Calle Soriano

A Copa do Mundo, o PT, o governo

Posted in Política by iurimuller on 8 de janeiro de 2014
Por Ramiro Furquim/Sul21

Foto: Ramiro Furquim

As críticas à realização da Copa do Mundo no Brasil e o grito de “não vai ter Copa” não surgiram com as declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ou de qualquer político do PSDB ou do campo da direita. Há meses, organizações políticas, comitês populares e militantes da periferia denunciaram – e esta denúncia ganhou força e corpo nas manifestações de rua – que o evento traria remoções forçadas, privatização dos espaços públicos e novos episódios de violência policial às cidades que sediarão o Mundial de futebol, como de fato trouxe.

Nos últimos dias, jornalistas ligados ao Partido dos Trabalhadores e políticos orgânicos do PT defenderam a tese de que há uma mobilização, por parte da direita, de fazer uso político do tema e “sabotar” a organização do Mundial. No blog do ex-ministro do Trabalho do governo petista, Brizola Neto, chegou-se a falar que impedir o andamento correto dos preparativos do Mundial seria uma postura de “lesa-pátria”. Para o PT, 2014 começa com a defesa explícita do “sim, vai ter Copa”.

Esta postura, mais do que nada, apenas aumenta o acirramento que já existe entre os governos em que o PT está à frente e os movimentos sociais que se distanciaram do projeto político oficialista. A defesa nada crítica do PT em relação ao evento não é uma decisão nacionalista, mas apenas um movimento político irresponsável. O discurso ignora as milhares de famílias removidas, as comunidades que se viram sem garantias mínimas de autonomia e o estado de exceção que a FIFA impõe, para ficar com apenas três consequências.

Sobre o tema:

Maior parte das famílias da Avenida Tronco ainda espera por definições
– Cinco famílias são retiradas de Santa Tereza para que local receba removidos da Avenida Tronco
– Movimentos sociais e moradores da periferia caminham juntos na Vila Cruzeiro
“Duplicação da Avenida Tronco é uma cicatriz na Vila Cruzeiro”, afirma professor

A contestação da Copa do Mundo e do que ela significa – subserviência a uma entidade estrangeira, corrupta e autoritária, elitização dos espaços urbanos, convites à especulação imobiliária – foi uma crítica essencialmente popular e politizada, com nítidos traços à esquerda. Se o PSDB e partidos de oposição ao governo federal se apropriaram da superfície desta crítica (“a Copa não fará bem para o Brasil e o Mundial pode ser um desastre”) não significa, por nada, que as reivindicações se curvaram a disputas estritamente partidárias.

Mesmo antes de iniciar, a Copa do Mundo trouxe desgraças que passaram apenas ao lado das atenções do governo. Operários morreram em meio às obras dos novos estádios, e seus nomes dificilmente serão lembrados. Em Porto Alegre, a duplicação da Avenida Tronco (rota que foi tratada como estratégica para o evento) fez com que mil e quinhentas famílias fossem removidas da Vila Cruzeiro, bairro em que muitos moravam há décadas. Boa parte dos moradores se queixou do tratamento oferecido pela Prefeitura e muitos se viram sem alternativas para a moradia – e o mais grave é que a justificativa principal (a duplicação) não se concretizará. As obras na Avenida Tronco não serão encerradas até o início da competição.

Porto Alegre, é claro, não é exceção. Os abusos em nome da adequação das cidades ocorreram em São Paulo, em Fortaleza, e estão ocorrendo neste exato momento na Favela do Metrô, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde acontecem mais despejos e enfrentamentos. O governo afirma que a Copa do Mundo possibilitou a realização de uma série de obras que transformariam as capitais brasileiras para melhor. Mas muitas delas estão atrasadas, e em quase todas há um grave custo social envolvido, que parece não ter sido levado em conta.

Na raiz do discurso, está o já famoso argumento do “medo da direita” – de modo que, se a Copa do Mundo fosse de fato um insucesso tremendo para nativos e forasteiros, a oposição (PSDB e mais) se apropriaria do fato para enfraquecer o governo às vésperas da eleição e tentar voltar ao poder. Este discurso se esvazia em seu próprio resumo. O medo da direita como possibilidade cruel não assombra, porque a direita administra docemente o país – ela está presente de forma orgânica neste mesmo governo federal (ou PMDB, PP e PSD são o quê?) e dentro de setores do próprio Partido dos Trabalhadores.

Em 2014, ouviremos mais vezes o grito de “não vai ter Copa”, e não terá sido uma ideia de Fernando Henrique Cardoso.

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