Calle Soriano

Luz em agosto, de William Faulkner (em conversação com Juan José Saer)

Posted in Sem categoria by iurimuller on 21 de fevereiro de 2017

luz-de-agosto-faulknerBusquei Faulkner depois de ler Juan José Saer: talvez tenha sido um caminho inverso, mesmo para os leitores latino-americanos. Um caminho ao mesmo tempo ao revés (um caminho de volta, talvez) como também inevitável: após ler Saer com algum afinco, torna-se necessário retomar as origens de pelo menos parte – imagino que parte indispensável – do projeto literário que o escritor santafesino levou a cabo. Isso foi algo que me pareceu claro após ler Cicatrices, Glosa e os ensaios teóricos de Saer – ensaios que, em certas oportunidades, como acontece com os que estão reunidos em El concepto de ficción, ocupam-se nomeadamente de Faulkner.

De modo que, neste caminho de retorno, li neste início de ano, neste verão chuvoso no sul do mundo, o Luz em agosto (1932), de Faulkner, na edição da Cosac Naify. Antes, havia lido, não sem temores, não sem interrupções bruscas, O intruso, novela que não me pareceu a melhor porta de entrada para a obra em questão. Com Luz em agosto o processo foi distinto: não um caminho simples, mas quem sabe, sim, o início de algum entendimento do que acontece aqui sobre o como se narra, quantas vezes se narra, qual a direção do texto e como alguns dos artifícios vão alcançar, apaixonadamente, autores como Juan José Saer e Juan Carlos Onetti – para mencionar dois dos escritores do Rio da Prata que devem ao norte-americano traços que do que levaram adiante em posteriores contos e romances.

Em Faulkner, além da “perfeita página esculpida”, como li alguém dizer, está o recurso da repetição da narração para dar conta de um mesmo (e ao mesmo tempo algo deslocado, a cada vez) acontecimento. No caso de Luz em agosto, a linearidade se quebra muitíssimas vezes, e há nítida sobreposição temporal para dar conta, desde a intenção do autor, da travessia de Lena Grove e de Joe Christmas pelo sul dos Estados Unidos: assim, um incêndio, uma fuga, uma conversa ou um assassinato podem ser contatos repetidas vezes, de distintos ângulos, sem, no entanto, oferecer a ilusão de que a multiplicidade das miradas pode oferecer qualquer totalidade ou exaustão de um momento ou sucesso. Há algo desta tentativa (bem como a suposta banalidade de alguns gestos e certa presença demoníaca na narrativa) também em Cicatrices (1969), de Saer.

O que também ocorre, de forma radicalizada e perene, no projeto de Faulkner, é a tantas vezes mencionada construção geográfica que, por momentos, confunde o mapa literário com o plano real do sul dos Estados Unidos. E esta ambientação no ficcional condado de Yoknapatawpha (situado, a partir da caneta do escritor, a noroeste do Mississippi) encontrará semelhança, tempos depois, na zona geográfica em que se ergue, pouco a pouco, a ficção de Saer – a nunca mencionada Santa Fé se estende em seus romances, abarca cidades da região e forma um mesmo núcleo espacial, entre a ficção e os mapas correntes, por onde se movimentarão personagens que igualmente se repetem. Quanto à geografia, pode-se dizer que também em Onetti e na sua Santa María ficcional está a semente de Faulkner, ou ao menos seu desejo e seu impulso.

Por fim, durante toda a leitura de Luz em agosto esteve presente comigo a questão da nomeação no romance: para além do nome de um dos personagens principais (Joe Christmas, cuja correspondência nominal é evidente), o problema do nome encerra outros conflitos, como a busca de Lena pelo homem que a engravidou e que não voltou a encontrar, cujo nome, para ela, seria Lucas Burch, ainda que na nova cidade tenha se apresentado como Joe Brown, e nessa mesma procura Lena acabe por se encontrar com um outro homem, Byron Bunch, que a acompanhará com resignação apaixonada. Mesmo no gesto de nomear há, em Luz em agosto, perda e aproximação, reinvenção e engano.

“O estaleiro”, Juan Carlos Onetti

Posted in Literatura by iurimuller on 2 de janeiro de 2014
El astillero, Onetti.

El astillero, Onetti.

Larsen, Kunz e Gálvez, nomes pouco prováveis para aquele povoado do sul, trabalham sete horas por dia nas salas de um estaleiro à beira do abandono. O proprietário, certo Jeremias Petrus, foi um magnata que empregou em algum momento dezenas de operários nas fábricas da região. Mas, naquele instante, os instrumentos e os restos de embarcações oxidam a cada minuto, sem espaço para acreditar a sério numa reviravolta. Mas os três empregados fingem crer muito bem – na redenção da empresa, na vida que levam entre os caminhos encharcados de Puerto Astillero e Santa María.

O romance O estaleiro, de Juan Carlos Onetti, orienta os personagens neste sul lúgubre, palco de hoteis decadentes, mulheres sem rosto, de dinheiro que falta todos os meses, preguiça diária e de fingida preocupação com o futuro. As cenas são invariavelmente nubladas, mas é prazeroso, em meio à bruma, tatear o enredo da novela. Larsen retorna à Santa María, cidade de onde fora expulso há cinco anos. Naquele tempo, ganhou a alcunha de Juntacadáveres e ergueu um prostíbulo no povoado, casa que logo a hipocrisia e as tramas secretas tratariam de derrubar.

É impreciso o seu retorno ao lugar. Alguns juram tê-lo visto outra vez junto às ruas da costa, mas nem o trabalhador de um posto de gasolina admite ter certeza. Pensa que era Larsen, mas chovia um pouco e o caminho estava escuro. É inverno em O estaleiro durante todo o livro. Sem retomar as relações em Santa María, Larsen vive na pensão Belgrano, num dos quartos que o proprietário construiu sobre o bar de mesmo nome. Todos os dias, passa horas lendo e organizando os papeis e documentos da Jeremias Petrus S.A., a empresa que aguarda por uma decisão judicial e pela ajuda de algum ministro para voltar à atividade.

Houve vida no estaleiro, mas quando Larsen desembarca ali são apenas os três. Três homens que fingem acreditar que trabalham duro, que os negócios podem voltar a dar certo; fingem até mesmo que recebem salários dignos e que há algum sentido naquilo tudo. A crença, contudo, aparece sempre com um rasgo de ironia num canto do lábio. É assim também com os dias que passam. Gerente-geral da companhia de Petrus, Larsen se encontra periodicamente com a filha do patrão nos jardins do casarão da família – mas acabará, na última noite do romance, no quarto de Josefina, a silenciosa empregada dos Petrus.

Fala-se muito do pessimismo e dos espaços decrépitos que habitam os livros de Onetti, e são percepções inevitáveis. Mas não há sensação uniforme nestas linhas – de modo que enxergamos também traços de bondade, de resignação e de algum conforto na desgraça, no adiamento das decisões, nos retornos e nas despedidas. Onetti não precisa pintar o sol para enxergarmos Santa María, cidade mal iluminada e pouco receptiva aos forasteiros, cidade na qual que o médico Diaz Grey, personagem também de A vida breve, procura às cegas o primeiro cigarro do dia quando a luz já inundou o porto.

Larsen desta vez não foi expulso do povoado, mas teve de deixá-lo de qualquer maneira. Se derrotado estava, pouco se importou. Tentou até o último momento garantir alguns pesos de Jeremias Petrus – que se viu encarcerado e doente, mas sem nunca deixar de jogar o jogo da trapaça – e de ver Angélica Inês, a filha do ex-magnata, com quem se encontrava periodicamente no caramanchão da casa. Ficou sem o dinheiro e a visita, deixou que o dia e os ventos de Santa María o levassem para outros lados. “Desde muchos años atrás había dejado de creer en las ganancias del juego; creería, hasta la muerte, violento y jubiloso, en el juego, en la mentira acordada, en el olvido”.

No último ano, consegui registrar – ainda que em papeis soltos – todos os livros que li. Para 2014, a intenção é escrever algumas linhas sobre boa parte deles.