Calle Soriano

O ato de Porto Alegre em cinco cenas e cinco fotos

Posted in Jornalismo, Política by iurimuller on 18 de junho de 2013

Por Ramiro Furquim/Sul211. A Avenida João Pessoa foi o melhor cenário para que a multidão se esparramasse com todo o seu tamanho: diversas quadras foram tomadas pelos mais de dez mil manifestantes que, ajudados pelo relevo da avenida, conseguiam enxergar os pontos inicial e final da larga marcha. Nas janelas próximas à UFRGS, bandeiras e toalhas brancas saudavam os caminhantes. Num dos prédios, cinco sacadas estavam tomadas por apoiadores. Foi o momento mais bonito de toda a noite – mesmo para os que não são mais jovens e já presenciaram atos em outras décadas ruidosas.

Por Ramiro Furquim/Sul21

2. Passava das onze horas da noite. A manifestação já havia se fragmentado em três ou quatro partes, bem como a operação policial, empenhada na tarefa de se aproximar dos que ainda marchavam. Um grupo de manifestantes atravessava o viaduto da Avenida Borges de Medeiros – dezenas por baixo, outros subindo as escadarias. Na Duque de Caxias, a travessia alta deste ponto, ouviu-se um grande ruído e muitos tentaram se esconder na entrada de prédios próximos. Era a cavalaria da Brigada Militar que passava a galope, com sabres em punho. Parecia uma imagem de outro tempo e de outro espaço.

Por Ramiro Furquim/Sul21

3. Já havia acontecido em outros protestos, mas ontem talvez o contraste tenha sido mais visível. Enquanto os militantes de partidos políticos pautam pela realização de discussões em meio aos atos e por uma postura organizada, a maior parte rejeita as bandeiras e a cautela. Hoje, em Porto Alegre, faixas sem menções a legendas políticas e até mesmo estandartes anarquistas parecem atrair mais ativistas. É evidente que há quem proponha uma linha, nenhuma manifestação é inteiramente espontânea – mas os quadros políticos da juventude dos partidos de esquerda não conseguem mais bancar esta tarefa. Os que saem às ruas quem sabe pela primeira vez buscam outras referências de militância.

Por Ramiro Furquim/Sul21

4. Durante tantos anos de poluição, enchentes e secas, o Arroio Dilúvio, que acompanha tudo tão de perto, deve ter presenciado um bom número de acontecimentos insólitos. Mas foram poucas as vezes que bombas, rojões e balas de borracha atravessaram as margens do arroio – faixa d’água que, por momentos, ficou esbranquiçada em função da fumaça do gás lacrimogêneo. O confronto na Avenida Ipiranga, quase bélico durante alguns minutos, mostrou as situações de maior excesso por parte da Brigada Militar. Para impedir o avanço da caminhada, a polícia largou explosivos que caíram em diversos pontos da multidão, e não hesitou em disparar quantas balas emborrachadas pareceram necessárias. A questão é que quase todos os cartuchos poderiam ter permanecido intactos.

Por Ramiro Furquim/Sul21

5. Quando a noite de Porto Alegre se descontrolou, saíram do eixo também os serviços. As linhas de ônibus foram suspensas, e quem trabalhava no Centro por aquelas horas entendeu pouco ou nada do que acontecia. Um menino negro, de cerca de quinze anos, caminhava desorientado pela Duque de Caxias, na altura da Borges de Medeiros. Olhava de cima a movimentação noturna e, com os olhos cheios de lágrimas, se assustava mais. Havia perdido o transporte para a Restinga, e não tinha meios e nem dinheiro para voltar ao bairro. Quando a cavalaria pisou forte naquele lugar, ele buscou refúgio na porta do Hotel Everest. Ganhou algumas notas para encontrar um táxi, mas demorou a sair. Temia o desconhecido e as viaturas da polícia – a ver quantas faces têm o medo.

As cinco fotos são do Ramiro Furquim, fotógrafo do Sul21.

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