Calle Soriano

Dos mapas da Cidade Baixa

Posted in Crônica by iurimuller on 6 de junho de 2013

Às vezes, Porto Alegre te surpreende e dá respostas para inquietudes minúsculas. Por esses dias, eu precisava esperar por cerca de duas horas na Cidade Baixa. De preferência, sem gastar dinheiro. Buscava lugares baratos e alguma mesa tranquila para ler qualquer coisa. Fazia um frio digno para o início de junho, mais ainda quando o vento passava forte pela Lima e Silva. Na frente de um mercado, um tipo mal agasalhado vendia mapas. Mapas de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul e do mundo – as três coisas que realmente importam, diria o gaúcho. Me perguntei quantos mapas o cara venderia numa noite como aquela, em que as pessoas iam ao mercado com pressa, no máximo para garantir a janta ou uma garrafa de vinho nacional.

Saí de lá e caminhei até a menor pastelaria do bairro. Enquanto esperava a comida, olhei os cartazes. Eram chamadas para pequenos shows, aulas de inglês, retiros espirituais. Dos mais de dez, apenas um ou dois estavam vencidos, eram de eventos que já tinham ocorrido. Pensei em quais as pessoas que, semanalmente, poderiam espalhar cartazes por toda a cidade com esta disciplina. Cinco minutos depois, entrou o primeiro rapaz. Pediu permissão e colou a propaganda de uma festa. Festa cara e sem graça, mas estava lá a divulgação. Mais dez minutos e chegou outro: queria divulgar um tributo ao Pink Floyd, “só com os cd’s das antigas”. Outro novo cartaz para o lugar. Perguntei para o pasteleiro sobre a frequência. Ele disse que, a cada segunda-feira, o mural inteiro se renovava. Era sempre assim.

Enquanto o fazedor de pasteis me respondia, um cliente buscou lugar no balcão. Parecia ter certa pressa, escolheu rápido o sabor. Coração com queijo, talvez. Calçava umas botas enormes, e encostou no chão um mapa. Um mapa-múndi, provavelmente comprado do mesmo vendedor, poucas quadras atrás. Entre mordidas e goles de Polar, o homem olhava para o mapa que, todo dobrado, mal permitia grandes visões da Ásia. De modo que em Porto Alegre há quem venda e compre mapas na rua, quem se dedique a colar e mostrar cartazes, e quem observa o que, no fim das contas, não era para ter qualquer importância.

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