Calle Soriano

Ambições minúsculas

Posted in Cotidiano by iurimuller on 31 de julho de 2013
Foto: Iuri Müller

Foto: Iuri Müller

(Este post é inspirado neste outro aqui, do Milton Ribeiro. Em alguns pontos – que não são nada mais do que expectativas – concordamos quase que literalmente.)

Vivo em Porto Alegre há poucos meses, desde abril. Passei apenas quinze dias sem trabalhar, e naquela quinzena houve tempo de sobra para o ócio – ainda que fosse o ócio nervoso da incerteza na nova cidade, mas doce porque recém havia retornado de uma viagem interessante. Nos meses seguintes, houve períodos em que trabalhei menos e que trabalhei mais – e houve junho, no qual apenas trabalhei.

Desde então, é claro que de alguma maneira encontrei algum tempo para ver filmes no Guion, comprar livros na Rua Uruguai e até ler uns quantos deles. Houve, até, chance de se viajar para cidades próximas, visitar amigos e gente querida. Mas principalmente nas últimas semanas tem me saltado uma vontade enorme de arranjar espaço para uma porção de coisas, a maior parte delas aparentemente possíveis de serem levadas a cabo – o que aumenta a (ainda) leve agonia de não as verem acontecendo.

A primeira ambição é estritamente literária. Ler o romance incompleto de Bolaño, iniciado em março e nunca terminado; ler as últimas duas partes de Sobre heróis e tumbas, de Sábato; finalizar a longa reportagem que o Juremir Machado tratou de escrever sobre o Jango. Até aí, nada que pareça um devaneio: mas nos últimos dias me caíram nas mãos dois tomos de Horacio Verbitsky sobre a história política da Igreja Católica na Argentina, no mesmo momento em que a nova edição de Os miseráveis passa a me dirigir olhares mais ostensivos. Infelizmente ainda resisto.

A segunda ambição é quase módica. Gostaria de abandonar ao menos uma das espécies de pressa que vive em mim – a indiscutivelmente desnecessária. Talvez seja um dos ônus mais assustadores do jornalismo, inclusive: preocupar-se quase em tempo integral, esteja ou não a matéria atrasada, permanecer diariamente insatisfeito, mesmo que a semana tenha sido produtiva e os textos planejados tenham sido escritos. A ideia é ignorar a rigidez do horário de almoço e passar mais vinte e cinco minutos no café de sempre, ou deixar dois ônibus passarem enquanto, na parada, permaneço com um livro na mão. Nenhum grande pedido, nenhuma remota ilusão: espero.

A terceira ambição se refere ao cotidiano em Porto Alegre. É preciso ver mais o Grêmio na Arena do Humaitá, mesmo que o estádio não tenha me convencido de verdade; deixar de comprar comida no mercado e voltar a cozinhar em casa – ou ajudar a cozinhar em casa, para ser sincero e, ao mesmo tempo, grato pela companhia de todos os dias. Neste instante da listagem, incluiria um dos anseios mais complicados: encontrar tempo e condições para escrever com mais frequência, para além da reportagem e da notícia. Não pode ser tão difícil assim.

Nenhuma das pretensões remete a transformações devastadoras, o que talvez seja o resultado dos dias bonitos que vivo por aqui. Eu aceitaria inclusive centralizar em alguns pontos, abandonar duas ou três ambições: Jango, Bolaño e Verbitsky em agosto, Os miseráveis para depois; mais vezes com o Grêmio na Arena, mas a pressa ainda zumbindo no ouvido, como agora. Ao menos eu não peço caravanas imediatas para Lisboa, como o Milton Ribeiro. Acho que posso ser atendido.

***

Abaixo, a razão pela qual é preciso investir no romance incompleto de Roberto Bolaño. Trecho do capítulo cinco:

“Yo, pensó Amalfitano, que fui un niño inventivo, cariñoso y alegre, el más listo de mi preparatoria perdida en los lodazales y el más valiente de mi liceo perdido entre las montañas y la bruma, yo que fui el más cobarde de los adolescentes y que durante las tardes de combate con honda me dediqué a leer y a soñar reclinado sobre los mapas de mi libro de geografía, yo que aprendí a bailar el rock and roll y el twist, el bolero y el tango, pero no la cueca, aunque en más de una ocasión me lancé al centro de la ramada, pañuelo en riestre y jaleado por mi propia alma pues no tuve amigos en esa hora patria sino más bien enemigos, huasos puristas escandalizados por mi cueca con taconeo, la heterodoxia gratuita y suicida, yo que dormí las borracheras bajo un árbol y que conocí los ojos desamparados de la Carmencita Martínez, yo que nadé una tarde de tormenta en Las Ventanas, yo que preparaba el mejor café de mi departamento compartido con otros estudiantes en el centro de Santiago y mis compañeros, sureños como yo, me decían qué bueno tu café, Óscar, qué bueno tu cafecito, aunque un poco fuerte si hemos de ser francos, demasiado italiano si hemos de ser francos, yo que oí el canto de los Huevones Integrales, una y otra vez, en las micros y en los restaurantes, como si me hubiera vuelto loco, como si la Naturaleza, afinándome el oído, hubiera querido advertirme de algo tremendo e invisible, yo que entré en el Partido Comunista y en la Asociación de Estudiantes Progresistas, yo que escribí panfletos y leí El Capital, yo que amé y me casé con Edith Lieberman, la mujer más hermosa y cariñosa del Hemisferio Sur, yo que no supe que Edith Lieberman se merecía todo, el sol y la luna y mil besos y luego otros mil y mil más, yo que tomé copas con Jorge Tellier y que hablé de psicanálisis con Enrique Lihn, yo que fui expulsado del Partido y que seguí creyendo en la lucha de clases y en la lucha por la Revolución Americana, yo que fui profesor de literatura en la Universidad de Chile, yo que traduje a John Donne y piezas de Ben Jonson y a Spenser y a Henry Howard, yo que firmé proclamas y cartas de grupos izquierdistas, yo que creí en el cambio, algo que limpiara un poco tanta miseria y tanta abyección (sin saber todavía, inocente, lo que era la miseria y la abyección), yo que fui un sentimental y que en el fondo sólo quería pasear por avenidas luminosas con Edith Lieberman, una y otra vez, sintiendo su cálida mano en mi mano, tranquilos, amándonos, mientras a nuestras espaldas crecía la tempestad y el huracán y los terremotos del porvenir, yo que predije la caída de Allende y que sin embargo no tomé ninguna medida al respecto, yo que fui detenido y llevado a interrogar con los ojos vendados y que soporté la tortura cuando otros más fuertes se derrumbaron (…)”

Los sinsabores del verdadero policía. Anagrama, 2011.