Calle Soriano

Glaxo, de Hernán Ronsino

Posted in Sem categoria by iurimuller on 11 de abril de 2018

“Glaxo”, de Hernán Ronsino. Editora 34, 2017.

Em junho de 1956, meses depois do que se chamou, na Argentina, de Revolución Libertadora – o golpe de Estado levado adiante para destituir o então presidente Juan Domingo Perón – um grupo de civis e militares se rebelou contra o regime vigente, numa tentativa de restituir o antigo governo. O intento não avançou como se imaginava e, entre detenções e emboscadas, dezenas de pessoas acabaram fuziladas – parte das medidas justificada pela recém-promulgada lei marcial, outras de modo inteiramente clandestino.

Ocorre que alguns dos fuzilados não morrem; são dados como mortos nos terrenos baldios de José León Suárez, província de Buenos Aires, mas, mesmo feridos, logram escapar do lugar. No ano seguinte, o escritor e jornalista Rodolfo Walsh entrevistaria os sobreviventes e começaria a contar esta história – a que daria o nome de Operación Masacre, um clássico da não-ficção no continente. Em 2009, mais de cinquenta anos após os primeiros rascunhos de Walsh, o escritor argentino Hernán Ronsino recolhe um dos possíveis fios que se espalham daquele primeiro texto. Pinça um personagem, uma consequência, um destino – e a partir disso monta a sua Glaxo, novela de pouco mais de setenta páginas, e ainda mais intensa do que breve.

Em um movimento de sentido inverso, havia lido sobre Ronsino antes de ler qualquer página da sua ficção. Isso porque o escritor nascido em Chivilcoy, no ano de 1975, foi um dos três autores que a revista El Ansia acompanhou, por semanas, para a primeira edição da publicação. Desde então apontei para dois dos textos de Ronsino: La descomposición e Glaxo, novela publicada no Brasil no final de 2017 pela Editora 34, com tradução de Livia Deorsola.

Se pode ser certo que o primeiro fio de Glaxo toca em Operación Masacre (a começar pela epígrafe, retirada do texto de Walsh), a ficção de Ronsino não depende da leitura prévia do livro dos anos 1950, e muito menos do conhecimento pormenorizado daquele evento da história argentina – em parte porque o século XX, naquele país, está repleto de golpes e sublevações, mas muito porque Ronsino forma, a partir de quatro vozes, um mundo autossuficiente, que se molda pouco a pouco e que o leitor acompanha quase sem perceber. Borges escreveu, quando se referia à literatura gauchesca, que encontrar uma voz para um personagem é, também, encontrar um destino possível, e esta frase tem longo sentido: em Glaxo, temos ao menos quatro vozes e quatro ou mais destinos, vidas que se encontram, se cruzam, se enfrentam.

Glaxo é o nome da fábrica da cidade em que habitam, entre outros, Flaco Vardemann, Bicho Souza, Miguelito Barrios e o suboficial Folcada; o ponto de referência para um povoado de província, cidadezinha marcada pelos trilhos do trem, e que a novela nos mostra em quatro momentos distintos da história. Em 1973, a partir da voz do barbeiro Vardemann; em 1984, narrada desde o relato de Bicho Souza; no inverno de 1966, segundo o que conta Miguelito Barrios, funcionário da estação ferroviária; e em dezembro de 1959, quando Folcada descreve a sua sina e amarra as pontas que, antes, percorrem a novela sem se fechar de todo.

Vardemann narra desde a casa em que vive com o pai, moradia contígua à barbearia em que trabalha. Conta, com alguma displicência e o tom neutro, o sucesso dos dias que avançam, sem grandes transformações; o pai está velho e fraco, há uma obra importante nas linhas do trem, Vardemann se relaciona sexualmente com Dona Marta, que trabalha na casa, e em algum momento faz uma visita a Miguelito Barrios, seu antigo amigo, que por aqueles dias parece muito doente. Bicho Souza, por sua vez, se senta no bar Don Pedrín, muito próximo ao cinema local, onde acabou de assistir a Last Train from Gun Hill, filme que havia visto muito antes, na juventude, com os amigos do bairro. No bar, se encontra com o Gordo Montes, que o comunica sobre um reencontro algo improvável: avistou, na cidade de Saladillo, a Negra Moreira, mulher que havia habitado – com ruído e desordem – a cidadezinha. Era ela a responsável pelo bar que funcionava nas cercanias da Glaxo.

Miguelito Barrios, em 1966, escreve também a partir de uma visão: enxergou, na estação ferroviária, o Flaco Vardemann, que retorna após anos de ausência – escreve que volta antes do que se pensava, que foi liberado antes do tempo. Escreve sobre a imaginação da própria morte, sobre os fantasmas do pensamento, e também sobre a rotina do trabalho na estação, a forma com que se encontrou com a Negra Moreira, então companheira de Folcada, sobre a viagem para Buenos Aires, quando se sentaram, ela e Barrios, no mesmo vagão, os passeios por Palermo e a fuga até então inesperada para um hotel no Once; sobre a primeira traição, portanto.

É Folcada quem narra por último; e, diferentemente dos três outros relatos, narra sem intervalos, sem pausas. Relata, em um só fôlego, a origem, uma dúvida e um plano. Folcada foi parar na cidade da Glaxo não por vontade própria; acabou enviado para lá depois de fracassar em seu trabalho quando dos episódios de José León Suárez. Havia atirado em alguém, mas não confirmado a morte da vítima. E agora havia um sobrevivente e um livro, diz. Sabemos de que livro se trata. Conta também que, em Buenos Aires, numa festa no bairro de La Boca, havia conhecido a Negra Moreira, que com ele se dirige à nova cidade. E relata, entre convicto e obsessivo, a dúvida: um dos seus conhecidos, um dos rapazes do bairro, está saindo com Moreira, um deles é o responsável pela traição que não enxerga, mas que por algum motivo sente. Folcada procura Barrios, quer um informante; e Barrios quer um favor, ou ao menos é assim que decide. E então as coisas se precipitam, mais velozes, e o cruzamento dos destinos se torna palpável, explícito.

Hernán Ronsino monta a rede de Glaxo, geométrica e opaca, histórica e ao mesmo tempo particular, com frases curtas e páginas breves; não precisou de mais – as vozes se assentam, as sortes se narram. E, ao final da primeira leitura, retornamos quase que inevitavelmente para a primeira página, ou mesmo para a epígrafe de Rodolfo Walsh, que anuncia o texto e já lança aqueles dados.

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Sobre “A ocasião”, de Saer

Posted in Sem categoria by iurimuller on 12 de setembro de 2017

Busquei a edição brasileira de A ocasião, de Juan José Saer, por um estranho e certamente contraditório motivo: voltar a ler algo em português em meio à maratona de leituras hispânicas, boa parte dela, justamente, feita de textos de e sobre Saer. Foi a forma encontrada para, ao mesmo tempo, voltar ao meu idioma e não me afastar do texto do autor neste momento. A tradução de Paulina Wacht e de Ari Roitman para a Companhia das Letras foi editada em 2005 no Brasil, e A ocasião aparece ao lado de A pesquisa, Ninguém nada nunca, O enteado e O Grande entre os livros de Saer que a editora publicou. O estranho é que o autor não consta mais no catálogo da editora em seu site, e não sei dizer se isso se deve a um critério editorial, a algum erro ou desatenção ou se a editora perdeu os direitos de publicação do escritor no país.

A ocasião (1988, no original) é um texto-chave para entender o processo de escritura de Saer: no breve romance, estão presentes alguns dos elementos reiterados da sua narração, certas obsessões temáticas e um trabalho particular de linguagem. Se a frase e o parágrafo por vezes são esticados, enovelados e reencaixados ao infinito em textos como Ninguém nada nunca e Glosa (sem tradução para o português), em A ocasião o que se vê é um Saer digamos que mais veloz: aqui, a linguagem por vezes se ocupa mais das pretensões do enredo do que do seu próprio recolhimento, e as diversas modulações no tempo da narrativa também estimulam o emprego desta quase velocidade.

Espécie de pré-história dos textos que se ocuparão do território de Santa Fé em seus romances, o texto se afasta da temporalidade de personagens conhecidos da constelação literária do autor, como Tomatis, Gato e Pichón Garay e Washington Noriega, por exemplo, e se infiltra na relação entre Bianco, um ocultista europeu que, perseguido pelos positivistas de Paris, se exila na Argentina do final do século XIX, e Gina, uma jovem santafesina que logo se aproxima de Bianco. Entre Gina e Bianco, pairam umas quantas dúvidas – indefinições persistentes, angustiantes (ao menos para Bianco, visto que Gina parece, com o passar das páginas, se encastelar em um estoicismo inquebrável e silencioso) e que acabam por se tornar labirínticas.

O ponto de inflexão do texto, rapidamente perceberá o leitor, acontece no momento em que, depois de cavalgar sob chuva, entre o final de uma tarde e o começo da noite, da sua cabana no campo em direção à casa na cidade, Bianco encontra Gina em uma ocasião ambígua com o seu único amigo no país, o doutor Garay López – médico em Buenos Aires, herdeiro de uma das tradicionais famílias da região e sempre disposto ao galanteio inconsequente, às caminhadas com Bianco por este novo lugar e à conversação sobre o que separa e distingue o espírito da matéria; discussão que, para o europeu, custou a viagem para além-mar, o desterro e quem sabe o arrefecimento dos seus poderes.

Desde então, a mesma cena retorna, uma e outra vez, nunca com as mesmas cores, sempre mais sórdida, em uma escalada enlouquecedora, à memória de Bianco, que não pode mais viver em paz sem descobrir se houve de fato algo entre a sua mulher e o amigo: “Sentada numa poltrona, com o pescoço apoiado no encosto, a cabeça um pouco jogada para trás, as pernas esticadas e os calcanhares apoiados em outra poltrona, os sapatos de cetim verde jogados ao acaso pelo chão, Gina, de olhos semicerrados e expressão de prazer intenso e, para Bianco, um tanto equívoco, está dando uma profunda sugada num grosso charuto que sustenta entre o indicador e o dedo médio da mão direita. Em outra poltrona, com um cálice de conhaque na mão, um pouco inclinado na direção dela, Garay López lhe diz alguma coisa com expressão malévola, e Bianco não consegue saber se a expressão de prazer de Gina vem do charuto ou das palavras de Garay López que ela, apesar dos olhos semicerrados, parece ouvir com atenção sonhadora” (p. 29-30).

É Garay López o personagem que aproxima, no interior da obra de Saer, os textos que se situam antes, no tempo da narrativa, com os contos e romances contemporâneos do cosmos santafesino. A família Garay, tida como uma das fundadoras da cidade, desta zona geográfica na qual mergulha Saer, aparece de modo onipresente em sua obra: para além dos irmãos Gato e Pichón, protagonistas ou personagens secundários em distintos textos, também há espaço para o Garay López, o melancólico juiz de Cicatrices e, em A ocasião para o personagem homônimo, central para o desenvolvimento da narrativa.

A reiteração dos nomes próprios e dos sobrenomes e o vínculo com romances e contos anteriores coabitam este espaço de repetições com a incidência dos fenômenos naturais, do calor, das estações indefinidas, da chegada de tormentosas chuvas no enredo: como em outros textos de Saer, o clima incide bruscamente na narrativa, move algumas das ações dos personagens, desloca algumas convicções. Afugenta ou atrai mosquitos, atiça o ânimo dos cavalos, provoca cenas ambíguas entre seres humanos, espalha ou impede o avançar da peste.

Hombre en la orilla, de Miguel Briante

Posted in Sem categoria by iurimuller on 21 de setembro de 2016
A edição de 2013.

A edição de 2013.

Atento, há meses, para um aspecto da obra de Juan José Saer: a rede que se forma, em seus romances e contos, com acontecimentos e personagens que se tocam, de um texto para outro, e formam, pouco a pouco, por vezes crescendo e em outras retrocedendo, um conjunto de associações (de um enorme intertexto interno) nada linear. De outro modo, em diferente proporção, e com, mais do que nada, distinta proposta narrativa, há algo assim na literatura do também argentino Miguel Briante, como provam os quatro textos deste Hombre en la orilla, publicado pela primeira vez no ano de 1968.

Desconhecia os livros e mesmo o nome de Briante, nascido em General Belgrano, Província de Buenos Aires, em 1944, e morto precocemente na década de 1990, até o momento em que me deparei com um conto: “Fin de Iglesias”, se chama o texto, escolhido numa oficina literária (de José María Brindisi) que trabalhava o gênero conto na Argentina e mais além. Pude notar, em “Fin de Iglesias”, o esforço literário em levar a oralidade de um povoado de província para a ficção, o enredo que se firma em episódios locais, e a crença, que persiste também no livro em questão, de que os problemas e os conflitos da literatura podem ser encontrados, quem sabe todos eles, nas teias algo minúsculas e ensimesmadas de uma pequena cidade do sul do mundo. As linhas do conto, como em Saer, saltam para o que se vê nos relatos e na novela de Hombre en la orilla.

É certo que os quatro textos do volume podem ser lidos de maneira independente, com visível autonomia: os silêncios e espaços em branco são marcas de um estilo e de uma proposta, e se acabam preenchidos depois, em transposições sutis, como acontece com Briante, isso em nada diminui a força de unidade de cada relato. Pode-se ler “A lo largo de esta calle que da al río”, o mais longo dos textos, que se aproxima de uma novela, sem retornar aos contos anteriores, mas a leitura completa do volume (e de outras peças mais da obra de Miguel Briante, como já posso crer) irá tocar com algo novo as lacunas e levar outro gosto à página. Como Saer, e talvez a semelhança não se estenda mais do que a este aspecto, há, aqui, a construção de uma obra pensada em conjunto, em lenta progressão, e que marca, em um espaço narrativo (em Briante, el pueblo, que em algum momento é anunciado como General Belgrano, a cidade natal do escritor), as idas e vindas de um mesmo núcleo de personagens e acontecimentos, dos verossímeis deslocamentos e experiências de um povoado em que quase todos se conhecem e o que é estranho (os forasteiros, os que retornam, os malditos e os que vivem às margens, nas barrancas) salta aos olhos com força e agilidade.

O desenhar deste espaço se torna mais firme, e é para tanto que serve a repetição, conforme Hombre en la orilla avança. No primeiro texto, “Habrá que matar a los perros”, aparecem algumas referências (a lugares, a famílias, a sobrenomes) que retornarão na sequência, ao mesmo tempo em que uma narração em primeira pessoa, marcadamente provinciana, relata a decadência de uma estância local. Em “Hombre en la orilla” e “La Vasca” a perspectiva é a do homem jovem que retorna ao povoado (no segundo conto, de Buenos Aires, onde parte para viver e estudar), e que mantém no olhar entre nostálgico e piedoso o tom de quem oscila entre ser dali e ser estrangeiro, de manter os vínculos e as conversações com os amigos de infância, que agora só pode encontrar nas férias, e observar o que, apesar da passagem do tempo, permanece inalterado; em outro momento, o narrador de Briante lembra que, em povoados como este, o correr do calendário não significa necessariamente a transformação ou mesmo o acontecimento.

Penso que é em “A lo largo de esta calle que da al río” que os artifícios de Briante chegam mais longe: no relato de quase oitenta  páginas, o escritor pode se aproximar de alguns dos seres de General Belgrano (La Baguala e sua filha Elena Fuentes, que vivem num rancho à beira do rio e atordoam com sua força e pobreza; o louco, talvez bruxo, talvez vidente; o silencioso homem que chega do sul e espera por um momento impreciso para agir; as tradicionais famílias da localidade que acabam ridicularizadas numa noite de carnaval), saltar do presente do cidade para um passado anterior aos personagens e então a momentos pontuais em que algo, uma frase, um confronto, atrai a atenção de todos e destrói, por um par de dias, ao menos, a modorra do povoado – porque em lugares assim o tempo e a poeira, e quem sabe o cansaço, podem mais do que o ruído, e logo recolocam as antigas peças no lugar em que costumavam estar.

Hombre en la orilla, de Miguel Briante. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2013.