Calle Soriano

Adrogué

Posted in Crônica by iurimuller on 5 de fevereiro de 2014

calle_esteban_adrogue“Chegamos antes do almoço, lá para as onze e meia. Minha namorada mora a três quarteirões da estação. Numa dessas casas velhas e quadradas, com um grande quintal e um portão de ferro. O senhor não conhece Adrogué?” (Ricardo Piglia, ‘Mi amigo’)

No início dos anos 1970, o escritor argentino Ricardo Piglia, hoje talvez o mais talentoso entre os que permanecem em atividade, entrevistou Rodolfo Walsh, seu colega de ofício. Piglia questionou Walsh sobre a literatura e a política. O diálogo, reproduzido em poucas páginas, foi publicado numa das edições em português em que aparecem os contos de Walsh. É um documento indiscutivelmente interessante para entender a obra de Rodolfo Walsh, para quem, à época, “as coisas estavam começando a se definir”, como escreveu o entrevistador.

Em agosto de 2012, eu estava em Buenos Aires, atrás dos rastros que Rodolfo Walsh e os seus livros haviam deixado pela cidade. As primeiras entrevistas foram agendadas para os primeiros dias de viagem, de modo que logo me vi com algum tempo livre para organizar o material que já tinha e pensar nas próximas arestas daquele trabalho. Naquele final de inverno, choveu como há tempos não acontecia na Província de Buenos Aires, o que resultou em alagamentos e em grande dificuldade de locomoção. Mas, num fim de semana, a Capital Federal despertou debaixo de um grande sol. O tempo havia mudado, e o céu azul era convidativo para explorar aquelas terras.

Quase sem querer, olhei a tabela do campeonato de futebol. Pela primeira divisão, encontrei apenas a chamada para jogos distantes, a maior parte deles em territórios inviáveis. Pela Nacional B, o cenário era igualmente árido. Tive de descer à terceira divisão metropolitana, certame em que se acotovelam dezenas de clubes tradicionais de cidades próximas, para encontrar a partida imaginada. Em Adrogué, a nona estação de trem ao sul de Constitución, jogavam o Club Atlético Brown, local, e o Club Almagro, que atualmente manda os seus jogos em Tres de Febrero. No domingo, comprei o bilhete e me dirigi para um daqueles pueblos provincianos.

Mais do que a facilidade de se chegar ao local da partida ou a experiência de conhecer outra cidade, talvez tenha imaginado que aquela seria uma possibilidade de conhecer, por casualidade, o escritor Ricardo Piglia, natural de Adrogué. Eu sabia que Piglia vivera por anos nos Estados Unidos, país em que lecionou Literatura – e que há pouco retornara à Argentina, não sei se a Buenos Aires ou para a sua cidade natal. Desci do trem em Adrogué pouco antes do meio-dia, já com a fome que me levaria ao almoço. Num restaurante ao lado da própria estação, comi um pedaço de frango com arroz e batatas. Logo após terminar o café preto, servido num copo de vidro, perguntei a um homem que conversava com os garçons e parecia conhecer a todos por ali:

– Sabes se Ricardo Piglia hoje vive em Adrogué?

– Piglia, o escritor?, respondeu. Sei que nasceu aqui, e me disseram que alguns dos seus livros falam da cidade. Mas nunca o vi. Penso, inclusive, que mora no estrangeiro há muito tempo.

Em seguida, pôde me explicar com clareza como eu encontrava o estádio do Brown. Antes de se despedir, questionou, não sem deboche, se eu estava atrás de escritores ou de clubes de futebol. Ainda faltavam duas horas para o início da partida. Caminhei sem pressa por ruas cercadas por árvores nos seus dois lados, vi velhas casas protegidas por portões de ferro. Dentro de campo, o Almagro venceu por 2-0 como visitante, mas o campeonato mal havia começado. Por coincidência, os dois clubes se reencontrariam meses depois, na disputa por uma das vagas do acesso. Em Adrogué, o Brown venceu nos pênaltis e subiu para a Nacional B, divisão em que milita hoje. Mas então eu já havia terminado os escritos sobre Walsh, mesmo sem o depoimento de Ricardo Piglia.