Calle Soriano

“Afirma Pereira”, Antonio Tabucchi

Posted in Literatura by iurimuller on 13 de fevereiro de 2014
Tabucchi pela Cosac Naify: "Afirma Pereira", "Noturno indiano", "O tempo envelhece depressa".

Tabucchi pela Cosac Naify: “Afirma Pereira”, “Noturno indiano”, “O tempo envelhece depressa”.

O Dr. Pereira, depois de atuar por trinta anos como repórter policial num grande jornal de Lisboa, passou a dirigir a página cultural de um modesto vespertino que leva o nome da capital portuguesa. Desde então, trabalhou sozinho numa pequena sala da Rua Rodrigo da Fonseca e manteve hábitos aprisionados: a passagem diária pelo Café Orquídea, onde bebia limonadas e comia omeletes, a conversa em voz alta com o retrato da sua mulher, já morta, e a tradução de contos franceses do século XIX para o suplemento de sábado de Lisboa. E poderia ter sido assim para sempre se o Dr. Pereira não vivesse na Europa do final dos anos 1930, ou se não tivesse conhecido o jovem Monteiro Rossi.

Quando Antonio Tabucchi morreu em 2012, o diário Público escreveu: “falece o escritor italiano que escolheu Portugal para viver”. E a narrativa de “Afirma Pereira” mostra que a frase não foi um impulso patriótico do jornal lusitano; Tabucchi ambienta uma Lisboa muito viva e descreve o cenário histórico do continente, em que Portugal padece nas mãos do ditador Salazar, a vizinha Espanha se vê em guerra civil e a Segunda Guerra Mundial já é uma nuvem que se aproxima com perigo da Europa.

Ao longo da novela, os fatos políticos, o alastramento do fascismo no período e o encontro quase casual com os jovens Monteiro Rossi e Marta, envolvidos com a causa republicana na Espanha, fazem com que a vida e a rotina de Pereira se transformem bruscamente – a ponto do jornalista católico se descobrir corajoso e sonhador depois dos cinquenta anos.

Na nota que abre o livro, Tabucchi conta que “Afirma Pereira” passou a ser pensado quase que por acaso em agosto de 1992, quando o escritor encontrou no jornal a notícia de um falecimento: um veterano jornalista português, que o autor chegara a conhecer em Paris, tempos antes, estava sendo velado em Lisboa. “Era um homem que exercera sua profissão de jornalista por volta de 1945, em Portugal, sob a ditadura de Salazar, e que conseguira pregar uma peça na ditadura salazarista, publicando num jornal português um artigo feroz contra o regime. Depois, naturalmente, passou a ter sérios problemas com a polícia e teve que escolher o caminho do exílio”.

Ainda no texto introdutório, o italiano conta que um personagem então se apresentava, à procura de um narrador que levasse à escritura a sua história. “Na hora não soube o que lhe dizer e, no entanto, compreendi confusamente que aquele vago semblante que se apresentava com o aspecto de um personagem literário era símbolo e metáfora: de algum modo, era a transposição fantasmática do velho jornalista a quem eu fora levar a última saudação”. E o Dr. Pereira, com as suas repetições diárias (que Tabucchi submete à linguagem, sem dificultar o ritmo da prosa), tem força e graça, e sua construção é tão importante quanto o próprio enredo.

“Afirma Pereira” é um relato sobre a necessidade de se ter coragem em tempos sombrios; é uma enorme reflexão sobre a função social da arte e da literatura, sem que isso beire, em instante algum, o viés panfletário. Mesmo após o término da leitura, permanecem na imaginação os cafés de Lisboa e a carta desafiadora que o Dr. Pereira teve, ao fim, o ímpeto de escrever.

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