Calle Soriano

Gorz (2)

Posted in Sem categoria by iurimuller on 21 de setembro de 2014

“É preciso, em primeiro lugar, perguntar-nos: de que crescimento temos necessidade? O que nos falta e o que o crescimento deveria trazer-nos? Mas essas perguntas jamais foram levantadas. Os economistas, os governos, os homens de negócios reclamam pelo crescimento em si, sem jamais definir sua finalidade. O conteúdo do crescimento não interessa aos que decidem. O que lhes interessa é o aumento do PIB, ou seja, o aumento da quantidade de dinheiro trocado, a quantidade de mercadorias compradas e vendidas no decurso de um ano, quaisquer que sejam essas mercadorias. Nada garante que o crescimento do PIB aumente a disponibilidade dos produtos de que a população necessita. De fato, esse crescimento responde, em primeiro lugar, a uma necessidade do capital, não às necessidades da população. Ele cria, muitas vezes, mais pobres e mais pobreza, ele, com frequência, traz rendimento a uma minoria em detrimento da maioria, ele deteriora a qualidade de vida e do meio ambiente, em vez de melhorá-la. Quais são as riquezas e os recursos que faltam com mais frequência à população? Uma alimentação sadia e equilibrada em primeiro lugar; água potável e de boa qualidade; ar puro, luz e espaço; um alojamento saudável e agradável. Mas, a evolução do PIB não mede nada disso. Tomemos um exemplo: uma aldeia faz um poço, e todo o mundo pode tirar a sua água dali. A água é um bem comum, e o poço a produz porque houve um trabalho comum. Ele é a maior fonte de riqueza da comunidade. Mas ele não aumenta o PIB, pois ele não dá lugar a trocas de dinheiro: nada é comprado nem vendido. Mas, se o poço é cavado e dele se apropria um empreendedor privado que exige de cada aldeão que pague a água que ele retira, o PIB aumentará encargos embutidos pelo proprietário.
Tomemos ainda o exemplo dos camponeses sem terra. Se forem distribuídas a cem mil famílias terras improdutivas nas quais eles produzem sua subsistência, o PIB não muda. Ele também não muda se essas famílias repartirem suas tarefas de interesse geral, trocando produtos e serviços numa base mutualista e cooperativa. Contrariamente, se cem proprietários expulsam cem mil famílias de suas terras e fazem desenvolver nessas terras culturas comerciais destinadas à exportação, o PIB aumenta no montante dessas exportações e dos salários miseráveis pagos aos agricultores.
O PIB não conhece e não mede as riquezas, a não ser que elas tenham a forma de mercadorias. Ele só reconhece como trabalho produtivo o trabalho vendido a uma empresa dele tira lucro, ou, dito de outra maneira, que pode revender com lucro o produto desse trabalho. Só é produtivo, do ponto de vista do capital, o trabalho que produz mais do que ele custa, o trabalho que produz um excedente – um sobrevalor – suscetível de aumentar o capital (…)”.

Trecho da entrevista concedida por André Gorz a Sonia Montaño, publicada originalmente nos Cadernos IHU Ideias (Unisinos, 2005) e posteriormente na reunião de ensaios intitulada “Ecológica” (Annablume, 2010).

Gorz (1)

Posted in Sem categoria by iurimuller on 21 de setembro de 2014

“De fato, a racionalidade econômica nunca pôde se exprimir em sua essência nas sociedades pré-capitalistas. Nestas, a racionalidade econômica sempre foi represada e entravada (…) por entendimentos entre produtores e entre mercadores para interditar a livre concorrência em mercados livres. Ela nunca pôde se impor aos produtores, pois estes eram senhores de seus meios de produção e consequentemente livres para determinar eles mesmos a intensidade, a duração e os horários de seu trabalho. O recuo da autoprodução e a expansão da produção para o mercado nada mudaram na situação: as corporações ou os grupos ditavam ao mercado os preços uniformes para cada qualidade definida por eles, e proibiam fortemente toda forma de concorrência. As relações entre produtores e mercadores eram necessariamente contratuais, e os mercadores, por si mesmos, aproveitavam-se dessa situação, pois se encontravam protegidos contra uma concorrência de mercado livre. A norma do suficiente – ganho suficiente para o artesão, lucro suficiente para o mercador – estava tão bem enraizada no modo de vida tradicional que era impossível obter dos trabalhadores um trabalho mais intenso ou prolongado prometendo-lhes ganhos mais elevados. Como escreve Max Weber, o trabalhador “não se perguntava: quanto posso ganhar por dia se fornecer o maior trabalho possível, mas apenas: quanto devo trabalhar para ganhar os dois marcos e cinquenta que recebo até hoje e que cobrem as minhas necessidades correntes”.
No primeiro livro de ‘O Capital’, Marx cita uma vasta literatura que atesta a extrema dificuldade que tiveram os donos das manufaturas e das primeiras “fábricas automáticas” para obter de sua mão de obra um trabalho regular, em tempo integral, dia após dia, semana após semana. Para forçá-los a isso, não era suficiente – como tinham feito os manufaturadores – retirar deles a propriedade dos meios de produção; era preciso igualmente, depois de ter arruinado o artesanato, reduzir a remuneração dos trabalhadores por unidade de produto a fim de obrigá-los a trabalhar mais para obter o suficiente; e era preciso, para isso, retirar-lhes o controle dos meios de produção para poder lhes impor uma organização e uma divisão do trabalho pelas quais a natureza, a quantidade e a intensidade do trabalho a fornecer lhes seriam ditadas como condições próprias da matéria.
A mecanização era, por excelência, o meio de chegar a esse resultado (…) O instrumento de trabalho torna-se assim inapropriável pelo trabalhador, e essa separação entre o trabalhador e o produto, assim como aquela entre o trabalhador e o próprio trabalho – que doravante existe dentro dele como a exigência muda, da parte da organização material, de tarefas quantificadas, predeterminadas e rigorosamente programadas -, essas separações demandam ser realizadas.
É somente sobre a base dessa tripla desapropriação que a produção pode se emancipar da arbitragem dos produtores diretos, ou seja, tornar-se independente da relação entre as necessidades e os desejos que eles sentem, o tamanho do esforço que estão dispostos a fornecer para satisfazê-las, a intensidade, a duração e a qualidade desse esforço.
É ainda essa tripla desapropriação que permitiu especializações funcionais cada vez mais estreitas; a acumulação e a combinação, num mesmo processo de produção, de uma massa de saberes técnico-científicos oriundos de disciplinas heterogêneas, incapazes de se comunicarem e de se coordenarem entre si, e cuja organização produtiva requeria um estado-maior e uma estrutura piramidal quase militar (…)”.

Fragmento do ensaio “A ecologia política entre a expertocracia e a autolimitação”, de André Gorz (1992). Publicado em “Ecológica” (Annablume, 2010), com tradução de Celso Azzan Jr.

Folhas do vento norte (IV). A poeira das casas

Posted in Sem categoria by iurimuller on 9 de setembro de 2014

O filtro de papel era grande demais para o espaço da cafeteira, de modo que teve que cortar um pedaço com a tesoura, no formato de um arco, para que pudessem estar com duas xícaras nas mãos poucos minutos depois, sentados à mesa da cozinha. Não era o café a bebida mais provável para aquele início de noite quente, mas naquela casa o hábito pode mais que o clima e as temperaturas – a casa em que desembarcara há algumas semanas, depois que um caminhão pintado de laranja e com mensagens religiosas estampadas na caçamba deixou seus poucos móveis e algumas caixas de papelão numa esquina silenciosa da cidade.

Era a quarta residência que habitava desde que passara a morar na cidade. Desde então, viveu tempos de um estranho nomadismo, de casas que se esvaziavam e que voltavam a se encher de sofás, cadeiras, livros, e de apartamentos nos quais dormia por uma ou duas noites, e que então não voltava a ver. Não foi assim por capricho ou porque as adaptações eram custosas; na verdade, as sucessivas mudanças se deveram às circunstâncias, aos papéis que faltaram para seguir numa casa, ao dinheiro que agora possibilitava algo mais do que um quarto de pensão, às companhias que trocavam de bairro e de maneira consciente ou não acabavam por levá-la junto com as malas e os pertences.

Sobre isso conversavam, sobre aquela sina dos habitantes da cidade: não pertencer, mudar-se com frequência e disciplina, ter os casacos sempre a postos, longe dos cabides definitivos dos armários clássicos, como que preparados para trocar de lado a qualquer momento. Com poucos exemplos, a medida em que a cafeteira expelia fumaça tal qual uma locomotiva em apuros, perceberam que era um traço comum de muita gente – alguns, mais flexíveis do que os inadaptados de sempre, depois de certo instante (a quarta ou a quinta mudança, por exemplo), nem percebiam mais. Trocavam de casa ou de apartamento, de andar ou de pensão, como quem troca de calçada para evitar o sol do meio-dia.

O café já estava servido nas duas xícaras de vidro e as partículas de açúcar permaneciam visíveis no fundo dos recipientes. Tomavam a goles longos, indiferentes ao sabor ou à doçura da bebida. Algumas caixas ainda estavam fechadas com fita isolante no chão da cozinha: dentro, repousavam talheres, pratos, panos de prato, potes de muitas cores, alguma chaleira com mais anos de vida do que tinham os seus donos. Os demais cômodos estavam tão ou mais esvaziados. A mudança ocorrera há poucos dias, restava muito por fazer. Ela disse que desta vez se sentira bem desde o princípio, que lhe agradavam as paredes envelhecidas da casa, a rua de pouco movimento em que se situava, e mais do que nada a existência da claraboia interna, o traço mais surpreendente da edificação que, há décadas, fora erguida nas cercanias do Parque.

E nem bem havia terminado de dizer que sim, que aquele lugar era agradável, muito mais do que os últimos dois ou três, e que viveria ali por meses, quem sabe alguns anos, que acreditava enxergar anunciações de felicidade nos janelões antigos, e então trancou a frase, de súbito. Após alguns segundos de silêncio, teve de remendar em tom de confissão: como se permanecer ou sair outra vez dependesse apenas de mim, ou de nós. E riram um riso baixo e nervoso, como quem ri da própria inocência.

***

A melhor parte disso tudo, ela tornava a dizer, está contida na própria ação: ao estar sempre pelas ruas, disponível aos sofás que te oferecem, aos catálogos de imobiliárias e mesmo aos quartos de hotéis, conhece-se alguns cantos até então completamente invisíveis da cidade. E algo sobre o funcionamento deste lugar. Por exemplo, dizia, eu só pude descobrir a força que o vento da cidade pode alcançar numa noite em que, ao sair de alguma festa, acabei por passar a madrugada na sala de uns amigos que agora já me são distantes, perto do Centro. Era um apartamento no décimo andar de um prédio antigo, que por sua vez foi construído na parte mais alta da rua.

Lá, quando chegou, dirigiu-se diretamente para a sacada. Dali, se viam os bairros ao longe e os trilhos da entrada da cidade, era uma visão aberta para as luzes da noite. E o restante, ela disse, descobri quando tentei dormir: eu lembro que precisava desesperadamente acordar cedo no outro dia. É certo, já conhecia a força do vento norte, seus lamentos de pássaro triste, e do vento sul, este de cantar gelado e capaz de arrepiar a pele e fazer qualquer um se encher de blusões mesmo no outono. Mas não havia passado uma noite inteira em claro por conta do barulho do vento, ao menos até aquele dia.

O vento fazia tremer as janelas dos quartos e da sala, derrubava os vasos de plantas que ficavam na sacada, tremulava as cortinas, impacientava os gatos. Não chegava em rajadas, mas num soprar constante e barulhento. Em algum momento, pensou que nos primeiros segundos o ruído havia sido tão forte que ele permanecera nos ouvidos e na cabeça, mas não no céu da cidade – e o que o restante da noite de insônia foi o resultado da imaginação atormentada pelo vento, e não pelo próprio vento. Enfim, disso jamais saberá. Na manhã seguinte, quando se despediu e buscou um ônibus que a levasse à Universidade, tentou ver entre as pessoas que esperavam na parada de coletivos alguém com olheiras parecidas com as suas. Assim, a hipótese de ter ventado forte por sete horas seguidas pareceria mais real.

Não foi outra vez àquele apartamento, embora tenha sonhado algumas vezes com cômodos e paredes similares. Agora, as xícaras estavam vazias, a cafeteira ainda funcionava. Tornaram a servir o café. A noite já parecia mais fresca e da cozinha era possível perceber que muita gente caminhava pelas ruas. O Parque, por sua vez, estava às escuras. Dentro de poucas horas, seria setembro novamente.

***

Aos poucos, desbravavam os cantos da casa nova. A claraboia foi o primeiro divertimento inesperado, mas houve mais: o banheiro com lajotas amarelas e laranjas, por exemplo, e cujo ligeiro contraste entre as cores parecia formar o mapa de algum país distante. Os poucos livros que sobraram na estante dos antigos proprietários, basicamente romances franceses com a lombada em profundo processo de desgaste. E as duas fotos que ela encontrou numa gaveta. Na primeira, um casal mais ou menos na altura dos quarenta anos de idade – a foto é nitidamente velha, hoje teriam um par de décadas a mais, no mínimo – posa para uma câmera em frente ao cassino de Mar del Plata; na outra, vê-se um homem caminhando de costas na direção de um avião, e não é possível identificar que cidade e aeroporto são aqueles.

Logo haverá outras fotos e objetos nas gavetas: fotos suas e dos seus, das cidades por onde passou. Alguns poucos cartões-postais que colecionou durante a vida, páginas das cartas que guardou. Moedas e pouco mais, mas com algo ocupará aquela casa, e algo ficará, perdido ou esquecido, por vezes dá no mesmo, para os próximos habitantes, que inevitavelmente chegarão. Oxalá demore, ela pensa. Está feliz ali, ela que andava desacreditada com os lares. Por pouco, não pagou a mensalidade de um hotelzinho da Avenida e organizou as coisas por lá. Mais fácil seria, apesar da estranheza do gesto. Preferiu insistir um pouco mais, e agora estava ali, tomando a segunda xícara de café passado na cozinha.

Quem eram os antigos habitantes da casa da claraboia e dos ladrilhos coloridos?, eles se perguntavam. Os funcionários que alugaram a morada de nada sabiam, e pouco se interessavam pelo passado dos lugares. Através dos rastros (as fotos, os livros), pouco se aproximavam de uma imagem minimamente nítida dos moradores. O certo é que deixaram o piso em bom estado de conservação, bem como os móveis que não tiraram da sala. Pode ter sido gente que nasceu na cidade e passou uma vida inteira ali, a uma quadra e meia do Parque, sempre perto das árvores, ou alguém que veio de fora e passou pouco tempo debaixo da claraboia: alguém que viu os negócios desmoronarem numa das galerias do Centro, ou que perdeu, por tragédia ou desamor, as companhias que o trouxeram para cá.

E deles, o que diriam os próximos, os que noutra manhã ensolarada desceriam de um caminhão de cor berrante, com mensagens religiosas na lataria, e passassem a ocupar os mesmos cômodos que desbravam agora, com entusiasmo inaugural? Talvez vislumbrem na poeira do tapete alguma história ou circunstância, talvez imaginem que na verdade eles eram uns quantos nômades que saltavam de um lugar a outro, deixando sempre algo pelo caminho, alguma coisa de que nem se lembrariam depois. Logo a noite tomou conta em definitivo do céu, a companhia foi embora para alguma outra casa, ela se viu sozinha – e em meio ao vento que corria na rua chegou setembro, ansioso e sem aviso, mas disso ela só percebeu na manhã seguinte, quando olhou para o calendário da parede.

Folhas do vento norte (III). Nuvens no fundo do mar

Posted in Sem categoria by iurimuller on 5 de agosto de 2014

Olha como estão estranhas as nuvens, ouviu. E concordou que aquele era mesmo um dia incomum, ao menos no que diz respeito ao céu. O amanhecer molhado logo deu lugar a uma tarde fechada que, pouco a pouco, cedeu os espaços para a neblina. Com o crepúsculo, as luzes amarelas da cidade mostravam que as nuvens estavam a ponto de tocar o chão. Fragmentos da neblina sobrevoavam as ruas, roçavam nas árvores mais baixas, escondiam o teto dos postos de gasolina e adentravam os lugares menos imaginados. Em pouco tempo, naquela hora em que a tarde se retira para que a noite assuma os trabalhos, a cerração havia tomado as esquinas e os montes, descera para a cidade como se ali resolvesse ficar por alguns anos. Não se tratava de consistência física, mas de uma forte impressão de permanência.

No Centro, os caminhantes que quase sempre estavam alheios a tudo, e não seria diferente com a posição das nuvens num céu tão repetitivo, desta vez pareciam espantados: andavam devagar porque a atenção estava nos olhos, intrigados com aquelas nuvens de voo baixo, como pássaros recém-saídos de gaiolas. Alguns homens retiravam câmeras do bolso para fotografar, ainda que o fenômeno fosse delicado demais para a maioria das lentes. Houve também quem caminhasse depressa, um tanto por susto. Pensavam apenas em chegar logo em casa, para então fechar as portas, as janelas, tapar as saídas da lareira, se fosse o caso de ter uma no cômodo mais central. Assim impediriam que as nuvens também tomassem conta da sala, da banheira, da louça ainda por lavar que esperava na pia da cozinha. Que ocultassem os papéis da escrivaninha, escondessem o carro na garagem estreita e assim seguissem adiante.

O temor de ser tragada pela fumaça que descia não a atingia. Mais do que isso, o que gerava era curiosidade. Saiu a caminhar para tentar descobrir do que aquilo era feito. No Calçadão, percebeu que elas flutuavam com alguma velocidade, que não se contentavam em baixar e então ficarem quietas. Foi quando deteve os olhos no termômetro: enxergava a temperatura – digamos que naquele princípio de noite o aparelho apontava para dezoito graus – e logo em seguida um floco de nuvem se deslocava para o lado e tornava mais difícil a leitura, como se padecesse de uma súbita e assustadora miopia. Mas, segundos depois, este fragmento de névoa rumava para outro lado, quem sabe para a Praça, ou mesmo tomasse as ladeiras que acabam por desaguar no Parque, e então aqueles números se tornavam legíveis outra vez. Não pôde evitar um sorriso, e naquela hora viu que o lugar estava quase vazio. Há quanto tempo estava atrás dos rastros e da composição da neblina?

Metros adiante, viu-o, tal como uma aparição que só aparece mesmo em noites de cerrado nevoeiro, fantasma que não poderia tolerar a luz do sol no rosto. Parecia tão instigado quanto ela, e espiava para dentro de uma galeria para comprovar se as nuvens também haviam entrado naquele túnel por entre dois prédios comerciais. É possível que a tenha visto no mesmo momento, ela que deixava o termômetro para trás. Aproximaram-se, riram do acaso e da estranheza do que ocorria ali, agora sem outros espectadores. Ele disse que estava surpreso, que os jornais anunciaram que seria uma noite de lua grande, e não de uma tempestade de neblina como a que estavam vendo. Caminharam juntos, talvez esquecendo que o gesto pertencesse a outra época. E só detiveram o passo quando, na frente de uma entrada iluminada por duas lâmpadas brancas, um cartaz anunciava que a última sessão do Cinema começaria em poucos minutos. Era um filme sobre o fundo do mar, ao que parecia pelo título e a fotografia da chamada.

***

Pagaram menos de duas notas pelos ingressos e se apressaram para entrar na sala, deixando para trás as pipocas e os adereços. O ambiente estava quase vazio; nas fileiras do fundo havia alguns casais em silêncio e, um pouco mais à frente, alguns senhores idosos que esperavam com a coluna reta o início da sessão. Escolheram dois lugares no canto esquerdo, distante dos demais. As luzes se apagaram rápido, mas a tela se mantinha desligada. Algum problema técnico, talvez. Uma mulher jovem virou-se para a cabine do projecionista para saber o que acontecia ali, mas nada pôde descobrir. Sobravam alguns ruídos dispersos de conversação em voz muito baixa e o barulho de uma porta que batia ao longe. Por um momento, entre o susto e a graça, ela pensou que não poderiam mesmo enxergar nada ali dentro, pois a neblina teria se apoderado também daquele lugar. E nem bem terminou o fantasioso raciocínio quando a função começou e surgiram os primeiros créditos do filme em letra branca, numa filmagem que já parecia mostrar um cenário marítimo. Com o lanterninha, três rapazes atrasados procuravam uma poltrona qualquer nas primeiras filas, constrangidos pela situação.

Descobriram com rapidez algo que nem o cartaz e tampouco os créditos diziam: que a película era toda feita de imagens e sons, sem a presença de narração ou qualquer palavra escrita. Nem por isso deixava de ser conduzida por alguma espécie de enredo, é certo, mas se tratava de uma linha distinta e sutil. Por uma hora e meia, assistiram, em meio a um intenso silêncio, a peixes que nadavam nas cavernas mais fundas do Pacífico, espantaram-se com golfinhos que precisavam desviar de cargueiros em meio a uma longa travessia pelos mares, contemplaram plantas que se fixavam em rochas subaquáticas, algas, cores, fluxos d’água sem interpretação aparente para o espectador que sempre se manteve longe dos oceanos. Mais de uma vez, ela pensou em interromper o silêncio e conversar com ele num balbucio curto, quase indiscernível, para tentar saber qualquer coisa sobre o que havia feito dos últimos dias, mas viu que o companheiro de sessão estava mesmo atrelado ao destino dos seres do mundo abissal. Era preciso esperar que aquilo terminasse, embora fosse complicado saber em que ponto estavam – saíra sem relógio e o filme certamente se encerraria de modo abrupto, sem grandes anúncios de despedida.

Algumas cenas depois, a câmera deixou o fundo do mar e alcançou as águas desde o alto, numa tomada que indicava o fim da história. Os créditos finais apareceram na tela e as luzes dos corredores enfim se acenderam. Os senhores aplaudiram com surpreendente aprovação o que tinham acabado de ver. Aos poucos, todos já estavam no saguão do Cinema, que por sua vez está a poucos passos da rua. Boa parte da noite se passara ali dentro, no fundo do mar. E se antes a cidade já estava quase vazia (e os seus habitantes empenhados em escapar da neblina), por estas horas os caminhos estariam ainda mais desertos. Decidiram sair para a rua outra vez, deixar o Centro e encontrar algum espaço para conversar. Mais do que isso, queriam ver se as nuvens ainda sobrevoavam a cidade com o mesmo afã de antes da sessão.

***

Bastou colocar o pé esquerdo na rua para ter de fechar os olhos. Um vento forte e quente esparramava folhas pelo Calçadão, desarrumava cabelos e roupas, fazia-os recuar. Balançava placas e enlouquecia os cães, e teve força suficiente para afastar a névoa dali – ao longe, ainda se via seu rastro, para além dos montes. Demorou um par de instantes até que pudessem reabrir os olhos, mirar em volta. No céu, a prometida lua grande chegara, e iluminava tudo: podia mais que a luz artificial das luminárias públicas, que os letreiros envelhecidos das lojas de rua. Como que saída do fim do oceano, a lua grande os convidava a caminhar. E então rumaram ao Parque, num caminho quase automático, sem reparar em quase nada do trajeto.

Aquele não era um vento novo, desembarcava na cidade a cada agosto e voltava com certa frequência em outubro e em dezembro. Era raro de ser encontrado nos primeiros meses do ano e permanecia em algum esconderijo da Serra no início do inverno. E quando chegava, demorava para ir embora. Vento de carregar pétalas de flor e pequenas porções de terra, parecia fechado para estudos e naturalizações, porque surpreendia sempre. Mesmo os que viviam na cidade há décadas se mostravam despreparados para a sua chegada; na varanda de uma casa no norte, restava lamentar quando ele chegava espalhando as folhas dos jornais, mudando o humor mesmo das mulheres mais estáveis do lugar. E, tal como a neblina que aparecera horas antes, o vento também tinha o estranho poder de entrar pelas frestas, de não esperar convites. Alguns diziam que desde o seu primeiro sopro a regra do mundo mudava e tudo passava a ser uma questão de casualidade.

Quando chegaram, o Parque já estava com o céu limpo. Num espaço plano de grama, adolescentes tomavam vinho em garrafas de plástico e formavam um círculo. Eram os únicos seres acordados naquela hora; as cigarras já haviam desistido de cantar. Eles se aproximaram em silêncio, sentaram a uma distância em que escutariam as conversas com alguma clareza. No círculo, falavam da névoa de pouco antes, assunto que talvez estivesse em outras rodas, em outras regiões da cidade. Um deles começou a ler um poema improvisado, e antes de recitar os versos esclareceu que havia escrito naquela mesma tarde, enquanto via a Avenida abdicar da cúpula dos seus prédios para o controle das nuvens: ‘estão nublados / os dias os livros o céu / nublado o meu passo / nublada a minha cor / as minhas noites cheias de nuvem / que escondem luzes e catedrais (…)’. Ao lado do Poeta, uma menina disse, olhando diretamente para os dois forasteiros, que em tempos estranhos assim, de cerração e ventania, mesmo os poemas só poderiam seguir as regras do acaso e dos encontros fortuitos.

Publicado na revista o Viés.

Folhas do vento norte (II). Depois do sonho

Posted in Sem categoria by iurimuller on 5 de agosto de 2014

Não foi a primeira vez que acordou durante aquela madrugada, mas sim a interrupção definitiva do sonho. Antes, uma moto de motor barulhento demorou para deixar a esquina do prédio onde morava, ao lado da Ponte Velha. Mas ao fim acelerou e saiu, e assim ela pôde voltar a dormir. Mais tarde (não sabe o quanto), foi a vez de despertar com passos pesados que subiam as escadarias do edifício, talvez no segundo andar. Alguém que voltava tarde demais de uma festa e deixava para trás os filtros do silêncio e da vizinhança. Reacomodou os travesseiros e os lençóis – era verão, fazia um leve calor na rua – e outra vez retomou o sono. Desistiu quase uma hora depois, quando um grupo de pessoas se sentou no meio-fio que fica vinte metros abaixo da sua janela e iniciou uma conversa em voz alta, alegre, como quem acaba a noite e percebe que há o que se festejar. Foi quando resignou-se a acordar e passou a escutar os diálogos que se confundiam com os apitos que o vento trazia de longe.

Com um lamento, sentou-se na cama, ainda emaranhada nas cobertas. A combinação de ressaca e sono fazia com que o despertar, abrupto e levado a cabo ainda antes do amanhecer, fosse confuso, de poucas percepções dentro do quarto. Logo os primeiros rasgos de luz entrariam pela janela, os últimos habitantes da noite (provavelmente aqueles que ocupavam o meio-fio) iriam embora atrás de camas próprias e alheias e os sons então se modificariam. Seriam agora os ruídos de uma cidade que acorda num sábado preguiçoso, e não a que resiste em dormir, e esperneia como pode para persistir na madrugada que cai, numa tentativa que leva inevitavelmente ao fracasso e ao sol. E foi quando os insones deixaram enfim as cercanias do prédio que ela ouviu com maior nitidez os apitos que soavam ao longe: algum trem adentrava a cidade, vazio com os seus vagões, isto é, apenas com o maquinista e um ou dois auxiliares e a carga que transportavam, e não com os tantos passageiros que estariam ali se estivéssemos em outro tempo, mais remoto.

O apito saía do entorno da Estação, ganhava força no ar ao atravessar os descampados que ainda têm lugar na região, perdia parte do ímpeto ao se lançar contra os prédios da Avenida e recobrava a força quando descia na direção do Parque. Eram sete da manhã quando voltou a escutá-lo e então levantou as persianas da janela, cansada de rolar no colchão que não a deixaria mais adormecer naquele dia. A cabeça, ainda tomada pelas nuvens do álcool, se mostrava um pouco mais lúcida – e ao sentir o primeiro copo d’água descer pelo corpo pensou que estava em jejum há cinquenta horas, pois pode perceber o trajeto inteiro dos goles dentro de si. A poucos quilômetros dali, o armazém de paredes laranjas abria as portas na mesma hora em que ela jogava água no rosto e se preparava para que o dia começasse de alguma maneira. O armazém abre tão cedo porque o dono, refém de outras épocas, ainda espera que os clientes tenham pressa para comprar os jornais que lhe contariam, por linhas tortas, o que aconteceu ontem em Porto Alegre, em Roma, quem sabe até em Gaza.

***

Deixou a casa no início da tarde, depois de almoçar o que encontrou no caminho que vai da geladeira ao armário. Logo estava no Parque – área iluminada pelo sol grande daquela hora, ainda vazio, à espera dos caminhantes e das bicicletas, das bolas de futebol e dos cigarros de maconha. Dois funcionários da limpeza resgatavam da grama algumas latas de cerveja e uma garrafa de plástico que, doze horas antes, havia abrigado dois litros de vinho colonial. Percebeu que o sol refletido no rosto revigorava mais do que qualquer remédio para a ressaca. Perto da escadaria que leva ao Hotel, um homem lhe entregou uma folhinha e pediu um punhado de moedas. “Pode ler, moça, é poesia e eu que fiz”. Mais adiante, quase nas quadras de futebol, a sombra dos abacateiros aliviou o calor e a visão. Dali se ergue um alto barranco, verde e embarrado mesmo quando não chove, que termina numa outra avenida. No seu topo, é protegido por uma consistente fileira de plátanos. Trata-se de uma cena que a acompanha através dos anos e que depende sempre do ângulo e da estação: no outono e vista de cima do barranco, a paisagem mostra troncos que mal lembram os plátanos que tinham sido, dilapidados pelo frio e sem as suas folhas; na primavera, visto de baixo, o cenário formado por árvores exuberantes quase que esconde a cidade que cresce ao fundo (e só há espaço para aquelas folhas, maiores do que a palma das suas mãos).

Parada em frente à elevação, contemplou as árvores por vários segundos. E tão logo abdicou de mirar os plátanos, viu que poucos metros à frente andavam duas das presenças da noite anterior. Como ela, pareciam sem rumo. A diferença é que buscaram companhia, e não a solidão, e falavam tão alto e sem constrangimento que escutava uma e outra palavra de onde estava. Preferiu esperar um pouco mais, deixar que se fossem: haviam participado da madrugada e já parecia muito para os personagens em questão. O estranho é que, horas atrás, eles mais pareciam dois seres irreais na neblina, gente que ao atravessar o Túnel a pé, por exemplo, sairia do campo de visão e também do pensamento, para desaparecer por uns tempos e sair sem rastros ou memórias recentes. Entre as árvores, os cachorros e a roda de violão, no entanto, haviam recobrado realidade e por isso a incomodavam tanto. Esperou que tomassem uma trilha distinta e voltou a andar no seu ritmo.

Deixou para trás uma pracinha com brinquedos, um chalé abandonado, dois ou três pequenos grupos de estudantes que tomavam mate, atalhos construídos com britas, um prédio alto que contrastava de imediato com a planura e só então viu o ambiente se transformar, perder traços de centro e ganhar forma de arrabalde. A vegetação, já alta, crescia sem qualquer cuidado e cães soltos perseguiam com grande alarido um Fiat 147 branco que cruzava uma ruela improvisada no espaço baldio. Quero-queros sobrevoavam a área e um dos pássaros pousou em cima de uma placa desgastada pelo tempo e na qual se podia ler: MANUTENÇÃO E CARGA DOS VAGÕES À DIREITA. Quase sem perceber, havia caminhado até a Estação Ferroviária. Viu ao seu lado o prédio central do lugar, como que paralisado pela luz da tarde de sábado, e aparentemente para sempre acorrentado a um tempo morto. Encontrou um degrau e sentou-se no largo que se abre aos fundos da plataforma.

***

Os barulhos ali eram todos difusos: animais correndo no descampado em frente, poucos funcionários nos galpões de trabalho, andarilhos que passavam com rostos curiosos e seguiam sempre em frente; naquela hora, nenhum trem partia ou chegava na cidade. Ela aproveitou o quase-silêncio para olhar em volta e para dentro, e não estranhou que chegassem umas quantas vozes repetidas, de situações que havia lido e histórias que um dia escutou. “Por Santa Maria passavam trens de todos os lugares, trens que atravessavam noites e países, a estação aqui estava sempre cheia”. “E quando alguém chegava de fora, mesmo que fosse de uma cidade relativamente próxima, como Porto Alegre ou Uruguaiana, sempre se depararia com carros na estação à espera dos forasteiros, carros enviados pelos hotéis da Avenida ou por alguma firma”. “Não era preciso viajar para vir até aqui. Tinha quem viesse pelos jornais de fora, pelos restaurantes que funcionavam mesmo durante as madrugadas, pelo café passado que não se encontrava em nenhum outro canto desta cidade… ou para se despedir, nem que fosse de gente estranha, de alguém que nunca tinha visto antes, mas que pôde conhecer ao menos os olhos”.

E então imaginou-se sentada não no degrau disfarçado de mureta, mas num dos bares da estação, quem sabe o que existiria à esquerda de onde estava sentada agora. Via-se num ponto impreciso da noite, com um copo de café em cima da mesa. O salão estaria esvaziado, com uns poucos resistentes sentados e à espera de quem chega de longe. Duas lâmpadas fracas iluminariam apenas o centro do ambiente. O relógio caminharia devagar e quase nada interromperia o marasmo daquele refúgio até que o trem fosse percebido pela primeira vez. Ainda longe, costeando os morros da entrada da cidade, perto das quintas e das modestas plantações. E, rangendo nos trilhos e lançando o apito no ar, cada vez mais próximo, faria com que as criaturas do bar despertassem num mesmo rompante e rumassem para a plataforma. A plataforma que ainda existe, e que agora serve de abrigo para os moradores de rua escaparem da chuva e do vento frio.

Enquanto pensava, o escuro começou a recuperar pedaços do céu com pouca paciência. Ela se levanta e começa a caminhar de volta para casa. Não foi vista por ninguém, nem ao chegar nem ao abandonar o lugar. Poderia até mesmo correr pelo largo, bater nas janelas rachadas ou gritar na plataforma como uma louca, mas ninguém a veria. Se ainda havia alguém no local, estava num ponto distante ou escondido pelos cantos. Não muito longe, em cima de uma ponte que se ergue sobre vagões abandonados, alguém (uma sombra, não mais que uma silhueta) observa os trilhos que se bifurcam ao longe e espera por algum apito que anuncie o fim da tarde ou a chegada de uma serpente cansada num bairro quase esquecido da cidade.

Publicado na revista o Viés.

Folhas do vento norte (I). Ônibus noturno

Posted in Sem categoria by iurimuller on 5 de agosto de 2014

A Avenida está quase vazia. É sábado, dia de aulas esparsas e pouca gente na Universidade e nos arredores. Passou a tarde em meio a reuniões estranhas, mas agora só quer saber de voltar para casa. O companheiro a acompanha por um trecho de concreto e algum tempo, só que também ele precisa retornar, ainda que seja para a direção oposta. E então se fez noite, e onde estava seria tomada pelo breu. Os postes de rua não alcançavam aquele ponto de espera, se esgotavam com a sua luz fraca ao longe. Vai até a pista, mira os dois caminhos, as faixas: nem sinal de qualquer ônibus nesta direção.

O frio aperta, a noite aumenta. Decide caminhar até a próxima parada, mais longe do campus, mas na qual enxerga alguma presença. Três homens esperam ao lado de um casal que se abraça. Um deles parece inquieto, cheio de pressa para voltar ao Centro de uma vez. Alguma festa para começar dentro de poucas horas, quem sabe. Ele sugere, barulhento, que adentrem o bairro e encontrem algum táxi. Em três ou quatro, disse, a corrida vai sair por pouco dinheiro. Talvez o aspecto e a ânsia dos gestos tenham assustado os demais. Ninguém aceitou a proposta, e tampouco deram espaço para mais conversa. Logo o homem ansioso estava caminhando pela Avenida, com o passo contrariado e se escondendo do frio entre os casacos.

A espera, é certo, gera as suas desistências: o casal, depois de consultar o relógio repetidamente, cansa de esperar o ônibus amarelo que em algum momento vai irromper no escuro e segue em direção à Casa do Estudante. Agora são poucos os que permanecem ali.

***

Ela caminha evitando as poças que surgiram com a chuva daquela manhã. Ao seu lado, percebeu quase sem querer alguém parecido com quem era há quatro ou cinco anos. O cenário, afinal, também era o mesmo. Na medida em que deixavam a Avenida quase deserta, viam aparecer, mal iluminadas, as pequenas pontes que vencem o córrego e o barranco, e ligam aquela via às ruelas do bairro. Nas manhãs dos dias de semana, por ali passam estudantes com mochilas nas costas, com sono no rosto e alguma ideia imprecisa de como será o dia. Essas pontezinhas desaguam por vezes em pensões – casas de dois pisos e vários quartos, que abrigam gente de tão distintos lados debaixo do mesmo teto.

Não lamenta mais a demora, ao menos encontrou companhia. Passam por uma, duas quadras, e se colocam em frente a mais uma parada: agora estão no caminho de outras linhas, em algum instante o ônibus há de aparecer. Não é tarde, passa pouco das nove. Nos apartamentos do Centro, a função recém deve estar por começar. Em pé num terraço da Rua Dr. Bozano, um rapaz toma vinho e, sozinho, mira o céu: mais um pouco e pensa que a chuva deve voltar. Pouco vê da cidade ao seu redor, os prédios de cor cinza se perdem todos no crepúsculo.

Longe dali, os que caminham trocam perguntas, mas não saem do superficial. Ela descobre que o que anda ao seu lado na noite sem lua está sozinho, a família ficou no interior (aqui também estão no interior, mas falamos assim sobre os que vêm do fundo), os amigos ainda estão por vir. Estava, pouco antes, com dois colegas no campus, mas não vive por lá: divide um apartamento, “antigo, espaçoso, mas com o piso a ponto de afundar”, na Rua General Neto. Nas manhãs livres, caminha a esmo, às vezes por horas, e sempre acaba o percurso numa das galerias do Centro, aquelas onde os velhos tomam café sem se sentar.

***

À noite, os trajetos repetidos de sempre parecem outros. É como se os lugares fossem diferentes, e esta uma nova cidade. Agora, onde havia trânsito e espera há um ônibus que corre e passa pelos terrenos baldios. Eles estavam sentados nos últimos lugares, em que os bancos são mais altos, e a janela escancarava um vento frio. Vento de limpar o rosto e sacudir um pouco a vida. Viam poucas mesas na calçada, um supermercado às escuras, televisões ligadas em cômodos enegrecidos, gente que caminhava por ruas secundárias que, ao longe, se continuassem uma caminhada improvável, encontrariam o pé dos morros.

O ônibus mal precisava frear, seguia sem paradas até se aproximar do Centro. Separados por poucos bancos, estavam homens mais velhos que retornavam de uma demorada jornada de trabalho, mulheres com crianças de colo, gente à espera de um trago e três ou quatro pessoas que pouco sabiam sobre os motivos que as levaram a esperar tanto tempo por aquele ônibus, a pagar uma passagem cara e fazer este trajeto de vinte e poucos minutos até a Rua Riachuelo. Sequer sabiam para onde dar o primeiro passo depois que descessem dali, mas a questão é que tinha se tornado impossível continuar onde estavam.

Já na rua, o vento parece ganhar força com a descida do asfalto e espalha um frio intenso. Dentro do ônibus estava um pouco melhor. Ela avisa que a sua casa fica a alguns minutos dali, pouco depois de passar a Rio Branco. Mas que pode caminhar por mais tempo, não tem compromisso algum e a semana, afinal, já havia acabado. Ele comenta que há tempos vê as semanas passarem sem maiores acontecimentos, e que caminhar pela cidade, apesar do vento, pode ser bom para a cabeça. ‘Eu preciso estar na rua para que algo me aconteça’, imagino que tenha tido vontade de dizer.

Publicado na revista o Viés.

Tagged with: , ,

Vento e literatura

Posted in Sem categoria by iurimuller on 7 de julho de 2014

Método para ilusões narrativas: andar de bicicleta por aproximadamente uma hora pelas bordas do Parque da Redenção — com o pedalar, aparecerão rostos, cenas, quem sabe até um personagem. A cidade que se espalha ao redor também interessa. As imagens vão surgir e evaporar, para voltar e desaparecer de novo, não há outra maneira. Mas é preciso largar a bicicleta nalgum lugar quando o cansaço dar sinais de aperto, ou todas as cores afundarão de vez. De volta para casa, a ideia é escrever num caderno as situações que permanecerem. Depois, parece bom esperar por alguns dias. Quando retomar o texto, um conto pode surgir de imediato ou ficar aguardando por mais semanas, meses, e talvez para sempre. De qualquer maneira, o parque estará ali ao lado para se tentar de novo.

Ruas de maio

Posted in Crônica by iurimuller on 17 de maio de 2014

Saio de casa vestindo a camiseta, pouco depois das duas da tarde. Faz sol e o outono naquela hora abre mão do vento frio. As ruas estão quase vazias, como acontece normalmente aos domingos. Muitos ainda estão nos churrascos neste horário, e dá para sentir o cheiro da carne desde as calçadas. É assim nas casas do Centro e nos bairros que se erguem na medida em que se caminha pela Avenida. Mas eu ando devagar, com as mãos no bolso do casaco de lã. Primeiro pela Pantaleão, logo na Henrique Dias. Dali, já enxergo as costas da Catedral, que se apresenta neste estranho ângulo aos fundos do beco do Atlético. Então escolho a André Marques até a Vale Machado, a rua em que por quatro anos eu aguardava o ônibus, mas nos finais de semana ela mais parece uma passagem desabitada. De qualquer maneira, é por ali que eu alcanço a Avenida. Na primeira quadra, o único ruído é de uma igreja que celebra, sem cessar, cultos durante o dia todo. Mais adiante, algumas motos de entrega saem das pequenas garagens, ainda que seus motoristas pareçam anestesiados pelo sono ou pela ressaca. Vejo o supermercado, fechado, o antiquário, fechado, dois ou três açougues que já se preparam para também eles fecharem outra vez as grades da entrada. Quem havia optado pelo churrasco já tinha comprado carne, de nada adianta permanecer em pé atrás do balcão depois das duas. Desço a Avenida não pelo canteiro central, onde os bancos estão vazios, mas pela calçada da margem direita. Há alguns anos, os camelôs montavam dezenas de tendas por ali, e disso não há nem sinal. Do outro lado da via, há, penso que ainda exista, um café que abre milagrosamente aos domingos, e era um refúgio repetido, mas necessário, quando eu vivia nesta cidade. Vejo que ainda está, esta sim, a loja que vende pássaros e espalha gaiolas pela calçada. Quando venço a segunda quadra, uma moto diminui a velocidade e o motoqueiro me pergunta onde fica o estádio, sem tirar o capacete. É o perigo de partidas assim, eu penso, gente que nunca foi a um jogo e agora que chega a fase boa resolve aparecer. Mas informo corretamente, indico onde deve começar a Rua Sete e o caminho que se deve fazer até a cancha. É errado culpar os torcedores de ocasião pelas derrotas, eu sei, mas ainda assim vejo como uma circunstância de azar. Com estádio cheio, as coisas não costumam dar tão certo. A mesma cena se repete na altura do Hotel Samara, onde se hospeda o livreiro argentino de quem eu já devo ter comprado uns cinquenta e cinco livros. Mas o segundo torcedor pelo menos vestia a mesma camiseta que eu, de modo que deve ter se preparado melhor para a partida. Quase pedi uma carona, mas o dia estava feito para as caminhadas, quem sabe até a esmo, por aí. Em outros anos, os domingos eram de largos e demorados percursos a pé. Minhas companhias sempre estiveram um pouco longe do Centro, e eu inevitavelmente ao lado do Parque. Ao longo do tempo, decorei cada padaria ou armazém que abriu, fechou e deu lugar a qualquer outra coisa no trecho que começa na Astrogildo e termina lá perto dos quartéis da Borges de Medeiros. É um percurso bonito: se passa pelo Calçadão, pela Praça dos Bombeiros, a esquina com a Visconde de Pelotas, e então me falta pouco. Mas agora eu estou caminhando para outro lado, já me vejo pisando os trilhos ao lado da Estação, e lembro que nesta madrugada ouvi um trem que chegava ou que partia, e que me acordou por alguns instantes. Na Rua Sete, percebo alguma movimentação, ainda que tenha saído cedo demais de casa. Algumas camisetas, alguns carros a mais na rua estreita, a rua que antes já foi a terceira ou a quarta mais importante da cidade, e hoje ela importa quase que só para os habitantes desta região. Na rádio, alguém comenta algo sobre ingressos esgotados, mas eu sei que é mentira. A duas quadras do estádio, compro o meu por dez reais. O portão de ferro está aberto e muita gente já enfrenta as britas e adentra o pátio. Chego sozinho, por lá devo encontrar algum amigo ou conhecido, e depois chegará o meu pai. Falta ainda uma hora para o jogo, que eu vejo passar em um par de conversas, no contorno quase sem pensar que faço por todo o limite das arquibancadas. E logo já está tudo no lugar, todos aí, duas mil pessoas num dia de céu azul e de um sol que não nos queima, só nos beija, e as coisas começam bem para logo se desmoronarem em poucos minutos. Fizemos o primeiro, levamos dois, arrastamos o resto do jogo para levar a função para a marca do pênalti. O nosso craque, camisa dez nas costas, anos e anos de Segunda Divisão e de uma magia ignorada pelos que não conhecem estas canchas, pega a bola primeiro e com ela arrasta as redes para trás. Saímos na frente, mas outra vez eles não se intimidam e então não perdoam o nosso erro. Ganham, levam as chances para lá, colocam o estádio outra vez em silêncio. Ninguém arrisca uma vaia, ainda bem. Subitamente mudos, saímos pelo mesmo portão para fazer o caminho inverso, de volta para casa. Desta vez, vou embora de carro. No rádio, o técnico ou o presidente agradece aos que lá estiveram, valoriza o empenho dos jogadores, recorda as dificuldades financeiras e aponta que o próximo ano pode ser diferente. Para mim não é uma conversa nova, mas eu sempre acredito. Algumas luzes da rua se acendem, o céu começa a escurecer. Já há quem busque por diversão barata na Avenida e quem caminhe sem rumo, indiferente às decepções do futebol subterrâneo e do ocaso e do outono.

Cinco poemas de Roberto Bolaño

Posted in Sem categoria by iurimuller on 5 de maio de 2014

(em tradução livre)

1.

Dentro de mil anos não ficará nada
do que foi escrito neste século.
Serão lidas frases soltas, impressões
de mulheres perdidas,
fragmentos de crianças imóveis,
teus olhos lentos e verdes
simplesmente não existirão.
Será como a Antologia Grega,
ainda mais distante,
como uma praia no inverno,
para outro assombro e outra indiferença.

2. As perucas de Barcelona

Só quero escrever sobre as mulheres
das pensões do Distrito 5°
de uma maneira real e amável e honesta
para que quando minha mãe me leia
diga assim é a realidade
e eu possa rir enfim
e abrir as janelas
e deixar entrar as perucas
as cores.

3. Poeta chinês em Barcelona

Um poeta chinês pensa ao redor
de uma palavra sem chegar a tocá-la
sem chegar a olhá-la, sem
chegar a representá-la.
Atrás do poeta há montanhas
amarelas e secas varridas pelo
vento,
chuvas ocasionais,
restaurantes baratos,
nuvens brancas que se fragmentam.

4. Teu coração distante

Não me sinto seguro
Em nenhuma parte.
A aventura não termina.
Teus olhos briham em todos os lugares.
Não me sinto seguro
Nas palavras
Nem no dinheiro
Nem nos espelhos.
A aventura não termina jamais
E teus olhos me buscam.

5.

Agora passeias sozinho pelo porto
de Barcelona.
Fumas um cigarro negro e por
um momento achas que seria bom
que chovesse.
Dinheiro não te concedem os deuses
mas sim caprichos estranhos:
Olha para cima:
está chovendo.

Avellaneda

Posted in Sem categoria by iurimuller on 1 de maio de 2014

I.

Martín atravessava os campos abertos da Província de Buenos Aires a bordo do trem. Pela janela de um dos vagões da Linha General Roca, via, ao sul da Capital, um subúrbio em constante crescimento. Ainda existiam as chácaras, os pátios que ostentavam flores e goiabas, os longos terrenos abandonados ou à espera de construções. Mas naqueles anos, nos poucos quilômetros que separam Avellaneda de Buenos Aires, já era possível sentir a fumaça das fábricas, consequência imponente da década anterior. Na bagagem, ele levava pouco ou nada: alguma roupa, uma insignificante quantia em pesos e as chuteiras pretas de sempre.

Tinha pouco menos de vinte anos e, até ali, não contava com nenhuma experiência séria no futebol. Havia jogado desde a infância na sua província natal, aquela terra quente do norte, sem contratos ou esperanças. Na adolescência, vestiu camisetas de cores estranhas e descobriu cantos da cidade que jamais conheceria se não fosse o campeonato amador. Deixou gols em redes suburbanas e centrais, estalou traves em campos burgueses e miseráveis. Foi quando completou vinte anos que José, que dizia conhecer todos os homens importantes do norte argentino, alertou para as salvações do sul, para a grife do futebol de Buenos Aires, cidade que abrigaria os melhores quadros daquela época.

Algo Martín percebia pelas ondas do rádio. Que os locutores gritavam com maior entusiasmo os gols de Boca Juniors, River Plate e Independiente do que os de Racing e San Lorenzo, por exemplo. Que o Huracán parecia perder sempre, e que o Platense era um clube tão minúsculo quanto corajoso. Que, cada vez mais, os estádios enchiam, os clubes contratavam, o esporte crescia. Às vezes, jogava na frente de casa com o aparelho ligado em tardes de jornada esportiva. O som do rádio e a imaginação flutuante faziam com que as duas partidas – a sua, no barro, sem indicações de linhas na grama e com companheiros improvisados e a deles, transmitida para todo o país e já profissional – se mesclassem em horas oníricas.

No final de um desses domingos, José (parte do corpo encostado no balcão do bar, o copo de cerveja nunca vazio, a frase definitiva, jamais frouxa) comunicou a sério: vais ter que viajar, mostrar teu jogo em Buenos Aires, em Avellaneda, quem sabe em Lanús. Vais ter que descer a Buenos Aires para não cair pobre nesta terra de ninguém. Martín não se lembraria das palavras exatas de Don José, mas sim da cerimônia ao falar, da seriedade com que fez do boteco um recanto de silêncio formal que apenas ele poderia romper: hoje, na Argentina, há quem apenas jogue futebol e não precise de mais nada. No Racing, ninguém precisa mais trabalhar nas fábricas ou nos matadouros. Imagine você como deve ser no River, flaco.

Dias depois, sabe-se lá após quantas discussões familiares, embarcou num trem rumo a Buenos Aires. Disse aos amigos que voltaria, que era um teste para mostrar a alguns olheiros a naturalidade com que cabeceava sem fechar os olhos e o desarme exato que salvara tantos gols nos potreiros do interior. Em Buenos Aires, onde já havia estado, mas da qual não lembrava quase nada, ficou apenas algumas horas. Caminhou pelas ruas do centro e se imaginou vivendo num prédio muito alto, quem sabe na Avenida Corrientes, que tanto encantava a sua mãe; ou mesmo numa casinha austera da Balvanera, bairro em que poderia preservar os seus hábitos mais provincianos. O relógio preso ao pulso não permitiu que seguisse sonhando. Era preciso buscar a Estação de Constitución, de onde sairia o seu trem para Avellaneda.

 II.

Martín contemplava a Avenida Mitre, tão vazia aos domingos, através da vidraça de um café de esquina. Estava há meses em Avellaneda e já era conhecido nas ruas como o cumpridor quarto zagueiro do Independiente, ainda reserva, é certo, mas que havia entrado bem contra o Ferro Carril Oeste e o Chacarita Juniors, e falhado justamente no clássico que disputou em La Boca. Ganhava bem, treinava todos os dias ao lado de Ricardo Bochini e Daniel Saralegui, vivia perto do estádio e duas vezes por semana viajava a Buenos Aires para caminhadas sem rumo. Quase todos os meses telefonava para casa, mas antes de cada conversa encaminhava duas ou três cartas em que relatava a rotina da nova vida.

Eram tempos de felicidade e de estranhamento. Era jovem, vestia a camiseta de um dos maiores clubes do continente, poderia ser titular em quatro ou cinco times da primeira divisão que já tinham inclusive acenado com propostas. Mas sentia-se estranho por pensar que, de alguma maneira, chegara tarde demais a Buenos Aires. Nos jornais e nas ruas, discutia-se pela primeira vez mais sobre política do que sobre futebol. Tudo porque os militares haviam deposto Isabelita Perón da presidência em mais um golpe de Estado daquele século. No Independiente, alguns jogadores se mostravam preocupados e se comentava que o campeonato poderia parar.

Avellaneda, cidade de fábricas e de indústrias, de trabalhadores e de sindicatos, agora tinha em cada um dos seus bairros um enorme efetivo militar. Havia denúncias de que as prisões aumentaram, de que peronistas tiveram que deixar o emprego para trás e escapar para o interior com toda a família. Num final de manhã, pouco depois de tomar o último mate em casa, Martín passava pela Rua Libertador quando sentiu uma movimentação estranha no sobrado mais próximo. Ouviu uma porta bater e um grito ser sufocado. Pouco depois, dois jovens foram arrastados para um camburão por mais de dez oficiais, ainda antes do meio-dia, a poucas quantas do centro.

Nos treinos do Independiente, o assunto era tratado de forma evasiva. Havia quem desconhecesse por completo a situação política, sem saber o que havia ocorrido para que a viúva de Perón não frequentasse mais os salões da Casa Rosada. Outros sabiam tanto quanto Martín: que havia gente nervosa na Grande Buenos Aires, que alguns jornais publicavam reportagens pesadas, que os militares apareciam a todo instante nas rádios da capital e que alguns países europeus ameaçavam romper acordos políticos e comerciais com a Argentina. E havia Facundo, que desde que o dia do golpe estava ausente dos treinamentos e, quando apareceu, não falou com quase ninguém. O goleiro, diziam, poderia ser transferido para o futebol de Córdoba.

Martín conversou com Facundo no início da tarde de uma sexta-feira. Era abril, ventava, o sol parecia apenas cobrir o verde do gramado, sem agredir os olhos dos jogadores ou aquecer demais. Não eram exatamente amigos; compartilhavam, no entanto, de um dos espaços mais solidários possíveis: o banco de reservas de um estádio de futebol. O diálogo feito às pressas enquanto corriam ao redor do campo não serviu para grandes revelações. Facundo disse que poderia estar mesmo de saída, mas que isso nada tinha a ver com o campeonato do Independiente (apenas razoável, preenchido com boas atuações em casa e derrotas na condição de visitante, o empate no clássico com o Racing e o desastre em La Boca), mas que a despedida era motivada pelo país. “O país”, dizia Facundo, que parecia melancólico e misterioso demais para um goleiro reserva na Argentina.

III.

Facundo retirou todos os seus pertences do vestiário em poucos minutos. Agarrava as luvas e camisetas e as jogava com nítida pressa dentro de uma mala grande, na qual se deixavam observar outros objetos: documentos, livros, maços de dinheiro e mantas para o frio. Eram, mais do que nada, indícios de quem partiria para longe. Aquele boato do empréstimo para o Talleres de Córdoba finalmente deixava de fazer sentido. É certo que lá fazia mais frio do que na Província de Buenos Aires, mas não o suficiente para um jogador de futebol levar gorros ao estilo suíço. No rosto de Facundo, mais do que a pressa estava estampada a angústia, condição suficiente para que ninguém dirigisse a palavra a ele mesmo quando no vestiário descansavam cinco ou seis atletas.

Antes de atravessar a rua em direção a Avenida Mitre, Facundo avistou Martín, que caminhava na sua direção. Talvez o arqueiro esperasse mais um adeus singelo, sem abraços apertados e perguntas indiscretas. Martín, no entanto, permaneceu em frente ao colega e não precisou questionar nada. Via que algo estava fora do lugar naquela cena: ele deixando a sede com os pés ligeiros e uma mala nos ombros, o olhar entre amedrontado e nervoso, um par de desculpas na ponta da língua. Firmou os olhos nos seus. Pela primeira vez, Facundo foi sincero com alguém do clube.

Há semanas, disse, que tinha a casa rodeada por carros estranhos, que o telefone tocava e ninguém resmungava palavra alguma do outro lado da linha. Teve notícias de que um companheiro do partido (sim, militava com os peronistas da cidade há algum tempo) havia sido preso e possivelmente torturado; de modo que poderia delatar alguém, soltar endereços, nomes, números, senhas, mapas enquanto era violentado em algum galpão clandestino desta província que tinha se transformado em uma verdadeira zona de desgraças. Esparramou as frases como num pranto, e logo disse que precisava ir. Estava a caminho de Ezeiza, o povoado do aeroporto, e para tanto buscaria um trem em Constitución. No caminho, precisava passar em Buenos Aires para deixar uma carta e um bilhete num local seguro.

Desde então, Martín não teve mais notícias de Facundo. No outro dia, os jogadores do Independiente se reuniram no centro do gramado antes do treinamento. O técnico parecia ter muito a dizer, mas nada era relativo ao futebol. Antonio Villar, há duas décadas nas casamatas do futebol argentino, disse que nunca havia passado por nada parecido. Que esquecessem o tal Facundo, falou, que se concentrassem na próxima partida, na viagem a Santa Fé, nas armadilhas desta tabela meticulosamente organizada por estes torcedores do Boca Juniors que ocupam todas as cadeiras da federação. A orientação de Villar era quase uma súplica. Ele temia que o Exército, com ações cada vez mais disparatadas naquelas semanas de abril, pusesse os olhos até no campo do Independiente.

Os meses passaram e o clube não pôde superar o sexto lugar no campeonato da primeira divisão. Ao mesmo tempo em que se jogava futebol semana a semana, uma leva invisível de homens e mulheres deixava o país rumo a Estocolmo, a Porto Alegre e ao Rio de Janeiro por estradas noturnas ou nos aviões, sempre com disfarces desesperados, com documentos falsos e uma forte agonia no peito. Martín soube da história de alguns exilados antes de se tornar ele mesmo um deles, mesmo que de forma espontânea. Após uma boa pré-temporada em Mar del Plata, acertou com o novo empresário um passe para o futebol espanhol. Viveria perto de Barcelona, muito longe de Avellaneda.

 IV.

Martín viajou pela Espanha, visitou praias estranhas, encerrou a carreira como capitão do Osasuña e ganhou certo dinheiro. Conheceu o leste europeu e casou-se por lá com Marina. Ela tinha, como ele, os cabelos negros, o corpo moreno e os traços fortes cortando o rosto. Bem poderia ter nascido no norte argentino, mas era peruana – como ele, havia desembarcado na Europa por acaso. Martín assistiu à ditadura do outro lado do oceano. Na sua família, todos se mantiveram ilesos, com a exceção de um primo que, por borracho e brigão, desafiou um soldado num bar e acabou preso por dois meses. Os demais não se envolveram em nada e provavelmente sabiam tanto quanto ele, com a diferença de que estava a milhares de quilômetros da Argentina.

 

Não foi difícil encontrar notícias, de qualquer maneira. Os jornais franceses, distribuídos com pompa nas bancas de revista de todo o continente, noticiavam mais do que quaisquer outros a violação aos direitos humanos na América Latina. Desde Paris, opinavam que os militares argentinos eram mais sádicos do que os paraguaios, mais violentos do que os brasileiros, mais desafiadores do que os uruguaios e tão terríveis quanto os chilenos. De longe, pensou ele enquanto lia o Le Monde, é fácil comparar a tortura no terceiro mundo – no mesmo momento em que fechou o jornal e se viu tão distante da Argentina quanto o triste articulista.

Trinta anos depois, entrou num avião em Madrid e aterrissou no Aeroparque. Desceu em Buenos Aires após a primeira crise dos anos 2000, tempo em que duas a cada três lojas fecharam e no qual um a cada dois argentinos perdeu metade do que tinha no banco. Martín voltou numa época de reconstrução e reconciliação, tempo de levantar as casas, de salvar as fábricas, de reorganizar a política e desafiar a ditadura. A ditadura que, mesmo após ter entregado as armas, parecia ainda viva num canto da sala, visível e intocável, salvaguardada por uns quantos nostálgicos de má fé. Definitivamente, eram outros tempos. Avellaneda sofria com congestionamentos no trânsito, os trens eram precários, o Independiente jogava a segunda divisão e, em, Buenos Aires era inaugurada mais uma exposição sobre a resistência armada aos anos de chumbo.

As telas e os paineis tomavam conta de uma praça de Núñez, no norte da Capital. Era organizada por uma das tantas associações de familiares de vítimas da repressão que surgiram com a democracia. No caso desta, a narrativa era personificada. Cerca de vinte militantes, de diferentes organizações, partidos proscritos e seus braços armados, apareciam retratados numa foto em preto e branco e em poucas linhas biográficas. A distinção de outras honras semelhantes se dava por conta do enquadramento; havia se optado por relatar a trajetória de anônimos da resistência, e não dos mártires reconhecidos. Eram operários das fábricas, policiais rebeldes, estudantes universitários do interior. E, ao lado de um álamo, quase na última curva da praça, Martín pôde ver um rosto conhecido que havia ficado para trás durante as últimas três décadas. Ao lado da foto, leu:

“Facundo Saavedra, 24 anos, goleiro. Jogou no Club Atlético Independiente e no Club Almagro. Em cinco anos, entrou em campo cerca de trinta vezes pela primeira divisão. Militou no Partido Comunista e logo passou às fileiras da guerrilha peronista de Avellaneda, na qual atuou até 1977. Foi morto em plena Estação de Constitución, enquanto esperava o trem na plataforma destinada a Ezeiza. Seu destino deveria ser o exílio. Na foto ao lado, Facundo aparece entre Martín Guzmán (à esquerda, na época zagueiro do Club Atlético Independiente) e Juan Manuel Benítez (à direita, antigo meio-campista e também companheiro de equipe)”.