Calle Soriano

Hombre en la orilla, de Miguel Briante

Posted in Sem categoria by iurimuller on 21 de setembro de 2016
A edição de 2013.

A edição de 2013.

Atento, há meses, para um aspecto da obra de Juan José Saer: a rede que se forma, em seus romances e contos, com acontecimentos e personagens que se tocam, de um texto para outro, e formam, pouco a pouco, por vezes crescendo e em outras retrocedendo, um conjunto de associações (de um enorme intertexto interno) nada linear. De outro modo, em diferente proporção, e com, mais do que nada, distinta proposta narrativa, há algo assim na literatura do também argentino Miguel Briante, como provam os quatro textos deste Hombre en la orilla, publicado pela primeira vez no ano de 1968.

Desconhecia os livros e mesmo o nome de Briante, nascido em General Belgrano, Província de Buenos Aires, em 1944, e morto precocemente na década de 1990, até o momento em que me deparei com um conto: “Fin de Iglesias”, se chama o texto, escolhido numa oficina literária (de José María Brindisi) que trabalhava o gênero conto na Argentina e mais além. Pude notar, em “Fin de Iglesias”, o esforço literário em levar a oralidade de um povoado de província para a ficção, o enredo que se firma em episódios locais, e a crença, que persiste também no livro em questão, de que os problemas e os conflitos da literatura podem ser encontrados, quem sabe todos eles, nas teias algo minúsculas e ensimesmadas de uma pequena cidade do sul do mundo. As linhas do conto, como em Saer, saltam para o que se vê nos relatos e na novela de Hombre en la orilla.

É certo que os quatro textos do volume podem ser lidos de maneira independente, com visível autonomia: os silêncios e espaços em branco são marcas de um estilo e de uma proposta, e se acabam preenchidos depois, em transposições sutis, como acontece com Briante, isso em nada diminui a força de unidade de cada relato. Pode-se ler “A lo largo de esta calle que da al río”, o mais longo dos textos, que se aproxima de uma novela, sem retornar aos contos anteriores, mas a leitura completa do volume (e de outras peças mais da obra de Miguel Briante, como já posso crer) irá tocar com algo novo as lacunas e levar outro gosto à página. Como Saer, e talvez a semelhança não se estenda mais do que a este aspecto, há, aqui, a construção de uma obra pensada em conjunto, em lenta progressão, e que marca, em um espaço narrativo (em Briante, el pueblo, que em algum momento é anunciado como General Belgrano, a cidade natal do escritor), as idas e vindas de um mesmo núcleo de personagens e acontecimentos, dos verossímeis deslocamentos e experiências de um povoado em que quase todos se conhecem e o que é estranho (os forasteiros, os que retornam, os malditos e os que vivem às margens, nas barrancas) salta aos olhos com força e agilidade.

O desenhar deste espaço se torna mais firme, e é para tanto que serve a repetição, conforme Hombre en la orilla avança. No primeiro texto, “Habrá que matar a los perros”, aparecem algumas referências (a lugares, a famílias, a sobrenomes) que retornarão na sequência, ao mesmo tempo em que uma narração em primeira pessoa, marcadamente provinciana, relata a decadência de uma estância local. Em “Hombre en la orilla” e “La Vasca” a perspectiva é a do homem jovem que retorna ao povoado (no segundo conto, de Buenos Aires, onde parte para viver e estudar), e que mantém no olhar entre nostálgico e piedoso o tom de quem oscila entre ser dali e ser estrangeiro, de manter os vínculos e as conversações com os amigos de infância, que agora só pode encontrar nas férias, e observar o que, apesar da passagem do tempo, permanece inalterado; em outro momento, o narrador de Briante lembra que, em povoados como este, o correr do calendário não significa necessariamente a transformação ou mesmo o acontecimento.

Penso que é em “A lo largo de esta calle que da al río” que os artifícios de Briante chegam mais longe: no relato de quase oitenta  páginas, o escritor pode se aproximar de alguns dos seres de General Belgrano (La Baguala e sua filha Elena Fuentes, que vivem num rancho à beira do rio e atordoam com sua força e pobreza; o louco, talvez bruxo, talvez vidente; o silencioso homem que chega do sul e espera por um momento impreciso para agir; as tradicionais famílias da localidade que acabam ridicularizadas numa noite de carnaval), saltar do presente do cidade para um passado anterior aos personagens e então a momentos pontuais em que algo, uma frase, um confronto, atrai a atenção de todos e destrói, por um par de dias, ao menos, a modorra do povoado – porque em lugares assim o tempo e a poeira, e quem sabe o cansaço, podem mais do que o ruído, e logo recolocam as antigas peças no lugar em que costumavam estar.

Hombre en la orilla, de Miguel Briante. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2013.

Ruas de dezembro

Posted in Sem categoria by iurimuller on 25 de dezembro de 2014

Nalgumas cidades do interior, quando se observa o ângulo de uma rua que sobe, quase todas as vezes uma ladeira formada por paralelepípedos, o que se vê no topo desta rua é o fim da cidade. Enxerga-se o céu, se a inclinação for de fato grande, ou o campo, paisagem que demonstra o limite do concreto, metros adiante. Em cidades muito pequenas, localidades limitadas a poucas quadras residenciais no centro e subúrbios discretos, estas visões podem surgir mesmo na praça principal, desde que haja suficiente relevo para o efeito acontecer.

Mas não é assim nesta cidade, ao menos não costuma acontecer desta maneira. Por aqui, quatro ou cinco bairros populosos preenchem toda a área central, e a periferia não é feita de planícies verdes, mas de prédios baratos e altos, de casas que se acotovelam umas nas outras e se parecem com uma casa só, larga e comprida, e não mais com uma sequência disforme de moradias, como de fato se constitui. Resta ver o céu, tela azul que nos surpreende no topo de alguma subida, quando a cidade se encontra num estado de modorra ou de quietude e as proporções quase que se modificam.

Vinte e quatro de dezembro, seis e meia da manhã: é véspera de natal, mas ele caminha (caminha com frio, o vento do amanhecer o atacou desprevenido, com pouca roupa a proteger o corpo magro) com a expressão de quem ignora por completo a situação do calendário. Volta para casa, precisa voltar para casa, a companhia da madrugada, das últimas várias madrugadas, madrugadas de sonho, ele diria, viajou no primeiro ônibus da manhã, minutos antes. Caminha com certa imprecisão; o frio faz com que tente se movimentar depressa, mas o sono o atrapalha, desequilibra um pouco as suas pernas. O passo sai torto, ele oscila pelas calçadas. De longe, poderia ser confundido com um bêbado que ruma sem destino e ainda não encontrou nenhum lugar para deitar os braços e então anda, anda indefinidamente.

Ele dormiu por apenas três horas. Das três da manhã até o instante em que precisa, às pressas, juntar os dois livros do chão, vestir-se, ajudá-la com as malas e descer as escadas, do quarto andar até o térreo. Faz isso em pouquíssimos minutos e ainda se concede o excesso de lavar o rosto e escovar os dentes, de se aquecer num abraço longo. O resto de uma garrafa de vinho (cabernet sauvignon uruguaio, treze reais no mercado da Avenida) e duas taças ficam pelo quarto, e por lá terão de esperar durante vários dias até que alguém abra a porta e retire a garrafa e as taças para a pia da cozinha.

O ritmo da cidade ainda é lento; caminha cedo demais e ainda falta tempo para o comércio abrir, para os carros se encherem de gente. Trata-se, também, de um dia atípico, mas ele não sabe ao certo se no vinte e quatro de dezembro há maior agitação ou se as pessoas dormem até mais tarde, num descanso de feriado que se antecipa. Vê os primeiros movimentos, o espreguiçar-se de uma cidade sonolenta. Faxineiras varrem o chão da relojoaria, chegam os primeiros empregados na farmácia e se esforçam para descer as grades de ferro. Sob a aba de um hotel, fuma e examina o rosto dos raros passantes um homem de roupas escuras e traços de quem veio de longe, talvez imaginando-se invisível em meio à fumaça do cigarro.

Na altura de uma esquina, algumas quadras adiante, a visão, o fenômeno óptico dos ângulos e das ladeiras, o alcança. Vai atravessar a rua, olha para os dois lados para evitar o possível encontro com um carro que chega em alta velocidade e oferece perigo, mas não se depara com automóvel algum: se depara com o céu, e aquele céu atordoa. Um céu ainda borrado, fruto cansado da batalha entre noite e dia, de um roxo que vai se tornando cada vez mais azul, espera (melhor seria dizer descansa, pois parece exausto) no alto de uma rua de paralelepípedos.

Para lá, para onde enxerga, a cidade é baixa, não crescem prédios e não aparecem os parques, não há nem mesmo uma torre de igreja a cortar a visão. O céu assume a profundidade do ângulo e indica que ali, espaços depois, termina uma parte desta cidade. Ele segue caminhando, precisa andar por mais quinze ou vinte minutos para chegar em casa e então dormir um pouco mais. Acordará por volta do meio-dia, com o telefone que toca, e na ligação simulará a voz de quem despertou cedo para ler um romance de Juan José Saer e tomar mate na sacada, enquanto a luz do dia se acomoda acima das coisas.

24.12.2014.

Avellaneda

Posted in Sem categoria by iurimuller on 1 de maio de 2014

I.

Martín atravessava os campos abertos da Província de Buenos Aires a bordo do trem. Pela janela de um dos vagões da Linha General Roca, via, ao sul da Capital, um subúrbio em constante crescimento. Ainda existiam as chácaras, os pátios que ostentavam flores e goiabas, os longos terrenos abandonados ou à espera de construções. Mas naqueles anos, nos poucos quilômetros que separam Avellaneda de Buenos Aires, já era possível sentir a fumaça das fábricas, consequência imponente da década anterior. Na bagagem, ele levava pouco ou nada: alguma roupa, uma insignificante quantia em pesos e as chuteiras pretas de sempre.

Tinha pouco menos de vinte anos e, até ali, não contava com nenhuma experiência séria no futebol. Havia jogado desde a infância na sua província natal, aquela terra quente do norte, sem contratos ou esperanças. Na adolescência, vestiu camisetas de cores estranhas e descobriu cantos da cidade que jamais conheceria se não fosse o campeonato amador. Deixou gols em redes suburbanas e centrais, estalou traves em campos burgueses e miseráveis. Foi quando completou vinte anos que José, que dizia conhecer todos os homens importantes do norte argentino, alertou para as salvações do sul, para a grife do futebol de Buenos Aires, cidade que abrigaria os melhores quadros daquela época.

Algo Martín percebia pelas ondas do rádio. Que os locutores gritavam com maior entusiasmo os gols de Boca Juniors, River Plate e Independiente do que os de Racing e San Lorenzo, por exemplo. Que o Huracán parecia perder sempre, e que o Platense era um clube tão minúsculo quanto corajoso. Que, cada vez mais, os estádios enchiam, os clubes contratavam, o esporte crescia. Às vezes, jogava na frente de casa com o aparelho ligado em tardes de jornada esportiva. O som do rádio e a imaginação flutuante faziam com que as duas partidas – a sua, no barro, sem indicações de linhas na grama e com companheiros improvisados e a deles, transmitida para todo o país e já profissional – se mesclassem em horas oníricas.

No final de um desses domingos, José (parte do corpo encostado no balcão do bar, o copo de cerveja nunca vazio, a frase definitiva, jamais frouxa) comunicou a sério: vais ter que viajar, mostrar teu jogo em Buenos Aires, em Avellaneda, quem sabe em Lanús. Vais ter que descer a Buenos Aires para não cair pobre nesta terra de ninguém. Martín não se lembraria das palavras exatas de Don José, mas sim da cerimônia ao falar, da seriedade com que fez do boteco um recanto de silêncio formal que apenas ele poderia romper: hoje, na Argentina, há quem apenas jogue futebol e não precise de mais nada. No Racing, ninguém precisa mais trabalhar nas fábricas ou nos matadouros. Imagine você como deve ser no River, flaco.

Dias depois, sabe-se lá após quantas discussões familiares, embarcou num trem rumo a Buenos Aires. Disse aos amigos que voltaria, que era um teste para mostrar a alguns olheiros a naturalidade com que cabeceava sem fechar os olhos e o desarme exato que salvara tantos gols nos potreiros do interior. Em Buenos Aires, onde já havia estado, mas da qual não lembrava quase nada, ficou apenas algumas horas. Caminhou pelas ruas do centro e se imaginou vivendo num prédio muito alto, quem sabe na Avenida Corrientes, que tanto encantava a sua mãe; ou mesmo numa casinha austera da Balvanera, bairro em que poderia preservar os seus hábitos mais provincianos. O relógio preso ao pulso não permitiu que seguisse sonhando. Era preciso buscar a Estação de Constitución, de onde sairia o seu trem para Avellaneda.

 II.

Martín contemplava a Avenida Mitre, tão vazia aos domingos, através da vidraça de um café de esquina. Estava há meses em Avellaneda e já era conhecido nas ruas como o cumpridor quarto zagueiro do Independiente, ainda reserva, é certo, mas que havia entrado bem contra o Ferro Carril Oeste e o Chacarita Juniors, e falhado justamente no clássico que disputou em La Boca. Ganhava bem, treinava todos os dias ao lado de Ricardo Bochini e Daniel Saralegui, vivia perto do estádio e duas vezes por semana viajava a Buenos Aires para caminhadas sem rumo. Quase todos os meses telefonava para casa, mas antes de cada conversa encaminhava duas ou três cartas em que relatava a rotina da nova vida.

Eram tempos de felicidade e de estranhamento. Era jovem, vestia a camiseta de um dos maiores clubes do continente, poderia ser titular em quatro ou cinco times da primeira divisão que já tinham inclusive acenado com propostas. Mas sentia-se estranho por pensar que, de alguma maneira, chegara tarde demais a Buenos Aires. Nos jornais e nas ruas, discutia-se pela primeira vez mais sobre política do que sobre futebol. Tudo porque os militares haviam deposto Isabelita Perón da presidência em mais um golpe de Estado daquele século. No Independiente, alguns jogadores se mostravam preocupados e se comentava que o campeonato poderia parar.

Avellaneda, cidade de fábricas e de indústrias, de trabalhadores e de sindicatos, agora tinha em cada um dos seus bairros um enorme efetivo militar. Havia denúncias de que as prisões aumentaram, de que peronistas tiveram que deixar o emprego para trás e escapar para o interior com toda a família. Num final de manhã, pouco depois de tomar o último mate em casa, Martín passava pela Rua Libertador quando sentiu uma movimentação estranha no sobrado mais próximo. Ouviu uma porta bater e um grito ser sufocado. Pouco depois, dois jovens foram arrastados para um camburão por mais de dez oficiais, ainda antes do meio-dia, a poucas quantas do centro.

Nos treinos do Independiente, o assunto era tratado de forma evasiva. Havia quem desconhecesse por completo a situação política, sem saber o que havia ocorrido para que a viúva de Perón não frequentasse mais os salões da Casa Rosada. Outros sabiam tanto quanto Martín: que havia gente nervosa na Grande Buenos Aires, que alguns jornais publicavam reportagens pesadas, que os militares apareciam a todo instante nas rádios da capital e que alguns países europeus ameaçavam romper acordos políticos e comerciais com a Argentina. E havia Facundo, que desde que o dia do golpe estava ausente dos treinamentos e, quando apareceu, não falou com quase ninguém. O goleiro, diziam, poderia ser transferido para o futebol de Córdoba.

Martín conversou com Facundo no início da tarde de uma sexta-feira. Era abril, ventava, o sol parecia apenas cobrir o verde do gramado, sem agredir os olhos dos jogadores ou aquecer demais. Não eram exatamente amigos; compartilhavam, no entanto, de um dos espaços mais solidários possíveis: o banco de reservas de um estádio de futebol. O diálogo feito às pressas enquanto corriam ao redor do campo não serviu para grandes revelações. Facundo disse que poderia estar mesmo de saída, mas que isso nada tinha a ver com o campeonato do Independiente (apenas razoável, preenchido com boas atuações em casa e derrotas na condição de visitante, o empate no clássico com o Racing e o desastre em La Boca), mas que a despedida era motivada pelo país. “O país”, dizia Facundo, que parecia melancólico e misterioso demais para um goleiro reserva na Argentina.

III.

Facundo retirou todos os seus pertences do vestiário em poucos minutos. Agarrava as luvas e camisetas e as jogava com nítida pressa dentro de uma mala grande, na qual se deixavam observar outros objetos: documentos, livros, maços de dinheiro e mantas para o frio. Eram, mais do que nada, indícios de quem partiria para longe. Aquele boato do empréstimo para o Talleres de Córdoba finalmente deixava de fazer sentido. É certo que lá fazia mais frio do que na Província de Buenos Aires, mas não o suficiente para um jogador de futebol levar gorros ao estilo suíço. No rosto de Facundo, mais do que a pressa estava estampada a angústia, condição suficiente para que ninguém dirigisse a palavra a ele mesmo quando no vestiário descansavam cinco ou seis atletas.

Antes de atravessar a rua em direção a Avenida Mitre, Facundo avistou Martín, que caminhava na sua direção. Talvez o arqueiro esperasse mais um adeus singelo, sem abraços apertados e perguntas indiscretas. Martín, no entanto, permaneceu em frente ao colega e não precisou questionar nada. Via que algo estava fora do lugar naquela cena: ele deixando a sede com os pés ligeiros e uma mala nos ombros, o olhar entre amedrontado e nervoso, um par de desculpas na ponta da língua. Firmou os olhos nos seus. Pela primeira vez, Facundo foi sincero com alguém do clube.

Há semanas, disse, que tinha a casa rodeada por carros estranhos, que o telefone tocava e ninguém resmungava palavra alguma do outro lado da linha. Teve notícias de que um companheiro do partido (sim, militava com os peronistas da cidade há algum tempo) havia sido preso e possivelmente torturado; de modo que poderia delatar alguém, soltar endereços, nomes, números, senhas, mapas enquanto era violentado em algum galpão clandestino desta província que tinha se transformado em uma verdadeira zona de desgraças. Esparramou as frases como num pranto, e logo disse que precisava ir. Estava a caminho de Ezeiza, o povoado do aeroporto, e para tanto buscaria um trem em Constitución. No caminho, precisava passar em Buenos Aires para deixar uma carta e um bilhete num local seguro.

Desde então, Martín não teve mais notícias de Facundo. No outro dia, os jogadores do Independiente se reuniram no centro do gramado antes do treinamento. O técnico parecia ter muito a dizer, mas nada era relativo ao futebol. Antonio Villar, há duas décadas nas casamatas do futebol argentino, disse que nunca havia passado por nada parecido. Que esquecessem o tal Facundo, falou, que se concentrassem na próxima partida, na viagem a Santa Fé, nas armadilhas desta tabela meticulosamente organizada por estes torcedores do Boca Juniors que ocupam todas as cadeiras da federação. A orientação de Villar era quase uma súplica. Ele temia que o Exército, com ações cada vez mais disparatadas naquelas semanas de abril, pusesse os olhos até no campo do Independiente.

Os meses passaram e o clube não pôde superar o sexto lugar no campeonato da primeira divisão. Ao mesmo tempo em que se jogava futebol semana a semana, uma leva invisível de homens e mulheres deixava o país rumo a Estocolmo, a Porto Alegre e ao Rio de Janeiro por estradas noturnas ou nos aviões, sempre com disfarces desesperados, com documentos falsos e uma forte agonia no peito. Martín soube da história de alguns exilados antes de se tornar ele mesmo um deles, mesmo que de forma espontânea. Após uma boa pré-temporada em Mar del Plata, acertou com o novo empresário um passe para o futebol espanhol. Viveria perto de Barcelona, muito longe de Avellaneda.

 IV.

Martín viajou pela Espanha, visitou praias estranhas, encerrou a carreira como capitão do Osasuña e ganhou certo dinheiro. Conheceu o leste europeu e casou-se por lá com Marina. Ela tinha, como ele, os cabelos negros, o corpo moreno e os traços fortes cortando o rosto. Bem poderia ter nascido no norte argentino, mas era peruana – como ele, havia desembarcado na Europa por acaso. Martín assistiu à ditadura do outro lado do oceano. Na sua família, todos se mantiveram ilesos, com a exceção de um primo que, por borracho e brigão, desafiou um soldado num bar e acabou preso por dois meses. Os demais não se envolveram em nada e provavelmente sabiam tanto quanto ele, com a diferença de que estava a milhares de quilômetros da Argentina.

 

Não foi difícil encontrar notícias, de qualquer maneira. Os jornais franceses, distribuídos com pompa nas bancas de revista de todo o continente, noticiavam mais do que quaisquer outros a violação aos direitos humanos na América Latina. Desde Paris, opinavam que os militares argentinos eram mais sádicos do que os paraguaios, mais violentos do que os brasileiros, mais desafiadores do que os uruguaios e tão terríveis quanto os chilenos. De longe, pensou ele enquanto lia o Le Monde, é fácil comparar a tortura no terceiro mundo – no mesmo momento em que fechou o jornal e se viu tão distante da Argentina quanto o triste articulista.

Trinta anos depois, entrou num avião em Madrid e aterrissou no Aeroparque. Desceu em Buenos Aires após a primeira crise dos anos 2000, tempo em que duas a cada três lojas fecharam e no qual um a cada dois argentinos perdeu metade do que tinha no banco. Martín voltou numa época de reconstrução e reconciliação, tempo de levantar as casas, de salvar as fábricas, de reorganizar a política e desafiar a ditadura. A ditadura que, mesmo após ter entregado as armas, parecia ainda viva num canto da sala, visível e intocável, salvaguardada por uns quantos nostálgicos de má fé. Definitivamente, eram outros tempos. Avellaneda sofria com congestionamentos no trânsito, os trens eram precários, o Independiente jogava a segunda divisão e, em, Buenos Aires era inaugurada mais uma exposição sobre a resistência armada aos anos de chumbo.

As telas e os paineis tomavam conta de uma praça de Núñez, no norte da Capital. Era organizada por uma das tantas associações de familiares de vítimas da repressão que surgiram com a democracia. No caso desta, a narrativa era personificada. Cerca de vinte militantes, de diferentes organizações, partidos proscritos e seus braços armados, apareciam retratados numa foto em preto e branco e em poucas linhas biográficas. A distinção de outras honras semelhantes se dava por conta do enquadramento; havia se optado por relatar a trajetória de anônimos da resistência, e não dos mártires reconhecidos. Eram operários das fábricas, policiais rebeldes, estudantes universitários do interior. E, ao lado de um álamo, quase na última curva da praça, Martín pôde ver um rosto conhecido que havia ficado para trás durante as últimas três décadas. Ao lado da foto, leu:

“Facundo Saavedra, 24 anos, goleiro. Jogou no Club Atlético Independiente e no Club Almagro. Em cinco anos, entrou em campo cerca de trinta vezes pela primeira divisão. Militou no Partido Comunista e logo passou às fileiras da guerrilha peronista de Avellaneda, na qual atuou até 1977. Foi morto em plena Estação de Constitución, enquanto esperava o trem na plataforma destinada a Ezeiza. Seu destino deveria ser o exílio. Na foto ao lado, Facundo aparece entre Martín Guzmán (à esquerda, na época zagueiro do Club Atlético Independiente) e Juan Manuel Benítez (à direita, antigo meio-campista e também companheiro de equipe)”.

Os monges copistas

Posted in Sem categoria by iurimuller on 12 de abril de 2014
Hipódromo de Maroñas

Hipódromo de Maroñas

I.

Naquela noite, a cidade estava estranha e os ônibus que voltavam pelas avenidas não conseguiam espaço para adentrar o centro. Às margens dos canteiros, longe do destino final de cada linha, os passageiros desciam dos veículos e precisavam terminar o trajeto a pé.

Acontecia naquela hora, diziam os motoristas, um protesto de estudantes nas proximidades do mercado central, e em algum momento – tal como ocorreu em boa parte das passeatas anteriores – a polícia e os manifestantes se confrontaram com alguma violência. Perto do parque, as travessas estavam mal iluminadas e era preciso andar beirando as fachadas das lojas e bares ainda abertos para enxergar com nitidez a próxima esquina.

A maior parte dos que deixaram os ônibus e passaram a caminhar se perdeu em poucos minutos pela cidade. Nos próximos dias, ou mesmo semanas e meses, talvez tenham se sentado lado a lado nos mesmos ônibus, mas provavelmente não se reconheceram – os rostos se confundem nos trajetos repetitivos como aquele.

V. caminhou por cinco ou seis quadras (boa parte delas realmente largas, o que demandou um bom tempo de percurso) até entrar em casa, na Cidade Antiga, deixar os livros que levava na mochila em cima da mesa da sala, alimentar os gatos que ainda viviam no quarto dos fundos, deitar-se por cinco minutos, quase que só para descansar as pernas, e voltar a sair pela porta da frente. F., por sua vez, veio de longe e fez o caminho todo em cima de uma bicicleta pública, que alugou na estação próxima a um hospital.

Talvez tenha sido V. o primeiro a chegar, já que a distância que o separava do bar era menor, mas digamos que tenha sido F. e que F. chegou e não tardou muito para levantar a mão direita e pedir ao garçom uma cerveja comum. Era certo que, depois, beberiam vinho em jarra, mas por agora o calor atordoava e a cerveja o refrescaria com mais rapidez do que qualquer outra bebida.

No bar, naquela hora da noite – digamos que passasse um pouco das nove, não mais do que isso –, apenas quatro ou cinco mesas estavam ocupadas do lado de dentro. As mesas da rua, em função da temperatura, recebiam mais gente, em geral clientes que bebiam pouco e logo davam lugar a outras pessoas. Quando V. entrou no salão, F. já estava às voltas com a metade final da garrafa e ainda sentia resquícios da sede. Cumprimentaram-se sem entusiasmo e escolheram outra mesa, mais próxima da televisão, ainda que dificilmente olhassem para o aparelho.

Não é certo que tenha sido V. o primeiro a comentar a manifestação e o fato dos ônibus terem empacado antes da última curva do arroio, mas é bem provável que tenha sido ele pela importância que costuma dar a esses temas. Disse que, do seu ônibus, muitos dos que desceram caminharam com pressa para o centro interrompido, para se somarem aos que ainda tentavam resistir por lá.

Para F., era uma lástima a violência que a polícia da cidade empregava naquelas situações, e acreditava que em poucas semanas, se as coisas seguissem nesta crescente, algo de mais trágico poderia acontecer na cidade. Não quis que o assunto permanecesse na mesa, já que de pronto folheou o cardápio e sugeriu que pedissem um prato para duas pessoas, com ovos fritos e salada, além da jarra de vinho da casa. Mais uma vez, o que escolhiam sempre.

II.

Falaram sobre futebol, sobre uma pesquisa eleitoral e a exposição de um artista português que apareceria na cidade em poucos dias, até o momento em que chegaram os pratos e a bandeja do garçom. Por tempos, o que mais houve na mesa foi silêncio: fruto da fome que pisa forte nos finais de terça-feira.

Comeram mais do que beberam na primeira meia-hora, de modo que a jarra parecia quase que intacta quando F. limpou a boca com o guardanapo e disse que estava com medo de esquecer de coisas importantes – não porque estivesse mal da memória, mas porque algumas coisas sempre podem escapar e até parece inevitável que se percam. E então deixou de lado a comida ainda quente e passou a falar por minutos a fio.

F. havia conhecido, disse, a história de um colega de trabalho (creio que ele trabalhava em um banco, ou em um tribunal) que anotava em cadernos de duzentas ou trezentas páginas todas as partidas de futebol que ouvia no rádio, guardando ali as escalações, os gols do jogo, os momentos importantes e o tempo em que cada coisa aconteceu ou assim foi relatada. Fez isso primeiro por tédio e por distração, depois por ritual e inércia e por fim por necessidade e angústia. É que a memória começou a falhar e aos sessenta anos ele acreditou que poderia salvar o que houvesse de mais importante naquela coleção de papeis encadernados.

Desde então, F. continuava a contar, o homem destinava para as anotações de monge copista mais e mais prateleiras de suas estantes, e a coleção não parou de aumentar. Não eram só fichas técnicas do futebol em lugares longínquos, mas também os filmes que assistia no cinema e na televisão, as notas que imaginava importantes e que copiava do jornal, os diálogos que havia travado naquela mesma manhã com a mulher e o filho, antes de sair para o trabalho.

Chegara até mesmo a anotar recordações distantes, que surgiam na cabeça sabe-se lá de que maneira, mas como a transcrição destas lembranças começava a lhe parecer constrangedora demais, decidira parar por ali. Anotava, portanto, apenas o que era objetivo e relativamente recente. O passado que não estava nos cadernos poderia ficar para trás – nem para tudo havia espaço na sua jangada de madeira ruim.

E nem bem F. havia terminado o relato do seu colega de trabalho, homem que parecia mesmo admirar pela técnica corajosa e pouco orgulhosa que havia posto em prática, V. perguntou de que maneira F. poderia se utilizar daquilo, já que não tinha, até onde sabia, maior interesse por anotações esportivas, diálogos do cotidiano e recortes do jornalismo. Antes de responder ao companheiro, F. esvaziou a jarra nos dois copos e acenou para o garçom encher outra vez o recipiente.

III.

A resposta de F. iniciou com um ritmo lento, de modo que o pensamento de V. vagou pelo bar e foi parar nas palmeiras da avenida, entre as quais havia enxergado a lua no início daquela noite. Mas logo ouviu da boca de F. uma ou duas palavras interessantes e já estava imerso na conversa. Ouviu com atenção, entre goles vigorosos de vinho tinto seco, e me parece que o que escutou foi o seguinte.

F. não tinha, é verdade, a intenção de acumular papel com informações que não parecessem relevantes. Não importava, por exemplo, se Cristian Riveros havia marcado de cabeça contra o Defensor Sporting aos vinte ou aos trinta e cinco do segundo tempo; aliás, importava de alguma maneira, mas se o tempo modificasse essa recordação não haveria qualquer problema. O mesmo valia para fatos políticos (os acontecimentos impactantes permaneceriam, para ele e o mundo, quisesse ou não) e para suas conversas de cada dia.

Mas o que tinha o poder de amedrontar F., quem sabe a ponto de prejudicar algumas de suas noites de sono, ou mesmo de provocar um punhado de sonhos ruins e de presságios assustadores, era a possibilidade de perder as suas ideias, aquelas que poderiam servir para um conto ou um poema, e que desapareciam da memória em poucas horas, ou no dia seguinte se fossem fecundadas numa madrugada de insônia e tempestade.

E, ante o rosto algo debochado de V., F. esclareceu que não era para se enxergar nisso qualquer ambição literária ou aspiração profética, que provavelmente não escreveria nada a partir daqueles argumentos curtos, mas o que o angustiava era vê-los se tornar fumaça na memória e quem sabe não os recuperar mais. Ter imaginado e organizado minimamente o pensamento já bastava; escrevê-los sob a forma da literatura era consequência desnecessária. Não fazia, de maneira alguma, parte da mesma aflição.

Desde que havia escutado o relato do colega de trabalho e refletido um pouco sobre o que ouvira, F. tratou de comprar os mesmos cadernos de duzentas ou trezentas páginas e passou a escrever – às vezes na rua, sentado no meio-fio; ou no metrô, entre a estação Balcarce e a Los Andes – as ideias que poderiam, um dia, se encontrassem o instrumento e o sujeito competentes, assumirem a forma da frase e do verso. Isso aconteceu há poucos dias, e o resultado já era visível no acúmulo de folhas pautadas.

IV.

Já havia escrito em três linhas, por exemplo, a sugestão de uma cena em que uma aguardada carreira de cavalos (na São Paulo dos anos 1930, quem sabe) era interrompida por um avião que precisava aterrissar abruptamente no hipódromo, ao passo em que, a partir deste dia, que havia acabado bem, os precavidos cavalos sempre tentassem olhar para o céu após vencer a primeira curva daquele percurso.

Escrevera, também, em quatro ou cinco linhas, sobre a forma com que as torcidas do futebol argentino tratavam a finitude, já que a parcialidade de um clube (imaginava que do bairro de Boedo) cantava que acompanharia o clube até mesmo no céu, e a outra (talvez de Núñez, ou de Belgrano) entoava o cântico no qual admitia, resignada, que apenas a morte poderia separá-los. Eis o argumento-chave para um ensaio acadêmico, debochou de si mesmo F.

A isso seguiam, para riso e algum divertimento de V., pequenos apontamentos sobre um hotel em Moscou nos dias revolucionários em que a cidade não havia compreendido bem se estava sob o poder dos bolcheviques ou dos defensores da velha ordem, no qual os hóspedes não duravam ali mais do que duas noites e o público era formado quase que só por espiões, contrabandistas, fugitivos e imigrantes que se viam completamente perdidos no palco da história. E já havia escrito mais, contou a V., mas talvez não fosse o momento de ler em voz alta o caderno inteiro.

Com a leitura, o tempo parece que passou mais depressa no salão e a segunda jarra se esvaziou com a mesma velocidade. Ainda houve tempo e ânimo para tomar uma terceira, que o garçom encheu apenas até a metade, antes de saírem para a calçada. A noite ainda estava abafada como antes, mas os ônibus, ao que parecia, voltaram a percorrer as linhas como costumavam fazer. A polícia já havia dispersado a manifestação. V. despediu-se sem demora e sentia os primeiros sinais do sono, mas F., após a apertar a mão do amigo, tratou de se encostar na fachada do bar e deixar mais uma frase solta em seu primeiro caderno.

Papéis molhados

Posted in Sem categoria by iurimuller on 27 de março de 2014
foto: santiago filipuzzi

foto: santiago filipuzzi

Está lloviendo en Buenos Aires

Eu trabalho num negócio pouco explorado aqui na cidade. Fica na Rua Estados Unidos, quase esquina com Lima. Entre Constitución, San Telmo e Balvanera, a cem metros da Avenida 9 de Julio. Discordo de que estejamos longe dos turistas. Não é um ponto ruim, a prova disso é que abri a loja há mais de dez anos, talvez a única que nasceu naqueles dias de pedradas e panelaços. E não é preciso que o balcão esteja rodeado por turistas, que os gringos parem de dois em dois minutos na frente da minha vitrine. Vender guarda-chuvas não é como vender alfajores ou discos de tango. O que os traz aqui é a necessidade, a impaciência da chuva que por vezes parece jamais abandonar Buenos Aires.

Recentemente, houve um agosto em que a chuva foi tão forte, e durou por tantos dias, que esquecemos as anunciações da primavera. Mas, entre tantos aguaceiros, houve um estranho domingo de sol. Domingo que contrariou os homens do tempo, a sabedoria dos padeiros. Os carros que vinham desde La Plata pareciam atordoados na metade da autopista. Aquela luz há tanto escondida quase cegava os que trafegavam pela cidade ainda molhada. Naquele dia, foram poucos os que saíram com o guarda-chuva em mãos. A claridade e o céu azul eram mais reais do que o noticiário inteiro.

Lembro esse domingo porque houve algo naquele sol que me fez pensar na minha loja, nos meus guarda-chuvas. Estava em San Telmo, como faço quase que diariamente, após contar os pesos do dia e chavear o portão. Passo, inevitavelmente, pela Rua Bolívar. Não sei se pela força do cotidiano ou por casualidade geográfica, mas com o tempo este trajeto deu-me alguns amigos pelo caminho. Com um deles, travo a amizade mais estranha dos meus cinquenta anos. Nossas frases emperram, e emperraram sempre. Pouco sei sobre a vida dele, se tem filhos, se nasceu na Capital Federal, se leu boa parte dos livros que vende. Desde que eu passo por ali, vejo-o sentado na mesma cadeira, ao lado das estantes e afogado na fumaça dos cigarros que se repetem enquanto a tarde perdura.

Apenas sei que se se chama Gonzalo, que é livreiro e que há muitos anos mantém o sebo na Rua Bolívar. E que é um bom sujeito, daqueles que nos conquistam com uma palavra certa e muito de silêncio. Durante a semana, a pausa na caminhada é rápida; deixo meu cumprimento e, por vezes, um comentário qualquer sobre o governo, as greves, a política. E então sigo o meu caminho. Nos finais de semana, fico por mais tempo, nem que seja para ouvir a chuva, o bandoneón triste que transborda no ambiente e as frases mínimas, justas, de Gonzalo. Foi assim até a véspera do domingo de sol, em que ele, por raivoso e emburrado, não deve ter vendido sequer um exemplar comemorativo da revista El Gráfico.

Quando cheguei, o cenário já tinha aquele ar que têm as coisas quando estão a ponto de explodir. Ele havia colocado música brasileira na vitrola, truque grosseiro para fisgar os turistas das cercanias. Muitos entraram, talvez pelo som, ou pela convidativa vitrine do lugar. Nenhum deles se esforçou a ponto de tentar um buenas tardes em espanhol, mas remexeram nas prateleiras. Eram ingênuos, qualquer pôster mofado de Gardel já servia para levantar suspiros. Apontavam o dedo para algum Macedonio Fernández, e creio que um deles se interessou por uma primeira edição de Roberto  Arlt.  Não  compraram  nada,  evidentemente.  Ali estavam para  escutar  um  fiozinho  do  Rio  de  Janeiro  e  satisfazer  a curiosidade que a figura gorda de Gonzalo suscitava.

Gonzalo desligou a vitrola quando o sétimo turista saiu. Havia amaldiçoado o sol alguns minutos antes; sentia saudade, imagino, do sábado anterior, repleto de goteiras, vento cortante e com o céu, como dizia a previsão do tempo, desmejorando sem parar. Não eram cinco da tarde quando avisou aos clientes restantes que não haveria nada mais. Que voltassem na segunda-feira, se quisessem. Quanto a mim, fui incluído no despejo. Gonzalo disse que precisava ficar sozinho, mas que apareceria na minha loja durante a semana. Compraria um guarda-chuva novo, de cabo de madeira, tão logo o sol  se  escondesse.  E  falou  qualquer  coisa  sobre  o desconhecimento humano em relação à poesia molhada. Como amigos,   livreiros   podem   ser   uma   companhia   silenciosa   e inconstante; como clientes, entretanto, ainda guardam rompantes de consumo enlouquecido.

Tempos depois, Gonzalo apareceu na Rua Estados Unidos. Havia voltado a chover. Observou os modelos expostos no mostrador antes de ultrapassar a porta. Naquela hora do dia a loja fica quase desabitada, ainda que, ao contrário dos livreiros, os vendedores de guarda-chuvas não impedimos a passagem de cliente algum. Gonzalo disse que queria o paraguas da promoção, o de trinta pesos. Mas eu sabia que diria mais. Nos minutos em que estávamos apenas na rota sonora dos pingos que estalavam no teto, eu esperava algum comentário sobre o último domingo. Ele tirou os pesos da carteira e por fim abriu a boca. Para dizer que, ao contrário do que parecia, os livreiros precisavam mais das chuvaradas do que os vendedores de guarda-chuva.

Não o questionei sobre a frase, mas tampouco entreguei o pacote, que aguardava fechado sobre o balcão. Gonzalo seguiu. Disse que dependia da chuva porque a poesia precisa da água. Não das tempestades ou inundações, mas ao menos de uma garoa que persiste por uma tarde inteira, ou de uma rua alagada que atrapalha a caminhada da manhã. Disse que poeta algum pôde escrever sem se molhar um pouco. Que Roberto Bolaño, fodido e doente na Espanha, não escreveu “esperas que desapareça a angústia/  enquanto  chove  sobre  a  estrada estranha/  em  que  te encontras” para as gotas que caíam sobre um camping descoberto, mas para a água que inundou a sua vida inteira. E quando parecia que falaria mais, que me  mostraria algo do que lia e pensava, Gonzalo apanhou o guarda-chuva, acenou um tímido chau e atravessou a rua em direção a Montserrat.

No dia seguinte, fui a Constitución e subi no trem que vai a La Plata. Eu viajava apenas para me encontrar com um distribuidor de guarda-chuvas automáticos, a solução encontrada por dois de cada três porteños que se protegem da chuva. No trem, vi a movimentação de sempre: vendedores de sanduíches, de livros infantis, de rádios movidos à pilha, de ingressos falsos para a próxima partida do Estudiantes; vi intérpretes improvisados que, antes e depois da curta canção, discursavam sobre as dificuldades em que viviam na Província de Buenos Aires, às vezes nas ruas, sem  qualquer  abrigo.  Ao  meu  lado,  no  entanto,  havia  um  tipo incomum; ainda que, a julgar pelas vestimentas, tivesse tão pouco dinheiro como todos nós.

Ele estava quase que alheio aos ruídos internos e ao freio da locomotiva nas estações de Quilmes e Plátanos. Deveria ter vinte anos, pouco mais. O rosto permaneceu a viagem inteira colado à janela, desviando os olhos de tempos em tempos para o livro que levava em mãos. Um livro de Mario Benedetti. Do escritor uruguaio, eu sabia pouco. Lembrava a novela em que um senhor, o personagem central, se apaixonava por uma mulher muito mais jovem que ele. Gonzalo havia comentado uma vez sobre essa história. Mas o livro que o rapaz tinha em mãos era de poesia, algo como uma antologia poética. Um livro de bolso, desses que estão à venda nas estações de trem, embora seja raro encontrar um leitor nos vagões que viajam para o sul.

Pude ler apenas um poema, não sei se completo ou se os versos continuavam na página seguinte. Lia o livro que descansava entre o rapaz e a janela, mas era como se ouvisse Gonzalo naquele último encontro. Dizia assim: “com rios, com sangue, com chuva, ou orvalho/ com vinho, com neve, com pranto/ os poemas costumam ser papel molhado”. Em La Plata, permaneci somente por pouco tempo. Não é simples para um vendedor de guarda-chuvas ser atingido assim, de pronto, pela poesia. Ainda mais quando sente que, enquanto vende estes automáticos, ou mesmo os mais clássicos, que ainda levam cabos de madeira, o que na verdade faz é impedir que a chuva atinja o que precisa atingir.

Há poucos dias, encontrei-me com Gonzalo na mesma Rua Bolívar. Por casualidade, era um domingo ensolarado. No bairro, os turistas tocavam em tudo e compravam pouco. Gonzalo fumava, enfileirava cigarrillos que o nublavam ainda mais o humor. Mas ainda assim resolvi contar sobre aqueles dias, a viagem a La Plata, sobre como impactou em  mim  aquela conversa que tivemos. E sobre as relações estranhas que pude encontrar naquele trem da Linha General Roca entre os guarda-chuvas e a poesia. Gonzalo alcançou o troco para o cliente que saía, diminuiu o volume da vitrola. E mal tirou o cigarro da boca para propor que vendêssemos juntos os guarda-chuvas e os livros. Que afinal seria um aluguel a menos, que poderia soar curioso para os estrangeiros. Que eu trouxesse logo os meus guarda-chuvas da Rua Estados Unidos.

* Conto selecionado para publicação no III Concurso Literário da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila)

Sant Adrià de Besòs

Posted in Sem categoria by iurimuller on 10 de março de 2014

 

Foi por uma indicação de um taxista, ainda no aeroporto de Barcelona, que chegou pela primeira vez a Sant Adrià de Besòs. Era uma noite de março, fazia frio, e pouca gente desembarcava no terminal por aquelas horas. Com uma mala bordô pendendo no braço direito, caminhou sem rumo por minutos, sem disfarçar o fato de que nunca antes estivera em terras catalãs. Antes de sair pelo portão principal de El Prat, decidiu perguntar em espanhol para um homem que, sentado e só, parecia esperar por questionamentos: o senhor saberia me indicar um hotel barato em Barcelona? Eu preciso ficar um tempo por aqui, não precisa ser muito no centro, senhor.

Minutos depois, estava rodando no carro amarelo e negro pelas autopistas, rumo ao arrabalde. De forma muito democrática, mais até do que um taxista está acostumado, ambos combinaram que a viagem seria para Sant Adrià de Besòs, pequena cidade que limita com a região leste de Barcelona. Com as mãos firmes no volante, como que para impedir a chegada do sono, o homem garantiu que ali os hoteis custariam pouco e o acesso aos bairros interessantes seria simples.

A corrida custou caro, tanto que tirou três ou quatro notas de euro da carteira, mas em nenhum instante ele duvidou da seriedade do taxista e do acerto na escolha. Desde a chegada numa Barcelona gelada e com poucos turistas, dormiu a imensa maioria das vezes em Sant Adrià, com exceção de noites que se estenderam para impensadas camas do bairro Gótico, resultado do feitiço da búlgara Anastasia. Mas ele ainda pode lembrar o taxista indicando com o dedo para fora do carro aí está Montjuïc, aí se pode ver uma parte do parque olímpico, à direita está o cemitério, mas agora não dá para enxergar bem, tu podes voltar durante o dia – e lá se vão cinco meses difíceis.

O mais hostil deles parece ser este agosto abafado em que os relógios de rua marcam 30º e o dinheiro começa a rarear para ele de modo preocupante. Antes, os percalços eram resolvidos (mentalmente, se não no sentido prático) desta maneira: pensava que estaria pior em Madrid, estaria pior em Porto Alegre, não há o que reclamar e é preciso insistir um pouco mais. Mas o que se viu depois foi uma série de inundações – o pessimismo chegava em ondas, a crise financeira e social cercava a todos e deixava como náufragos também os moradores provisórios, os que, como ele, provisoriamente não sabiam quando voltariam e de que maneira abandonariam Barcelona.

Duas semanas depois de se instalar no Hotel Sant Roc (duas estrelas, café da manhã incluído na diária, pequeno terraço com plantas confortável para a leitura), conseguiu um emprego de meio turno num café das proximidades, e já tinha em mente os primeiros artigos que escreveria para o jornal brasileiro que estava bancando o início da viagem. Além disso, o cotidiano em Sant Adrià o fascinava pelo tanto de inesperado que havia ali – mesas sempre postas nas ruas, poucos carros nas artérias secundárias, um comércio de bairro, imigrantes árabes (de tantos lugares) e latino-americanos. Estava a vinte e cinco minutos dos bairros mais movimentados de Barcelona, mas pela janela do quarto o que enxergava de mais grandioso era a autopista que levava os carros para Girona.

***

O primeiro artigo que enviou para o Brasil (trezentos euros, cinco páginas em Times New Roman, fonte 12, espaçamento 1,15) foi escrito em dois dias e o satisfez. Basicamente, entrevistou imigrantes que pensavam em regressar ao país de origem com a chegada da crise na Europa e as melhores possibilidades que viam outra vez na América Latina. A maior parte deles tratava a permanência na Espanha como definitivamente inviável, e que esperavam prosperar assim que regressassem. Mostrou o texto para Anastasia, que disse ter ficado curiosa com as descrições de Lima e Guayaquil, cidades que ele tampouco conhecia. Os entrevistados entrariam num avião nos próximos meses, em fuga do desterro, enquanto ele continuava à espera de motivos para ficar por mais tempo.

Para escrever o segundo artigo teve de atravessar a cidade a bordo do metrô: da estação Artigues, no extremo leste, em direção à Cornellà, no oeste. São dezesseis estações e duas trocas de linha, em pouco mais de uma hora de deslocamento. Em Cornellà de Llobregat, assistiu ao enfrentamento futebolístico entre Espanyol, o clube azul e branco de Barcelona, e Real Sociedad, equipe das mesmas cores com sede em San Sebastián, no País Basco. Embora o pano de fundo do texto tenha sido mesmo o futebol, havia um claro interesse antropológico e político: a partida estava sendo disputada na Espanha, e de um lado uma torcida cantava em catalão, e do outro a parcialidade visitante respondia firme em basco.

Escreveu, portanto, sobre as muitas línguas que formavam aquela nação e as particularidades políticas que atravessam o futebol. O fato da torcida do Espanyol – menos separatista do que o rival Barcelona, é certo – estender uma bandeira da Espanha no seu estádio deixou tudo um pouco mais confuso. Ao retornar da partida, já no entardecer, repartiu o vagão do metrô com dezenas de bascos entristecidos com a derrota. Resolveu descer na estação da Sagrada Família e tomar uma cerveja na calçada, apesar de ali as bebidas custarem um pouco mais do que em Sant Adrià. Nos poucos instantes em que permaneceu sentado, viu um paquistanês vendendo flores, um argentino vendendo mapas, uma portuguesa vendendo a sua cerveja e turistas brasileiros que tiravam fotos de maneira desesperada, antes que as últimas luzes do céu se desgrudassem do contorno da igreja.

Já estava outra vez no metrô, cansado e com vontade de se atirar na cama para esquecer o perfume das rosas do Paquistão e os gols perdidos pelo ataque da Real Sociedad, quando, quase que por inércia, abriu os emails na internet do celular. Há dias em que nada de importante aparecia na caixa de entrada, mas ali estava uma notícia: o editor da publicação brasileira lembrava que o prazo para o segundo artigo se encerrava no dia seguinte, e já alertava que seria difícil enviar dinheiro para contribuições nos próximos meses. A revista passava por momentos complicados, avisava o editor, e os diretores pensavam inclusive em eliminar a edição impressa ou reduzir drasticamente a periodicidade. De qualquer maneira, deixou para se preocupar na manhã seguinte, pois o sono era mais poderoso do que qualquer mau presságio.

***

Anastasia, acho que não haverá mais remessas para os artigos, esta foi a última. E apenas com o dinheiro do café não consigo ficar por aqui muito mais tempo, falou, entre nervoso e aturdido.

Anastasia, há dez anos em Barcelona, desde os quinze, portanto, se virava muito melhor do que ele. Era fotógrafa de uma publicação independente, ofício que não rendia qualquer dinheiro, mas a aproximava de gente interessante; para compensar, trabalhava à noite num restaurante e nos finais de semana como recepcionista num hotel pós-moderno da Cidade Velha. Foi ela que insistiu para que não deixasse de escrever. Se aquela revista havia desistido, existiam outras. Barcelona era uma cidade cara e difícil, tão enlouquecedora que poucos jornalistas devem ter resistido por aqui, ela disse, de modo que os artigos podem ser enviados para outras cidades do Brasil, para outros países do continente.

Era a hora de fazer um esforço, quem sabe escrever sobre outros temas, quem sabe escrever ficção?, continuou Anastasia. Ele, entretanto, sabia bem que desde os anos 1980 as publicações não pagavam mais para estampar literatura nas suas páginas, a não ser que fosse o caso de um Mario Vargas Llosa (nos anos 1990), de um Ferreira Gullar (nos 2000) e de um Alan Pauls (nos dias de hoje). Mas entre atravessar de leste a oeste o mapa do metrô de Barcelona para assistir a jogos de futebol e se arriscar na literatura, preferia tentar a segunda alternativa. Ainda que não tivesse tantas ideias prévias, e sim umas ganas enormes de imitar o estilo de Julio Cortázar, escrito que tanto havia lido nos últimos tempos.

Poderia escrever, pensou, uma versão contemporânea do conto em que os moradores de uma casa se vêem acossados por forças misteriosas dentro da própria residência. Ambientado em Barcelona, a própria cidade acabaria por encurralar o narrador-personagem. Começar a carreira literária com um plágio disfarçado de homenagem não me parece promissor, disse a búlgara, que logo amenizou a crítica: mas esta reconstrução mostra que tens alguma criatividade. Escreves sobre o que tu vês ao caminhar pela cidade, os homens estranhos que chegam neste teu hotel. Deve haver alguma história boa por aí, sugeriu.

Desperto pela insônia e o dia vazio, enxergava pela janela os carros que deslizavam pela autopista, os dezenas de catalães que rumavam à Girona naquela noite de terça-feira, formando filas. Eram as únicas luzes que os olhos achavam no início da madrugada; o comércio de Sant Adrià, inteiramente diurno, já tinha suas portas fechadas e as lâmpadas desligadas; nos prédios próximos, todos eles baixos, poucos habitantes pareciam estar acordados. Só não sabia se havia mais vazio no plano que observava ou dentro daquele quarto de hotel – com livros lidos e relidos em cima da mesa, o dicionário ainda selvagem que explicava sem sucesso o catalão, cabides de casacos repetidos, garrafas secas, a planta que clamava por água em silêncio.

***

Como fazem os desorganizados que aspiram encontrar métodos, escreveu numa folha solta de caderno as regras da nova rotina. Às tardes, caminharia por Barcelona, à procura de histórias e de temas para escrever os primeiros relatos. À noite, escreveria o que pudesse, ao menos duas páginas a cada tentativa, porque assim esgotaria o esforço. E durante as manhãs, sempre para ele o mais sóbrio dos turnos, revisaria o que havia tentado fazer na noite anterior, colocando fora as páginas que, mais do que incertas, causassem também algum constrangimento.

Por horas, desbravou avenidas, vagões de metrô, ônibus suburbanos; alugou uma bicicleta, gastou dez euros em tíquetes, perdeu-se e decidiu por fim comprar um mapa. Era turista outra vez em Barcelona, talvez com maior intensidade do que quando chegara na Espanha. Em frente a um prédio decadente de La Barceloneta, viu que um jovem casal saía pela porta da frente com alguma pressa, deixando-a entreaberta. Num impulso, adentrou o edifício. Onde deveria estar o porteiro, enxergou apenas um espelho embaçado. Entrou no elevador e apertou o botão que o levaria ao décimo andar do prédio, o ponto mais alto também da quadra.

Não havia terraço, o corredor desembocava em quatro portas e só havia uma janela, quase em frente à escadaria de emergência. Já estava a observar pela abertura. A primeira visão foi da lateral do prédio ao lado, que mais parecia um imenso caixote impregnado pela oxidação e o tempo. Nas dezenas de janelas, tremulavam, com suas semelhanças, as roupas estendidas e as folhas das pequenas plantas de apartamento. Mesmo ao longe, viu alguns poucos homens e mulheres circulando pelas casas naquele momento da tarde: alguns quase nus, organizando as camisetas na área de serviço; dois homens que conversavam alegremente, com a aparência de estarem ébrios, debruçados numa grade; em cima duma cama alta, um casal fazia o amor como que para mostrar o seu gozo para toda Barcelona.

Estava outra vez na calçada, quase sem fôlego. Ficara por mais de vinte minutos observando a caixa de concreto, sempre híbrida entre o vivo e o morto, o movimento e o silêncio. Ele tinha histórias para escrever, ainda que estivessem até agora desconectadas, à espera de um fio, de uma lógica interna, dos componentes de ficção que modificassem a realidade que enxergou sem qualquer esforço pelo retângulo de vidro de La Barceloneta. Rascunhando os espaços em branco da contracapa do El Tiempo, esboçou as primeiras linhas do relato às margens do Mar Mediterrâneo, sentado na curta faixa de areia, pouco antes da noite se apoderar das ruas e ser atacada pelas luzes dos bares e das lâmpadas amarelas das calçadas.

Anastasia e tantos outros logo caminhariam por este mesmo asfalto.

***

Ela agarrou as duas pernas dele no ponto mais firme das coxas e o puxou para si, quase no limiar entre o desejo e a violência. O sol invadia o quarto e deixava à mostra as imperfeições de cada um; os primeiros pêlos grisalhos da barba e dos cabelos dele, mesmo antes de alcançar os trinta anos, a cicatriz estampada na perna que um acidente ocorrido numa cidade da província causou num passado já remoto; e, no caso dela, a flacidez algo apressada dos seios, a ruga que despontava nas proximidades das têmporas. Mas, mais do que os detalhes que a noite esconde, o sol ampliava a cena para todo o edifício, para os vizinhos, para o bairro burguês de La Barceloneta.

Transaram por quinze, no máximo vinte minutos. Esforçaram-se ao máximo para que houvesse intensidade e não pressa; vontade, e não sofreguidão. Pela janela, o barulho do vento e o ruído longínquo de uma máquina qualquer brindavam um ritmo impreciso ao sexo. Ao fim, deitaram-se em silêncio, contemplativos, sem se valer de frases vazias ou de carícias posteriores. A janela permanecia aberta, escancaradas as suas duas portinholas de madeira, mas a nudez que descansava nos lençóis era recebida com indiferença pelos moradores do edifício, às voltas eles também com seus sons e suas pausas.

No mesmo andar, mas no lado oposto do edifício, numa sacada com vista para a avenida, não parece haver nenhuma prova de que são quatro horas da tarde de um dia de semana. Encostados na mureta, um deles sem camisa, apesar do vento fresco, dois homens conversam em voz baixa.

– No mês que vem, eu volto a tentar trabalhar. Não me parece certo passar os dias em casa se há filas de desempregados por aí, com mais energia e disposição do que eu. Do que nós.

– Eu nunca prometi nada, nem para mim e nem para ti. Vou na cozinha e volto com o segundo vinho.

Dois andares abaixo, na habitação que permite ainda assim um amplo plano da cidade que se espalha ao longo das margens litorâneas, as cortinas estão fechadas e pouca luz consegue preencher o ambiente. Hoje ele beira os sessenta anos, e há dez repete os mesmos hábitos dentro de casa. Quando abre a porta de entrada, por exemplo, a primeira coisa a fazer não é pendurar o casaco no cabide, ou acender a luz da cozinha; ele vai até a sala (tateando nos móveis, se já estiver escuro) e aperta o botão da televisão. O aparelho ficará ligado até que saia outra vez, e dele sairão os únicos diálogos, as únicas vozes a habitar aquelas paredes (…)

Bem, o que quer que eu diga?, disse Anastasia ao entregar de volta a ele a folha impressa. Está bom, eu gostei. O texto começa de forma estranha, não se sabe bem para onde vai, o que pretende… é como o que fazemos nesta cidade há tanto tempo, não é? Eu achei a tua cara.

Março de 2014

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