Calle Soriano

“O estaleiro”, Juan Carlos Onetti

Posted in Literatura by iurimuller on 2 de janeiro de 2014
El astillero, Onetti.

El astillero, Onetti.

Larsen, Kunz e Gálvez, nomes pouco prováveis para aquele povoado do sul, trabalham sete horas por dia nas salas de um estaleiro à beira do abandono. O proprietário, certo Jeremias Petrus, foi um magnata que empregou em algum momento dezenas de operários nas fábricas da região. Mas, naquele instante, os instrumentos e os restos de embarcações oxidam a cada minuto, sem espaço para acreditar a sério numa reviravolta. Mas os três empregados fingem crer muito bem – na redenção da empresa, na vida que levam entre os caminhos encharcados de Puerto Astillero e Santa María.

O romance O estaleiro, de Juan Carlos Onetti, orienta os personagens neste sul lúgubre, palco de hoteis decadentes, mulheres sem rosto, de dinheiro que falta todos os meses, preguiça diária e de fingida preocupação com o futuro. As cenas são invariavelmente nubladas, mas é prazeroso, em meio à bruma, tatear o enredo da novela. Larsen retorna à Santa María, cidade de onde fora expulso há cinco anos. Naquele tempo, ganhou a alcunha de Juntacadáveres e ergueu um prostíbulo no povoado, casa que logo a hipocrisia e as tramas secretas tratariam de derrubar.

É impreciso o seu retorno ao lugar. Alguns juram tê-lo visto outra vez junto às ruas da costa, mas nem o trabalhador de um posto de gasolina admite ter certeza. Pensa que era Larsen, mas chovia um pouco e o caminho estava escuro. É inverno em O estaleiro durante todo o livro. Sem retomar as relações em Santa María, Larsen vive na pensão Belgrano, num dos quartos que o proprietário construiu sobre o bar de mesmo nome. Todos os dias, passa horas lendo e organizando os papeis e documentos da Jeremias Petrus S.A., a empresa que aguarda por uma decisão judicial e pela ajuda de algum ministro para voltar à atividade.

Houve vida no estaleiro, mas quando Larsen desembarca ali são apenas os três. Três homens que fingem acreditar que trabalham duro, que os negócios podem voltar a dar certo; fingem até mesmo que recebem salários dignos e que há algum sentido naquilo tudo. A crença, contudo, aparece sempre com um rasgo de ironia num canto do lábio. É assim também com os dias que passam. Gerente-geral da companhia de Petrus, Larsen se encontra periodicamente com a filha do patrão nos jardins do casarão da família – mas acabará, na última noite do romance, no quarto de Josefina, a silenciosa empregada dos Petrus.

Fala-se muito do pessimismo e dos espaços decrépitos que habitam os livros de Onetti, e são percepções inevitáveis. Mas não há sensação uniforme nestas linhas – de modo que enxergamos também traços de bondade, de resignação e de algum conforto na desgraça, no adiamento das decisões, nos retornos e nas despedidas. Onetti não precisa pintar o sol para enxergarmos Santa María, cidade mal iluminada e pouco receptiva aos forasteiros, cidade na qual que o médico Diaz Grey, personagem também de A vida breve, procura às cegas o primeiro cigarro do dia quando a luz já inundou o porto.

Larsen desta vez não foi expulso do povoado, mas teve de deixá-lo de qualquer maneira. Se derrotado estava, pouco se importou. Tentou até o último momento garantir alguns pesos de Jeremias Petrus – que se viu encarcerado e doente, mas sem nunca deixar de jogar o jogo da trapaça – e de ver Angélica Inês, a filha do ex-magnata, com quem se encontrava periodicamente no caramanchão da casa. Ficou sem o dinheiro e a visita, deixou que o dia e os ventos de Santa María o levassem para outros lados. “Desde muchos años atrás había dejado de creer en las ganancias del juego; creería, hasta la muerte, violento y jubiloso, en el juego, en la mentira acordada, en el olvido”.

No último ano, consegui registrar – ainda que em papeis soltos – todos os livros que li. Para 2014, a intenção é escrever algumas linhas sobre boa parte deles.

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