Calle Soriano

o que fazer quando se olha o rio

Posted in Sem categoria by iurimuller on 17 de agosto de 2015

desvencilhar-se das moedas de 25 centavos e dos óculos de sol comprados no camelódromo de uma metrópole quente;
fixar os olhos com toda a força e a perseverança possíveis no horizonte e tentar enxergar o que há na outra margem;
concentrar-se no ritmo das ondas, menos espalhafatosas do que as do mar, mais gentis do que as do mar e também mais pacientes, e pensar que os rios, tão descartados pela opinião pública, podem ser mais interessantes, portanto, do que o próprio mar;
admitir que qualquer corrente de água exerce sobre qualquer um de nós uma atração ao mesmo tempo vital e suicida;
perceber que alguém já havia pensado antes sobre o que o movimento da água provoca nos seres humanos: “Dobra à esquerda. Por quê? Porque não pode resistir à atração que uma corrente de água exerce sempre sobre nós. O pobre homem não seguirá muito tempo pela margem”;
imaginar quem havia estado por último no exato lugar em que, agora, se está olhando o rio: 1) um trabalhador no intervalo do almoço; 2) um turista deslumbrado; 3) três jovens que acendem cigarros que seis meses antes eram proibidos pelo governo;
descer, não sem perigo, para a curta faixa de areia que se estende diante da água e coletar os primeiros objetos que as ondas entregarão: 1) uma garrafa vazia; 2) um bispo de plástico que pertenceu a um tabuleiro infantil de xadrez; 3) um pente vermelho com cabelos ainda enrolados nas pontas;
cogitar até onde se conseguiria nadar por aquelas águas, recordando índices inexatos de uma aula de natação da época do colégio;
dormir quarenta e cinco minutos com o barulho da água muito perto dos ouvidos e despertar, desconcertado, com outro ruído, que pode ser o de uma gaivota ou de um ciclista ou de um guarda de trânsito;
beber vinho diretamente da garrafa e observar, durante a tarde, quanto tempo o céu se demora para modificar a luz do dia e quanto tempo depois esta luz já modificada transformará a cor da água;
escrever uma carta absurda e jogá-la no rio antes que ela se torne uma carta absurda e também perigosa.

rambla1

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