Calle Soriano

“Os rios profundos”, José María Arguedas

Posted in Literatura by iurimuller on 6 de janeiro de 2014
Arguedas, "Os rios profundos"

Arguedas, “Os rios profundos”

“Índios e mestiços gostam muito de falar da morte; nós também. Mas, ouvindo falar dela em quéchua, quase se abraça, como um fantoche de algodão, a morte, ou como uma sombra gelada que oprimisse o peito de alguém, roçando o coração, sobressaltando-o; apesar de chegar como uma folha de lírio, suavíssima, ou de neve, da neve dos picos, onde a vida já não existe”.

“Era uma estrela mais luminosa e gelada que a lua”.

O peruano José María Arguedas, antropólogo, escritor e o autor de Os rios profundos (1958), sentia demais as águas, as montanhas e as planuras do seu país. Ernesto, o personagem deste romance, é tão sensível como o escritor. No livro, ele é um menino que viaja de forma errante pelo Peru, acompanhado do pai, um advogado que permanece por poucas semanas em cada povoado. As viagens, algumas delas longuíssimas e feitas a pé, mostram muito de como se dão as relações sociais e culturais naquelas terras.

Ernesto vê cidades paupérrimas, tomadas por casas de telhado de malahoja, o teto dos índios que trabalham por poucas moedas para os brancos. Observa, também, o comportamento dos pongos, índios que vivem e servem nas fazendas, mas que por momentos precisam atender também nas casas do patrão. Em cada viagem, Ernesto se encanta com a profundidade e a força dos rios, “pontes sobre o mundo”, linhas que dividem o Peru dos brancos com o Peru dos índios.

Mas os passos num certo dia cessam e Ernesto passa a viver num colégio de internos na cidade de Abancay. Ali, suas relações se transformam, e as conversas não se dão mais com pongos e patrões do interior peruano, mas com meninos de idade semelhante. No colégio, estão o padre Miguel, negro como foi San Martín de Porres, estão Valle, Palacitos, Peluca e Antero, companheiros de dormitório, de ócio, com quem Ernesto formula as primeiras impressões sobre a cidade e a juventude.

Neste momento da narrativa, Os rios profundos se assemelha por um instante (ao menos na temática e na atmosfera) com os primeiros contos de Mario Vargas Llosa, publicados sob o título de Os chefes. Em comum, estão os frequentes duelos juvenis, de precipitadas raiva e violência, a espera nos pátios internos do colégio, as primeiras tentativas de antever a vida adulta e a tentativa de doutrinação religiosa. E Abancay, a cidade em que o romance se desenvolve, mostra também a tensão social do país nas primeiras décadas do século XX.

Alguns dias são intensos, e nestes Ernesto pode ultrapassar os muros do colégio. Numa das fugas, chega à fazenda Patibamba, local de fartura para os patrões e de uma lúgubre existência destinada aos indígenas. Ele testemunha a disputa pelo sal, o papel das cholas na luta social – as mulheres desafiam o governo, os padres, enfrentam com a voz e força os destacamentos do exército. E levam o sal para as casas mais pobres das estâncias. Assim Ernesto se encanta pelas lideranças, por Dona Felipa, frequenta as chicherías ao lado de músicos, das cholas, dos soldados.

Se parte do mundo peruano é dos brancos, outra é dos índios e um terceiro trecho já é território mestiço, transculturado, o mesmo acontece com a linguagem de José María Arguedas. As canções populares são transcritas em castelhano e em quéchua, os diálogos têm a frase entrecortada com fragmentos de uma e outra língua. No internato, parte dos alunos se comunica em quéchua – é a forma com que a palavra mais se aproxima da morte, quando beira a essência das coisas que importam: o rio, os ventos, o Pachachaca, o Apurímac, as orações.

Os rios profundos tem, nas suas páginas finais, muito de desespero. Basta caminhar pela cidade – e já havia sido assim em Cuzco – para o menino se deparar com a exploração e senti-la com profundidade. As cholas são perseguidas pelo exército, precisam fugir para as montanhas, atravessar a ponte da cidade. Algumas parecem não escapar dos tiros. Pouco depois, a peste tem início num povoado próximo e caminha em direção a Abancay. Os colonos (índios que pertencem às fazendas) já sentem a febre, estão quase resignados a morrer aos montes. Mas marcham a Abancay para receber a missa. Ernesto, sim, está à salvo e, com o coração modificado pelo que viu, volta a errar pelo Peru.