conversa que tivemos. E sobre as relações estranhas que pude encontrar naquele trem da Linha General Roca entre os guarda-chuvas e a poesia. Gonzalo alcançou o troco para o cliente que saía, diminuiu o volume da vitrola. E mal tirou o cigarro da boca para propor que vendêssemos juntos os guarda-chuvas e os livros. Que afinal seria um aluguel a menos, que poderia soar curioso para os estrangeiros. Que eu trouxesse logo os meus guarda-chuvas da Rua Estados Unidos.

* Conto selecionado para publicação no III Concurso Literário da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)

Sant Adrià de Besòs

Posted in Sem categoria by iurimuller on 10 de março de 2014

 

Foi por uma indicação de um taxista, ainda no aeroporto de Barcelona, que chegou pela primeira vez a Sant Adrià de Besòs. Era uma noite de março, fazia frio, e pouca gente desembarcava no terminal por aquelas horas. Com uma mala bordô pendendo no braço direito, caminhou sem rumo por minutos, sem disfarçar o fato de que nunca antes estivera em terras catalãs. Antes de sair pelo portão principal de El Prat, decidiu perguntar em espanhol para um homem que, sentado e só, parecia esperar por questionamentos: o senhor saberia me indicar um hotel barato em Barcelona? Eu preciso ficar um tempo por aqui, não precisa ser muito no centro, senhor.

Minutos depois, estava rodando no carro amarelo e negro pelas autopistas, rumo ao arrabalde. De forma muito democrática, mais até do que um taxista está acostumado, ambos combinaram que a viagem seria para Sant Adrià de Besòs, pequena cidade que limita com a região leste de Barcelona. Com as mãos firmes no volante, como que para impedir a chegada do sono, o homem garantiu que ali os hoteis custariam pouco e o acesso aos bairros interessantes seria simples.

A corrida custou caro, tanto que tirou três ou quatro notas de euro da carteira, mas em nenhum instante ele duvidou da seriedade do taxista e do acerto na escolha. Desde a chegada numa Barcelona gelada e com poucos turistas, dormiu a imensa maioria das vezes em Sant Adrià, com exceção de noites que se estenderam para impensadas camas do bairro Gótico, resultado do feitiço da búlgara Anastasia. Mas ele ainda pode lembrar o taxista indicando com o dedo para fora do carro aí está Montjuïc, aí se pode ver uma parte do parque olímpico, à direita está o cemitério, mas agora não dá para enxergar bem, tu podes voltar durante o dia – e lá se vão cinco meses difíceis.

O mais hostil deles parece ser este agosto abafado em que os relógios de rua marcam 30º e o dinheiro começa a rarear para ele de modo preocupante. Antes, os percalços eram resolvidos (mentalmente, se não no sentido prático) desta maneira: pensava que estaria pior em Madrid, estaria pior em Porto Alegre, não há o que reclamar e é preciso insistir um pouco mais. Mas o que se viu depois foi uma série de inundações – o pessimismo chegava em ondas, a crise financeira e social cercava a todos e deixava como náufragos também os moradores provisórios, os que, como ele, provisoriamente não sabiam quando voltariam e de que maneira abandonariam Barcelona.

Duas semanas depois de se instalar no Hotel Sant Roc (duas estrelas, café da manhã incluído na diária, pequeno terraço com plantas confortável para a leitura), conseguiu um emprego de meio turno num café das proximidades, e já tinha em mente os primeiros artigos que escreveria para o jornal brasileiro que estava bancando o início da viagem. Além disso, o cotidiano em Sant Adrià o fascinava pelo tanto de inesperado que havia ali – mesas sempre postas nas ruas, poucos carros nas artérias secundárias, um comércio de bairro, imigrantes árabes (de tantos lugares) e latino-americanos. Estava a vinte e cinco minutos dos bairros mais movimentados de Barcelona, mas pela janela do quarto o que enxergava de mais grandioso era a autopista que levava os carros para Girona.

***

O primeiro artigo que enviou para o Brasil (trezentos euros, cinco páginas em Times New Roman, fonte 12, espaçamento 1,15) foi escrito em dois dias e o satisfez. Basicamente, entrevistou imigrantes que pensavam em regressar ao país de origem com a chegada da crise na Europa e as melhores possibilidades que viam outra vez na América Latina. A maior parte deles tratava a permanência na Espanha como definitivamente inviável, e que esperavam prosperar assim que regressassem. Mostrou o texto para Anastasia, que disse ter ficado curiosa com as descrições de Lima e Guayaquil, cidades que ele tampouco conhecia. Os entrevistados entrariam num avião nos próximos meses, em fuga do desterro, enquanto ele continuava à espera de motivos para ficar por mais tempo.

Para escrever o segundo artigo teve de atravessar a cidade a bordo do metrô: da estação Artigues, no extremo leste, em direção à Cornellà, no oeste. São dezesseis estações e duas trocas de linha, em pouco mais de uma hora de deslocamento. Em Cornellà de Llobregat, assistiu ao enfrentamento futebolístico entre Espanyol, o clube azul e branco de Barcelona, e Real Sociedad, equipe das mesmas cores com sede em San Sebastián, no País Basco. Embora o pano de fundo do texto tenha sido mesmo o futebol, havia um claro interesse antropológico e político: a partida estava sendo disputada na Espanha, e de um lado uma torcida cantava em catalão, e do outro a parcialidade visitante respondia firme em basco.

Escreveu, portanto, sobre as muitas línguas que formavam aquela nação e as particularidades políticas que atravessam o futebol. O fato da torcida do Espanyol – menos separatista do que o rival Barcelona, é certo – estender uma bandeira da Espanha no seu estádio deixou tudo um pouco mais confuso. Ao retornar da partida, já no entardecer, repartiu o vagão do metrô com dezenas de bascos entristecidos com a derrota. Resolveu descer na estação da Sagrada Família e tomar uma cerveja na calçada, apesar de ali as bebidas custarem um pouco mais do que em Sant Adrià. Nos poucos instantes em que permaneceu sentado, viu um paquistanês vendendo flores, um argentino vendendo mapas, uma portuguesa vendendo a sua cerveja e turistas brasileiros que tiravam fotos de maneira desesperada, antes que as últimas luzes do céu se desgrudassem do contorno da igreja.

Já estava outra vez no metrô, cansado e com vontade de se atirar na cama para esquecer o perfume das rosas do Paquistão e os gols perdidos pelo ataque da Real Sociedad, quando, quase que por inércia, abriu os emails na internet do celular. Há dias em que nada de importante aparecia na caixa de entrada, mas ali estava uma notícia: o editor da publicação brasileira lembrava que o prazo para o segundo artigo se encerrava no dia seguinte, e já alertava que seria difícil enviar dinheiro para contribuições nos próximos meses. A revista passava por momentos complicados, avisava o editor, e os diretores pensavam inclusive em eliminar a edição impressa ou reduzir drasticamente a periodicidade. De qualquer maneira, deixou para se preocupar na manhã seguinte, pois o sono era mais poderoso do que qualquer mau presságio.

***

Anastasia, acho que não haverá mais remessas para os artigos, esta foi a última. E apenas com o dinheiro do café não consigo ficar por aqui muito mais tempo, falou, entre nervoso e aturdido.

Anastasia, há dez anos em Barcelona, desde os quinze, portanto, se virava muito melhor do que ele. Era fotógrafa de uma publicação independente, ofício que não rendia qualquer dinheiro, mas a aproximava de gente interessante; para compensar, trabalhava à noite num restaurante e nos finais de semana como recepcionista num hotel pós-moderno da Cidade Velha. Foi ela que insistiu para que não deixasse de escrever. Se aquela revista havia desistido, existiam outras. Barcelona era uma cidade cara e difícil, tão enlouquecedora que poucos jornalistas devem ter resistido por aqui, ela disse, de modo que os artigos podem ser enviados para outras cidades do Brasil, para outros países do continente.

Era a hora de fazer um esforço, quem sabe escrever sobre outros temas, quem sabe escrever ficção?, continuou Anastasia. Ele, entretanto, sabia bem que desde os anos 1980 as publicações não pagavam mais para estampar literatura nas suas páginas, a não ser que fosse o caso de um Mario Vargas Llosa (nos anos 1990), de um Ferreira Gullar (nos 2000) e de um Alan Pauls (nos dias de hoje). Mas entre atravessar de leste a oeste o mapa do metrô de Barcelona para assistir a jogos de futebol e se arriscar na literatura, preferia tentar a segunda alternativa. Ainda que não tivesse tantas ideias prévias, e sim umas ganas enormes de imitar o estilo de Julio Cortázar, escrito que tanto havia lido nos últimos tempos.

Poderia escrever, pensou, uma versão contemporânea do conto em que os moradores de uma casa se vêem acossados por forças misteriosas dentro da própria residência. Ambientado em Barcelona, a própria cidade acabaria por encurralar o narrador-personagem. Começar a carreira literária com um plágio disfarçado de homenagem não me parece promissor, disse a búlgara, que logo amenizou a crítica: mas esta reconstrução mostra que tens alguma criatividade. Escreves sobre o que tu vês ao caminhar pela cidade, os homens estranhos que chegam neste teu hotel. Deve haver alguma história boa por aí, sugeriu.

Desperto pela insônia e o dia vazio, enxergava pela janela os carros que deslizavam pela autopista, os dezenas de catalães que rumavam à Girona naquela noite de terça-feira, formando filas. Eram as únicas luzes que os olhos achavam no início da madrugada; o comércio de Sant Adrià, inteiramente diurno, já tinha suas portas fechadas e as lâmpadas desligadas; nos prédios próximos, todos eles baixos, poucos habitantes pareciam estar acordados. Só não sabia se havia mais vazio no plano que observava ou dentro daquele quarto de hotel – com livros lidos e relidos em cima da mesa, o dicionário ainda selvagem que explicava sem sucesso o catalão, cabides de casacos repetidos, garrafas secas, a planta que clamava por água em silêncio.

***

Como fazem os desorganizados que aspiram encontrar métodos, escreveu numa folha solta de caderno as regras da nova rotina. Às tardes, caminharia por Barcelona, à procura de histórias e de temas para escrever os primeiros relatos. À noite, escreveria o que pudesse, ao menos duas páginas a cada tentativa, porque assim esgotaria o esforço. E durante as manhãs, sempre para ele o mais sóbrio dos turnos, revisaria o que havia tentado fazer na noite anterior, colocando fora as páginas que, mais do que incertas, causassem também algum constrangimento.

Por horas, desbravou avenidas, vagões de metrô, ônibus suburbanos; alugou uma bicicleta, gastou dez euros em tíquetes, perdeu-se e decidiu por fim comprar um mapa. Era turista outra vez em Barcelona, talvez com maior intensidade do que quando chegara na Espanha. Em frente a um prédio decadente de La Barceloneta, viu que um jovem casal saía pela porta da frente com alguma pressa, deixando-a entreaberta. Num impulso, adentrou o edifício. Onde deveria estar o porteiro, enxergou apenas um espelho embaçado. Entrou no elevador e apertou o botão que o levaria ao décimo andar do prédio, o ponto mais alto também da quadra.

Não havia terraço, o corredor desembocava em quatro portas e só havia uma janela, quase em frente à escadaria de emergência. Já estava a observar pela abertura. A primeira visão foi da lateral do prédio ao lado, que mais parecia um imenso caixote impregnado pela oxidação e o tempo. Nas dezenas de janelas, tremulavam, com suas semelhanças, as roupas estendidas e as folhas das pequenas plantas de apartamento. Mesmo ao longe, viu alguns poucos homens e mulheres circulando pelas casas naquele momento da tarde: alguns quase nus, organizando as camisetas na área de serviço; dois homens que conversavam alegremente, com a aparência de estarem ébrios, debruçados numa grade; em cima duma cama alta, um casal fazia o amor como que para mostrar o seu gozo para toda Barcelona.

Estava outra vez na calçada, quase sem fôlego. Ficara por mais de vinte minutos observando a caixa de concreto, sempre híbrida entre o vivo e o morto, o movimento e o silêncio. Ele tinha histórias para escrever, ainda que estivessem até agora desconectadas, à espera de um fio, de uma lógica interna, dos componentes de ficção que modificassem a realidade que enxergou sem qualquer esforço pelo retângulo de vidro de La Barceloneta. Rascunhando os espaços em branco da contracapa do El Tiempo, esboçou as primeiras linhas do relato às margens do Mar Mediterrâneo, sentado na curta faixa de areia, pouco antes da noite se apoderar das ruas e ser atacada pelas luzes dos bares e das lâmpadas amarelas das calçadas.

Anastasia e tantos outros logo caminhariam por este mesmo asfalto.

***

Ela agarrou as duas pernas dele no ponto mais firme das coxas e o puxou para si, quase no limiar entre o desejo e a violência. O sol invadia o quarto e deixava à mostra as imperfeições de cada um; os primeiros pêlos grisalhos da barba e dos cabelos dele, mesmo antes de alcançar os trinta anos, a cicatriz estampada na perna que um acidente ocorrido numa cidade da província causou num passado já remoto; e, no caso dela, a flacidez algo apressada dos seios, a ruga que despontava nas proximidades das têmporas. Mas, mais do que os detalhes que a noite esconde, o sol ampliava a cena para todo o edifício, para os vizinhos, para o bairro burguês de La Barceloneta.

Transaram por quinze, no máximo vinte minutos. Esforçaram-se ao máximo para que houvesse intensidade e não pressa; vontade, e não sofreguidão. Pela janela, o barulho do vento e o ruído longínquo de uma máquina qualquer brindavam um ritmo impreciso ao sexo. Ao fim, deitaram-se em silêncio, contemplativos, sem se valer de frases vazias ou de carícias posteriores. A janela permanecia aberta, escancaradas as suas duas portinholas de madeira, mas a nudez que descansava nos lençóis era recebida com indiferença pelos moradores do edifício, às voltas eles também com seus sons e suas pausas.

No mesmo andar, mas no lado oposto do edifício, numa sacada com vista para a avenida, não parece haver nenhuma prova de que são quatro horas da tarde de um dia de semana. Encostados na mureta, um deles sem camisa, apesar do vento fresco, dois homens conversam em voz baixa.

– No mês que vem, eu volto a tentar trabalhar. Não me parece certo passar os dias em casa se há filas de desempregados por aí, com mais energia e disposição do que eu. Do que nós.

– Eu nunca prometi nada, nem para mim e nem para ti. Vou na cozinha e volto com o segundo vinho.

Dois andares abaixo, na habitação que permite ainda assim um amplo plano da cidade que se espalha ao longo das margens litorâneas, as cortinas estão fechadas e pouca luz consegue preencher o ambiente. Hoje ele beira os sessenta anos, e há dez repete os mesmos hábitos dentro de casa. Quando abre a porta de entrada, por exemplo, a primeira coisa a fazer não é pendurar o casaco no cabide, ou acender a luz da cozinha; ele vai até a sala (tateando nos móveis, se já estiver escuro) e aperta o botão da televisão. O aparelho ficará ligado até que saia outra vez, e dele sairão os únicos diálogos, as únicas vozes a habitar aquelas paredes (…)

Bem, o que quer que eu diga?, disse Anastasia ao entregar de volta a ele a folha impressa. Está bom, eu gostei. O texto começa de forma estranha, não se sabe bem para onde vai, o que pretende… é como o que fazemos nesta cidade há tanto tempo, não é? Eu achei a tua cara.

Março de 2014

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Edifício Paris

Posted in Sem categoria by iurimuller on 20 de janeiro de 2014
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Foto: la diaria

A tua vida é uma história triste.
A minha é igual à tua.
Presas as mãos e preso o coração,
enchemos de sombra a mesma rua.
(Eugénio de Andrade)

A água que abastece os quase setenta apartamentos do Edifício Paris, esta elevação de concreto no centro da cidade, ainda era aquecida através de um sistema rústico. Todos os dias (mais de uma vez por dia), o encarregado pela engrenagem enchia a antiga caldeira de lenha e colocava em funcionamento os aparelhos. Durante certo tempo, houve um funcionário contratado especificamente para o serviço. Hoje, quem faz isso é o próprio porteiro do prédio, que ainda precisa atender aos caprichos dos vizinhos e estar às voltas com os andarilhos da região.

Não só a administração do Edifício Paris era distinta em outro tempo, mas também o cenário do centro da cidade. Os inferninhos que hoje brotam em cada esquina, como a pior das ervas dos córregos, eram apenas dois ou três há vinte anos, e tão inocentes que a classificação soaria agora como exagerada. Além do mais, o concreto ainda não havia esfarelado tanto, os prédios não haviam perdido a cor, não passavam tantos carros e não sentíamos tanto medo de caminhar pelas ruas depois das dez horas da noite. Ou já havia tudo isso, e apenas pensávamos mais em outras coisas e menos em nós mesmos e em nossas dúvidas.

Ernesto, porteiro durante a noite e a madrugada, sabe bem como estabelecer a comparação. Só foi trabalhar ali por indicação de um tio, que havia exercido o mesmo ofício na década passada. Todas as noites, mesmo as de feriados, mesmo a dos domingos, as noites de temporal, inclusive, ele assume a tarefa de guardião até a manhã seguinte. Boa parte do tempo é vencida em silêncio, basta aceitar os convites que nos lança o tédio. O trabalho consiste em apertar o botão que abre a porta de ferro, cuidar quem é o homem que chega, fazer uma ou duas perguntas para descobrir as intenções desta gente bem pouco criativa. Os intervalos não fogem, costumeiramente, do acesso às caldeiras e das rondas na garagem.

Com origens nas planuras do interior, Ernesto gosta de pensar que não é menos sentinela do que os quero-queros da fronteira, estas aves que se colocam nos galhos de uma árvore ou no alto de um poste para ver a noite passear sem pressa sobre o pampa. Com a rotina já firme na memória, os movimentos do porteiro parecem algo mecânicos: ele deixa a portaria por uns minutos logo depois da meia-noite para conferir se há lenha suficiente para as próximas horas – são poucos os insones do prédio, e se sabe de cor em que apartamento cada um deles vive – e no meio da madrugada, perto das três se a noite é fria, às quatro se faz calor, sai do prédio e caminha até o estacionamento ao lado, que serve de garagem improvisada para o edifício que não conta com espaços subterrâneos para os motoristas.

Está há oito ou nove anos na mesma poltrona – que não foi reformada, assim como os vidros são os mesmos e o letreiro com a graciosa caligrafia que apresenta à calçada a inscrição “Edifício Paris, 976” segue inalterado. Ernesto nunca precisou daquelas televisões portáteis que seus companheiros de profissão adotaram como peça valiosa para vencer o sono. Sempre se valeu do rádio, ainda que no momento esteja enojado com os noticiários. Não com as notícias cada vez piores que assolam os bairros com o medo dos assaltos e das mortes gratuitas – o problema maior é a repetição dos mesmos fatos, como se os radialistas sequer desconfiem que ainda haja quem escute as rádios durante horas a fio. De modo que algumas noites são feitas de silêncio e alguma atenção maior para os ruídos da rua.

Nas quartas-feiras e nos domingos, há o movimento dos torcedores que caminham para a estação de trem que fica a poucas quadras dali. Voltam duas ou três horas depois, e nem é preciso buscar a notícia do placar da partida – ela está escancarada nos olhos baixos, em caso de derrota, ou nas conversas em tom alto, se o dia foi de triunfo. E quando houve empate? Muitos nem voltam para casa, buscam em outro lado o caminho que esteja à altura daquela noite, principalmente nas noites quentes de verão ou primavera. Mais recentemente, há também o barulho das garagens da outra quadra. Ruídos confusos, que interrompem a calma e fazem com que apareça pelos corredores do Edifício Paris uma estranha forma de medo.

Numa madrugada de setembro, ouviu pela primeira vez os tiros que se tornaram frequentes. A poucos metros do edifício, montou-se um local de acerto de contas, como um ringue clandestino em que os crimes do centro da cidade eram solucionados em poucos minutos, no instante mais frio da noite. Dias depois, Ernesto se aproximou daquele lugar. A garagem se abria primeiramente na largura de um brete, não mais, mas logo se ampliava num pátio amplo, com cheiro de flor. Dois homens conversavam baixo, sentados em cadeiras de praia, ambos com revólveres nas mãos. Ninguém disse nada a Ernesto, apenas se apontou para a sua cabeça uma daquelas armas. Foi o suficiente para que não saísse da portaria do prédio pelas semanas seguintes.

É certo que sentiu grande vontade, mas não contou a ninguém sobre aquele descampado que dizia servir de abrigo para os carros. Calou-se mesmo para os moradores com que conversava habitualmente. De alguns, quatro ou cinco, gostava de verdade, sentia um carinho mais forte do que a simpatia do cotidiano. Por outros, sentia escárnio ou desprezo. Havia quem o tratasse mal, quem exigisse favores às seis horas da manhã (como levar o carrinho de supermercado até a porta do oitavo andar, para que assim a Dona Tereza pudesse já organizar o seu dia desde cedo) e havia quem votasse pela sua demissão nas reuniões de condomínio como forma de abater gastos e ver diminuída a despesa mensal.

Com Carlos e Daniel, chegou a jogar futebol nos campos da Zona Sul em algumas tardes. Com Gabriela, que viva no segundo andar, ganhou certo dinheiro consertando obviedades, como torneiras que respingavam de forma rebelde e canos que não conservavam a temperatura ideal para a água. Com Estela, que sorria tão docemente mesmo quando voltava embriagada das festas do Baixo, pensou até que teria alguma chance – e a espera logo se tornou esfarrapada quando a moça se mudou para um condomínio fechado, onde a água era aquecida por um moderno sistema elétrico, e não por caldeiras construídas nos anos 1950. Caldeiras alimentadas apenas por ele, a única criatura que se mantinha sempre vigilante entre as cento e cinquenta almas daquela torre.

A caldeira funcionava assim: no início da manhã, ainda no turno de Ernesto, um caminhão descarregava os sacos de lenha num depósito situado nos fundos do edifício. O lugar, melhor um galpão, hoje em dia funcionava apenas para isso, para guardar madeira nova e madeira apodrecida. Ao longo do dia, o porteiro que estivesse em serviço rumaria ao depósito, carregaria alguns quilos de lenha e colocaria o recipiente na caldeira. A fornalha logo alcançaria o calor e os gases necessários para, num sistema de tubulação, entregar água quente aos apartamentos do Edifício Paris. Foi assim até que, numa tarde de fim de ano, os condôminos decidissem pela aposentadoria daquele método que já se supunha arcaico.

Sem grande demora, a substituição do grande forno por um sistema elétrico, o fim dos recebimentos de lenha e a consequente mudança no quadro pessoal foram acordados na reunião de condomínio. A velha estrutura não seria demolida, destruí-la custaria mais caro do que deixar as máquinas às traças, como fizeram ao fim. A decisão mais surpreendente talvez tenha sido mesmo a demissão de Ernesto, ainda que poucos tenham pedido a palavra para questionar a necessidade daquilo. O porteiro noturno sairia porque, sem o trabalho de manejar a caldeira, seria possível contratar alguém ganhando menos, e quem sabe alguém mais moço, mais disposto a contribuir para o crescimento do condomínio. Provavelmente o funcionário de uma firma terceirizada. Lá pelas tantas, alguém argumentou que inclusive havia visto o Ernesto com os delinquentes do estacionamento da outra quadra, naquele pátio onde se encomendavam e entregavam crimes.

Apenas dois dias depois, o síndico, homem que passava as tardes a percorrer os corredores do Edifício Paris e fiscalizar se havia alguma lâmpada queimada, tratou de avisar o porteiro da demissão. Como justificativa, entregou a ata do encontro de moradores. Ernesto preferiu não ler, indignado que estava. E ficou mais ainda quando o síndico avisou que ele não poderia sair agora, mas só quando encerrasse aquela noite de expediente. Afinal, não daria tempo de contratar alguém para substituí-lo durante a madrugada. Aquela foi uma noite longa. Para Ernesto, pouco importava os barulhos da rua, dos carros. Cada som parecia formar uma prolongada e triste canção, resistente ao sono, que perduraria nos ouvidos até a manhã seguinte. Manhã em que, sem se despedir de ninguém, juntou os seus poucos pertences na mesa da portaria (um boné que ganhou de cortesia do supermercado, a revista que gostava de reler, o rádio a pilhas) e saiu a caminhar pelas travessas do centro.

Quase nunca caminhava por ali, como fizera no primeiro e estranho dia de liberdade, ou de desemprego. Quando saía do Edifício Paris, se dirigia sem rodeios para a parada de ônibus. As compras e as necessidades da rua eram todas feitas no bairro em que vivia. Numa tarde, havia ido ao cinema – mas faz tanto tempo que seria difícil recordar o filme, ainda que lembre ter pedido pipoca e uma água com gás. Com a carta de demissão nos bolsos, caminhou longa e calmamente pelo centro. Atravessou ruelas que antes só havia visto com o olhar apressado, sentou num banco de praça para observar o movimento dos passantes. Faltava muito para o almoço e já sentia fome. Pensou que este era um sentimento perigoso, que sem o salário da portaria seria difícil achar comida todos os dias.

Depois de comprar um saco de amendoins por poucas moedas, chegou, quase que por acaso, numa das ruas principais daquela zona, onde em outros tempos ainda passava o rio. Viu músicos, mágicos, charlatães, gente que se virava como podia para arranjar os trocados da sobrevivência. E no instante seguinte encontrou o primeiro cego a vender bilhetes de loteria. Que maldade, pensou, que má é a cidade em que os cegos precisavam se atirar nas calçadas, gritar números que jamais sairiam, ofertar bilhetes que talvez já estivessem até mesmo caducos. Foi a visão que mais o entristeceu: imaginou que daqueles papeis não poderia sair prêmio algum, apenas mais comprovações da desgraça. Como num truque sem graça, avistou mais cegos com seus bilhetes por outras das esquinas pelas quais caminhava. Foi quando notou que, a julgar pela procura do trabalho, os cegos estavam mais a salvo do que ele, o Ernesto sem emprego e com pouco dinheiro no bolso das calças.

Adiou a volta para casa durante horas, até o instante em que decidiu embarcar num dos ônibus azuis, na parada mais próxima ao Edifício Paris. Pagou a passagem sabendo que era possivelmente a última vez em que fazia aquele trajeto, antes comum a todos os dias. Nem bem abriu a porta de casa, percebeu que resistiria por pouco tempo na cidade, ao menos daquela forma. Nem era tanto o desemprego que o afligia, mas as imagens que tinha acumulado e que agora voltavam todas aos olhos. A cidade era bela, reconhecia, mas passara tempo demais contemplando sem notar a sua mais parte mais cinza. Talvez essa tenha sido a causa de estar tão seco por dentro, de ter antecipado as decisões. Em poucos minutos, acomodou o que tinha dentro da mala. As contas que ainda tinha para pagar ficaram em cima da mesa. Manteve a última ficha de ônibus na palma da mão, segurando-a firme para que não escapasse pela tarde de vento.

Desceu do ônibus na Rodoviária e descobriu que tinha tempo para tomar um café preto nalgum dos bares da estação. Pediu a taça grande e ficou a folhear jornais, hábito que havia abandonando nos últimos meses de profissão. Em poucos minutos, leu que o prefeito, amedrontado nos últimos dias, havia viajado aos Estados Unidos, e que logo seria construído o novo aeroporto da cidade. No caderno de classificados, viu que certa imobiliária oferecia apartamentos de três quartos no “condomínio Edifício Paris, situado em elegante região do centro”.  Riu com o canto da boca da ironia daquela situação e entendeu que era mesmo o momento de ir embora, de voltar para a fronteira ao menos por uns tempos, para tirar dos olhos um pouco daquele cinza.

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A primavera naquele bairro

Posted in Sem categoria by iurimuller on 9 de julho de 2013
Foto: Iuri Müller

Foto: Iuri Müller

“El tiempo está después” é uma singela canção de Fernando Cabrera, na qual o músico montevideano oferece um brinde à própria cidade. Mesmo que possa haver alguém nestes versos – un día nos encontraremos / en otro carnaval – muito do carinho parece destinado a Montevidéu, suas ruas, suas chuvas, seus trens.

A composição é de Cabrera, mas não faltam versões alternativas. Aqui, a original, a de Jorge Drexler e a do Perotá Chingó.