Calle Soriano

Edifício Paris

Posted in Sem categoria by iurimuller on 20 de janeiro de 2014
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Foto: la diaria

A tua vida é uma história triste.
A minha é igual à tua.
Presas as mãos e preso o coração,
enchemos de sombra a mesma rua.
(Eugénio de Andrade)

A água que abastece os quase setenta apartamentos do Edifício Paris, esta elevação de concreto no centro da cidade, ainda era aquecida através de um sistema rústico. Todos os dias (mais de uma vez por dia), o encarregado pela engrenagem enchia a antiga caldeira de lenha e colocava em funcionamento os aparelhos. Durante certo tempo, houve um funcionário contratado especificamente para o serviço. Hoje, quem faz isso é o próprio porteiro do prédio, que ainda precisa atender aos caprichos dos vizinhos e estar às voltas com os andarilhos da região.

Não só a administração do Edifício Paris era distinta em outro tempo, mas também o cenário do centro da cidade. Os inferninhos que hoje brotam em cada esquina, como a pior das ervas dos córregos, eram apenas dois ou três há vinte anos, e tão inocentes que a classificação soaria agora como exagerada. Além do mais, o concreto ainda não havia esfarelado tanto, os prédios não haviam perdido a cor, não passavam tantos carros e não sentíamos tanto medo de caminhar pelas ruas depois das dez horas da noite. Ou já havia tudo isso, e apenas pensávamos mais em outras coisas e menos em nós mesmos e em nossas dúvidas.

Ernesto, porteiro durante a noite e a madrugada, sabe bem como estabelecer a comparação. Só foi trabalhar ali por indicação de um tio, que havia exercido o mesmo ofício na década passada. Todas as noites, mesmo as de feriados, mesmo a dos domingos, as noites de temporal, inclusive, ele assume a tarefa de guardião até a manhã seguinte. Boa parte do tempo é vencida em silêncio, basta aceitar os convites que nos lança o tédio. O trabalho consiste em apertar o botão que abre a porta de ferro, cuidar quem é o homem que chega, fazer uma ou duas perguntas para descobrir as intenções desta gente bem pouco criativa. Os intervalos não fogem, costumeiramente, do acesso às caldeiras e das rondas na garagem.

Com origens nas planuras do interior, Ernesto gosta de pensar que não é menos sentinela do que os quero-queros da fronteira, estas aves que se colocam nos galhos de uma árvore ou no alto de um poste para ver a noite passear sem pressa sobre o pampa. Com a rotina já firme na memória, os movimentos do porteiro parecem algo mecânicos: ele deixa a portaria por uns minutos logo depois da meia-noite para conferir se há lenha suficiente para as próximas horas – são poucos os insones do prédio, e se sabe de cor em que apartamento cada um deles vive – e no meio da madrugada, perto das três se a noite é fria, às quatro se faz calor, sai do prédio e caminha até o estacionamento ao lado, que serve de garagem improvisada para o edifício que não conta com espaços subterrâneos para os motoristas.

Está há oito ou nove anos na mesma poltrona – que não foi reformada, assim como os vidros são os mesmos e o letreiro com a graciosa caligrafia que apresenta à calçada a inscrição “Edifício Paris, 976” segue inalterado. Ernesto nunca precisou daquelas televisões portáteis que seus companheiros de profissão adotaram como peça valiosa para vencer o sono. Sempre se valeu do rádio, ainda que no momento esteja enojado com os noticiários. Não com as notícias cada vez piores que assolam os bairros com o medo dos assaltos e das mortes gratuitas – o problema maior é a repetição dos mesmos fatos, como se os radialistas sequer desconfiem que ainda haja quem escute as rádios durante horas a fio. De modo que algumas noites são feitas de silêncio e alguma atenção maior para os ruídos da rua.

Nas quartas-feiras e nos domingos, há o movimento dos torcedores que caminham para a estação de trem que fica a poucas quadras dali. Voltam duas ou três horas depois, e nem é preciso buscar a notícia do placar da partida – ela está escancarada nos olhos baixos, em caso de derrota, ou nas conversas em tom alto, se o dia foi de triunfo. E quando houve empate? Muitos nem voltam para casa, buscam em outro lado o caminho que esteja à altura daquela noite, principalmente nas noites quentes de verão ou primavera. Mais recentemente, há também o barulho das garagens da outra quadra. Ruídos confusos, que interrompem a calma e fazem com que apareça pelos corredores do Edifício Paris uma estranha forma de medo.

Numa madrugada de setembro, ouviu pela primeira vez os tiros que se tornaram frequentes. A poucos metros do edifício, montou-se um local de acerto de contas, como um ringue clandestino em que os crimes do centro da cidade eram solucionados em poucos minutos, no instante mais frio da noite. Dias depois, Ernesto se aproximou daquele lugar. A garagem se abria primeiramente na largura de um brete, não mais, mas logo se ampliava num pátio amplo, com cheiro de flor. Dois homens conversavam baixo, sentados em cadeiras de praia, ambos com revólveres nas mãos. Ninguém disse nada a Ernesto, apenas se apontou para a sua cabeça uma daquelas armas. Foi o suficiente para que não saísse da portaria do prédio pelas semanas seguintes.

É certo que sentiu grande vontade, mas não contou a ninguém sobre aquele descampado que dizia servir de abrigo para os carros. Calou-se mesmo para os moradores com que conversava habitualmente. De alguns, quatro ou cinco, gostava de verdade, sentia um carinho mais forte do que a simpatia do cotidiano. Por outros, sentia escárnio ou desprezo. Havia quem o tratasse mal, quem exigisse favores às seis horas da manhã (como levar o carrinho de supermercado até a porta do oitavo andar, para que assim a Dona Tereza pudesse já organizar o seu dia desde cedo) e havia quem votasse pela sua demissão nas reuniões de condomínio como forma de abater gastos e ver diminuída a despesa mensal.

Com Carlos e Daniel, chegou a jogar futebol nos campos da Zona Sul em algumas tardes. Com Gabriela, que viva no segundo andar, ganhou certo dinheiro consertando obviedades, como torneiras que respingavam de forma rebelde e canos que não conservavam a temperatura ideal para a água. Com Estela, que sorria tão docemente mesmo quando voltava embriagada das festas do Baixo, pensou até que teria alguma chance – e a espera logo se tornou esfarrapada quando a moça se mudou para um condomínio fechado, onde a água era aquecida por um moderno sistema elétrico, e não por caldeiras construídas nos anos 1950. Caldeiras alimentadas apenas por ele, a única criatura que se mantinha sempre vigilante entre as cento e cinquenta almas daquela torre.

A caldeira funcionava assim: no início da manhã, ainda no turno de Ernesto, um caminhão descarregava os sacos de lenha num depósito situado nos fundos do edifício. O lugar, melhor um galpão, hoje em dia funcionava apenas para isso, para guardar madeira nova e madeira apodrecida. Ao longo do dia, o porteiro que estivesse em serviço rumaria ao depósito, carregaria alguns quilos de lenha e colocaria o recipiente na caldeira. A fornalha logo alcançaria o calor e os gases necessários para, num sistema de tubulação, entregar água quente aos apartamentos do Edifício Paris. Foi assim até que, numa tarde de fim de ano, os condôminos decidissem pela aposentadoria daquele método que já se supunha arcaico.

Sem grande demora, a substituição do grande forno por um sistema elétrico, o fim dos recebimentos de lenha e a consequente mudança no quadro pessoal foram acordados na reunião de condomínio. A velha estrutura não seria demolida, destruí-la custaria mais caro do que deixar as máquinas às traças, como fizeram ao fim. A decisão mais surpreendente talvez tenha sido mesmo a demissão de Ernesto, ainda que poucos tenham pedido a palavra para questionar a necessidade daquilo. O porteiro noturno sairia porque, sem o trabalho de manejar a caldeira, seria possível contratar alguém ganhando menos, e quem sabe alguém mais moço, mais disposto a contribuir para o crescimento do condomínio. Provavelmente o funcionário de uma firma terceirizada. Lá pelas tantas, alguém argumentou que inclusive havia visto o Ernesto com os delinquentes do estacionamento da outra quadra, naquele pátio onde se encomendavam e entregavam crimes.

Apenas dois dias depois, o síndico, homem que passava as tardes a percorrer os corredores do Edifício Paris e fiscalizar se havia alguma lâmpada queimada, tratou de avisar o porteiro da demissão. Como justificativa, entregou a ata do encontro de moradores. Ernesto preferiu não ler, indignado que estava. E ficou mais ainda quando o síndico avisou que ele não poderia sair agora, mas só quando encerrasse aquela noite de expediente. Afinal, não daria tempo de contratar alguém para substituí-lo durante a madrugada. Aquela foi uma noite longa. Para Ernesto, pouco importava os barulhos da rua, dos carros. Cada som parecia formar uma prolongada e triste canção, resistente ao sono, que perduraria nos ouvidos até a manhã seguinte. Manhã em que, sem se despedir de ninguém, juntou os seus poucos pertences na mesa da portaria (um boné que ganhou de cortesia do supermercado, a revista que gostava de reler, o rádio a pilhas) e saiu a caminhar pelas travessas do centro.

Quase nunca caminhava por ali, como fizera no primeiro e estranho dia de liberdade, ou de desemprego. Quando saía do Edifício Paris, se dirigia sem rodeios para a parada de ônibus. As compras e as necessidades da rua eram todas feitas no bairro em que vivia. Numa tarde, havia ido ao cinema – mas faz tanto tempo que seria difícil recordar o filme, ainda que lembre ter pedido pipoca e uma água com gás. Com a carta de demissão nos bolsos, caminhou longa e calmamente pelo centro. Atravessou ruelas que antes só havia visto com o olhar apressado, sentou num banco de praça para observar o movimento dos passantes. Faltava muito para o almoço e já sentia fome. Pensou que este era um sentimento perigoso, que sem o salário da portaria seria difícil achar comida todos os dias.

Depois de comprar um saco de amendoins por poucas moedas, chegou, quase que por acaso, numa das ruas principais daquela zona, onde em outros tempos ainda passava o rio. Viu músicos, mágicos, charlatães, gente que se virava como podia para arranjar os trocados da sobrevivência. E no instante seguinte encontrou o primeiro cego a vender bilhetes de loteria. Que maldade, pensou, que má é a cidade em que os cegos precisavam se atirar nas calçadas, gritar números que jamais sairiam, ofertar bilhetes que talvez já estivessem até mesmo caducos. Foi a visão que mais o entristeceu: imaginou que daqueles papeis não poderia sair prêmio algum, apenas mais comprovações da desgraça. Como num truque sem graça, avistou mais cegos com seus bilhetes por outras das esquinas pelas quais caminhava. Foi quando notou que, a julgar pela procura do trabalho, os cegos estavam mais a salvo do que ele, o Ernesto sem emprego e com pouco dinheiro no bolso das calças.

Adiou a volta para casa durante horas, até o instante em que decidiu embarcar num dos ônibus azuis, na parada mais próxima ao Edifício Paris. Pagou a passagem sabendo que era possivelmente a última vez em que fazia aquele trajeto, antes comum a todos os dias. Nem bem abriu a porta de casa, percebeu que resistiria por pouco tempo na cidade, ao menos daquela forma. Nem era tanto o desemprego que o afligia, mas as imagens que tinha acumulado e que agora voltavam todas aos olhos. A cidade era bela, reconhecia, mas passara tempo demais contemplando sem notar a sua mais parte mais cinza. Talvez essa tenha sido a causa de estar tão seco por dentro, de ter antecipado as decisões. Em poucos minutos, acomodou o que tinha dentro da mala. As contas que ainda tinha para pagar ficaram em cima da mesa. Manteve a última ficha de ônibus na palma da mão, segurando-a firme para que não escapasse pela tarde de vento.

Desceu do ônibus na Rodoviária e descobriu que tinha tempo para tomar um café preto nalgum dos bares da estação. Pediu a taça grande e ficou a folhear jornais, hábito que havia abandonando nos últimos meses de profissão. Em poucos minutos, leu que o prefeito, amedrontado nos últimos dias, havia viajado aos Estados Unidos, e que logo seria construído o novo aeroporto da cidade. No caderno de classificados, viu que certa imobiliária oferecia apartamentos de três quartos no “condomínio Edifício Paris, situado em elegante região do centro”.  Riu com o canto da boca da ironia daquela situação e entendeu que era mesmo o momento de ir embora, de voltar para a fronteira ao menos por uns tempos, para tirar dos olhos um pouco daquele cinza.

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