Calle Soriano

Ler Anna Kariénina

Posted in Literatura by iurimuller on 21 de março de 2016
Avenida Niévski, Petersbugo.

Avenida Niévski, Petersbugo.

Para ler Anna Kariénina é preciso, para além do interesse por Tolstói e da vontade de conhecer um romance clássico, uma disciplina desafiadora, ao menos para este tempo. A vasta arquitetura do romance, as dezenas de personagens, a sua extensão (oitocentas e duas páginas, divididas em oito partes) e as frequentas digressões que carregam o leitor para um ponto exterior ao texto exigem perseverança e permanência – duas condições talvez um tanto raras na literatura contemporânea.

Voltei a Anna Kariénina depois de ter abandonado o livro, há mais de um ano. Na ocasião, havia deixado o marcador por volta da página de número 200; fiz uma pausa para encadear novelas menores, livros de contos e textos teóricos e, de maneira discreta, vi que o livro voltou a se acomodar na estante dos romances inacabados. A suspensão da leitura provocou uma frustração na época, sentimento que logo se dissipou. A lista das leituras do ano seguiu farta, e não era composta apenas por livros contemporâneos. Havia mesmo algo de Tolstói: novelas de menor extensão, seus contos. Mas nada, ou quase nada, que se poderia comparar ao tamanho de Anna Kariénina.

Desta vez, a proposta era clara e feita de modo consciente para que não se pudesse voltar atrás. Iniciar no verão, num mês de poucas atividades, e dedicar um ritmo constante, diário, para que o impulso inicial não acabasse outra vez na água. As primeiras quatro partes fluíram de maneira impressionante: cinquenta páginas de leitura por dia, não menos do que isso, um esboço feito a caneta numa página que sempre acompanhava o livro, no qual estavam anotadas as relações entre os personagens e as suas cidades, para que as linhas narrativas não se perdessem, e a transcrição de uma ou outra passagem num caderno. Naquele ritmo, leria o romance em menos de um mês, sem deixar de lado as atividades profissionais obrigatórias e a leitura de outros textos menos exigentes.

Mas logo chega o momento de uma viagem para a qual se vai apenas de mochila, e colocar ali dentro o exemplar da Cosac Naify, longo e pesado, parece um exagero. São três dias em que me distancio de Tolstói, não há problema. Retorno, tento impôr o mesmo ritmo, mas algo se dispersa, me vejo às voltas com Deshoras, o último livro de contos publicado por Julio Cortázar, retiro títulos na biblioteca, leio em pouco tempo algo de Schnitzler, de Rodolfo Walsh, de Patrick Modiano, me demoro nos estudos de teoria literária. E há dias em que sento na cadeira para ler Anna Karienina e preciso levantar dali em menos de meia-hora, para não voltar naquela tarde.

As interrupções parecem inevitáveis e quase pertencentes ao romance. Leio que Tolstói abandonou a escritura, numa desistência que por pouco não foi sem volta. Chegou a dizer que “escrever corrompe a alma” e se afastou de Anna, Liévin, do conde Vrónski e do velho Cherbátski. Pôde retornar e, de maneira veloz, terminou o texto e passou a publicá-lo em capítulos. Desta vez, também não houve abandono por aqui e, embora as últimas duas partes tenham sido lidas com maior lentidão, em nenhum momento o processo se tornou penoso ou desinteressante.

Penso que o que há de mais forte em Anna Kariénina e nos romances longos de Tolstói é a forma com que os textos, para o leitor, acabam por se confundir com os dias, romper o plano da leitura e correr para toda parte. Hoje, por exemplo, quando me faltavam trinta páginas para fechar o livro, adiei inconscientemente o momento da leitura com outras tarefas, revisões, uma inesperada limpeza no espelho do banheiro, o retorno a uma novelinha que havia terminado de ler no mês passado e sobre a qual já não havia mais nada a fazer. Terminar o livro era me desprender de situações que me acompanharam quase que diariamente nos últimos dois meses.

Foram vários os momentos em que não uma passagem direta, mas uma atmosfera daquele instante da ficção, quem sabe, se deslocava do livro para o dia. A minuciosa construção do estado de ciúme e de quase-loucura que envolve a protagonista, por exemplo, e que se prolonga por centenas de páginas, deixam marcas no leitor. A angústia indeterminada de Liévin, algo que não se resolve com o desfecho, apesar da confortante marca religiosa das últimas páginas, também impacta dessa maneira. E, durante a leitura, é possível ouvir uma frase num encontro com amigos e pensar que já havia encontrado uma postura semelhante em alguém, e pouco depois perceber que se tratava não de um conhecido, mas de Stiepan Arcáditch Oblónski.

No dia 27 de fevereiro, anotei sobre o que lia: “encanta (…) a sensibilidade ao retratar momentos de decisão dos personagens: lembro Alekisei Karienin andando em círculos no seu escritório, depois de saber que foi traído; Liévin, numa noite curta de verão, deitado sobre um monte de feno, numa propriedade rural alheia, e colocando um plano em execução; Anna, em silêncio na carruagem, depois das trágicas corridas, com a verdade que não pode mais esperar na boca. (…) Para se transcrever, para que não se perca: duas caminhadas matinais, andanças por ruas ainda vazias – a radiante e sonâmbula de Liévin, em Moscou, do hotel para a casa de Kitty, onde a pediria em casamento; e a de A. Karienin pela Avenida Niévski de São Petersburgo, com as calçadas desertas, sem saber se encontra Anna viva ou morta em sua casa.

Penso que, com o livro fechado e de volta à estante, não estarei por completo desprendido de Anna Kariénina, e que uma revoada de descrições e cenas continuarão a voltar nos próximos dias. E então, logo será preciso abrir outra vez o caderno das transcrições e escrever ali para adiar um pouco mais a perda e o esquecimento.

Os monges copistas

Posted in Sem categoria by iurimuller on 12 de abril de 2014
Hipódromo de Maroñas

Hipódromo de Maroñas

I.

Naquela noite, a cidade estava estranha e os ônibus que voltavam pelas avenidas não conseguiam espaço para adentrar o centro. Às margens dos canteiros, longe do destino final de cada linha, os passageiros desciam dos veículos e precisavam terminar o trajeto a pé.

Acontecia naquela hora, diziam os motoristas, um protesto de estudantes nas proximidades do mercado central, e em algum momento – tal como ocorreu em boa parte das passeatas anteriores – a polícia e os manifestantes se confrontaram com alguma violência. Perto do parque, as travessas estavam mal iluminadas e era preciso andar beirando as fachadas das lojas e bares ainda abertos para enxergar com nitidez a próxima esquina.

A maior parte dos que deixaram os ônibus e passaram a caminhar se perdeu em poucos minutos pela cidade. Nos próximos dias, ou mesmo semanas e meses, talvez tenham se sentado lado a lado nos mesmos ônibus, mas provavelmente não se reconheceram – os rostos se confundem nos trajetos repetitivos como aquele.

V. caminhou por cinco ou seis quadras (boa parte delas realmente largas, o que demandou um bom tempo de percurso) até entrar em casa, na Cidade Antiga, deixar os livros que levava na mochila em cima da mesa da sala, alimentar os gatos que ainda viviam no quarto dos fundos, deitar-se por cinco minutos, quase que só para descansar as pernas, e voltar a sair pela porta da frente. F., por sua vez, veio de longe e fez o caminho todo em cima de uma bicicleta pública, que alugou na estação próxima a um hospital.

Talvez tenha sido V. o primeiro a chegar, já que a distância que o separava do bar era menor, mas digamos que tenha sido F. e que F. chegou e não tardou muito para levantar a mão direita e pedir ao garçom uma cerveja comum. Era certo que, depois, beberiam vinho em jarra, mas por agora o calor atordoava e a cerveja o refrescaria com mais rapidez do que qualquer outra bebida.

No bar, naquela hora da noite – digamos que passasse um pouco das nove, não mais do que isso –, apenas quatro ou cinco mesas estavam ocupadas do lado de dentro. As mesas da rua, em função da temperatura, recebiam mais gente, em geral clientes que bebiam pouco e logo davam lugar a outras pessoas. Quando V. entrou no salão, F. já estava às voltas com a metade final da garrafa e ainda sentia resquícios da sede. Cumprimentaram-se sem entusiasmo e escolheram outra mesa, mais próxima da televisão, ainda que dificilmente olhassem para o aparelho.

Não é certo que tenha sido V. o primeiro a comentar a manifestação e o fato dos ônibus terem empacado antes da última curva do arroio, mas é bem provável que tenha sido ele pela importância que costuma dar a esses temas. Disse que, do seu ônibus, muitos dos que desceram caminharam com pressa para o centro interrompido, para se somarem aos que ainda tentavam resistir por lá.

Para F., era uma lástima a violência que a polícia da cidade empregava naquelas situações, e acreditava que em poucas semanas, se as coisas seguissem nesta crescente, algo de mais trágico poderia acontecer na cidade. Não quis que o assunto permanecesse na mesa, já que de pronto folheou o cardápio e sugeriu que pedissem um prato para duas pessoas, com ovos fritos e salada, além da jarra de vinho da casa. Mais uma vez, o que escolhiam sempre.

II.

Falaram sobre futebol, sobre uma pesquisa eleitoral e a exposição de um artista português que apareceria na cidade em poucos dias, até o momento em que chegaram os pratos e a bandeja do garçom. Por tempos, o que mais houve na mesa foi silêncio: fruto da fome que pisa forte nos finais de terça-feira.

Comeram mais do que beberam na primeira meia-hora, de modo que a jarra parecia quase que intacta quando F. limpou a boca com o guardanapo e disse que estava com medo de esquecer de coisas importantes – não porque estivesse mal da memória, mas porque algumas coisas sempre podem escapar e até parece inevitável que se percam. E então deixou de lado a comida ainda quente e passou a falar por minutos a fio.

F. havia conhecido, disse, a história de um colega de trabalho (creio que ele trabalhava em um banco, ou em um tribunal) que anotava em cadernos de duzentas ou trezentas páginas todas as partidas de futebol que ouvia no rádio, guardando ali as escalações, os gols do jogo, os momentos importantes e o tempo em que cada coisa aconteceu ou assim foi relatada. Fez isso primeiro por tédio e por distração, depois por ritual e inércia e por fim por necessidade e angústia. É que a memória começou a falhar e aos sessenta anos ele acreditou que poderia salvar o que houvesse de mais importante naquela coleção de papeis encadernados.

Desde então, F. continuava a contar, o homem destinava para as anotações de monge copista mais e mais prateleiras de suas estantes, e a coleção não parou de aumentar. Não eram só fichas técnicas do futebol em lugares longínquos, mas também os filmes que assistia no cinema e na televisão, as notas que imaginava importantes e que copiava do jornal, os diálogos que havia travado naquela mesma manhã com a mulher e o filho, antes de sair para o trabalho.

Chegara até mesmo a anotar recordações distantes, que surgiam na cabeça sabe-se lá de que maneira, mas como a transcrição destas lembranças começava a lhe parecer constrangedora demais, decidira parar por ali. Anotava, portanto, apenas o que era objetivo e relativamente recente. O passado que não estava nos cadernos poderia ficar para trás – nem para tudo havia espaço na sua jangada de madeira ruim.

E nem bem F. havia terminado o relato do seu colega de trabalho, homem que parecia mesmo admirar pela técnica corajosa e pouco orgulhosa que havia posto em prática, V. perguntou de que maneira F. poderia se utilizar daquilo, já que não tinha, até onde sabia, maior interesse por anotações esportivas, diálogos do cotidiano e recortes do jornalismo. Antes de responder ao companheiro, F. esvaziou a jarra nos dois copos e acenou para o garçom encher outra vez o recipiente.

III.

A resposta de F. iniciou com um ritmo lento, de modo que o pensamento de V. vagou pelo bar e foi parar nas palmeiras da avenida, entre as quais havia enxergado a lua no início daquela noite. Mas logo ouviu da boca de F. uma ou duas palavras interessantes e já estava imerso na conversa. Ouviu com atenção, entre goles vigorosos de vinho tinto seco, e me parece que o que escutou foi o seguinte.

F. não tinha, é verdade, a intenção de acumular papel com informações que não parecessem relevantes. Não importava, por exemplo, se Cristian Riveros havia marcado de cabeça contra o Defensor Sporting aos vinte ou aos trinta e cinco do segundo tempo; aliás, importava de alguma maneira, mas se o tempo modificasse essa recordação não haveria qualquer problema. O mesmo valia para fatos políticos (os acontecimentos impactantes permaneceriam, para ele e o mundo, quisesse ou não) e para suas conversas de cada dia.

Mas o que tinha o poder de amedrontar F., quem sabe a ponto de prejudicar algumas de suas noites de sono, ou mesmo de provocar um punhado de sonhos ruins e de presságios assustadores, era a possibilidade de perder as suas ideias, aquelas que poderiam servir para um conto ou um poema, e que desapareciam da memória em poucas horas, ou no dia seguinte se fossem fecundadas numa madrugada de insônia e tempestade.

E, ante o rosto algo debochado de V., F. esclareceu que não era para se enxergar nisso qualquer ambição literária ou aspiração profética, que provavelmente não escreveria nada a partir daqueles argumentos curtos, mas o que o angustiava era vê-los se tornar fumaça na memória e quem sabe não os recuperar mais. Ter imaginado e organizado minimamente o pensamento já bastava; escrevê-los sob a forma da literatura era consequência desnecessária. Não fazia, de maneira alguma, parte da mesma aflição.

Desde que havia escutado o relato do colega de trabalho e refletido um pouco sobre o que ouvira, F. tratou de comprar os mesmos cadernos de duzentas ou trezentas páginas e passou a escrever – às vezes na rua, sentado no meio-fio; ou no metrô, entre a estação Balcarce e a Los Andes – as ideias que poderiam, um dia, se encontrassem o instrumento e o sujeito competentes, assumirem a forma da frase e do verso. Isso aconteceu há poucos dias, e o resultado já era visível no acúmulo de folhas pautadas.

IV.

Já havia escrito em três linhas, por exemplo, a sugestão de uma cena em que uma aguardada carreira de cavalos (na São Paulo dos anos 1930, quem sabe) era interrompida por um avião que precisava aterrissar abruptamente no hipódromo, ao passo em que, a partir deste dia, que havia acabado bem, os precavidos cavalos sempre tentassem olhar para o céu após vencer a primeira curva daquele percurso.

Escrevera, também, em quatro ou cinco linhas, sobre a forma com que as torcidas do futebol argentino tratavam a finitude, já que a parcialidade de um clube (imaginava que do bairro de Boedo) cantava que acompanharia o clube até mesmo no céu, e a outra (talvez de Núñez, ou de Belgrano) entoava o cântico no qual admitia, resignada, que apenas a morte poderia separá-los. Eis o argumento-chave para um ensaio acadêmico, debochou de si mesmo F.

A isso seguiam, para riso e algum divertimento de V., pequenos apontamentos sobre um hotel em Moscou nos dias revolucionários em que a cidade não havia compreendido bem se estava sob o poder dos bolcheviques ou dos defensores da velha ordem, no qual os hóspedes não duravam ali mais do que duas noites e o público era formado quase que só por espiões, contrabandistas, fugitivos e imigrantes que se viam completamente perdidos no palco da história. E já havia escrito mais, contou a V., mas talvez não fosse o momento de ler em voz alta o caderno inteiro.

Com a leitura, o tempo parece que passou mais depressa no salão e a segunda jarra se esvaziou com a mesma velocidade. Ainda houve tempo e ânimo para tomar uma terceira, que o garçom encheu apenas até a metade, antes de saírem para a calçada. A noite ainda estava abafada como antes, mas os ônibus, ao que parecia, voltaram a percorrer as linhas como costumavam fazer. A polícia já havia dispersado a manifestação. V. despediu-se sem demora e sentia os primeiros sinais do sono, mas F., após a apertar a mão do amigo, tratou de se encostar na fachada do bar e deixar mais uma frase solta em seu primeiro caderno.