Calle Soriano

Avellaneda

Posted in Sem categoria by iurimuller on 1 de maio de 2014

I.

Martín atravessava os campos abertos da Província de Buenos Aires a bordo do trem. Pela janela de um dos vagões da Linha General Roca, via, ao sul da Capital, um subúrbio em constante crescimento. Ainda existiam as chácaras, os pátios que ostentavam flores e goiabas, os longos terrenos abandonados ou à espera de construções. Mas naqueles anos, nos poucos quilômetros que separam Avellaneda de Buenos Aires, já era possível sentir a fumaça das fábricas, consequência imponente da década anterior. Na bagagem, ele levava pouco ou nada: alguma roupa, uma insignificante quantia em pesos e as chuteiras pretas de sempre.

Tinha pouco menos de vinte anos e, até ali, não contava com nenhuma experiência séria no futebol. Havia jogado desde a infância na sua província natal, aquela terra quente do norte, sem contratos ou esperanças. Na adolescência, vestiu camisetas de cores estranhas e descobriu cantos da cidade que jamais conheceria se não fosse o campeonato amador. Deixou gols em redes suburbanas e centrais, estalou traves em campos burgueses e miseráveis. Foi quando completou vinte anos que José, que dizia conhecer todos os homens importantes do norte argentino, alertou para as salvações do sul, para a grife do futebol de Buenos Aires, cidade que abrigaria os melhores quadros daquela época.

Algo Martín percebia pelas ondas do rádio. Que os locutores gritavam com maior entusiasmo os gols de Boca Juniors, River Plate e Independiente do que os de Racing e San Lorenzo, por exemplo. Que o Huracán parecia perder sempre, e que o Platense era um clube tão minúsculo quanto corajoso. Que, cada vez mais, os estádios enchiam, os clubes contratavam, o esporte crescia. Às vezes, jogava na frente de casa com o aparelho ligado em tardes de jornada esportiva. O som do rádio e a imaginação flutuante faziam com que as duas partidas – a sua, no barro, sem indicações de linhas na grama e com companheiros improvisados e a deles, transmitida para todo o país e já profissional – se mesclassem em horas oníricas.

No final de um desses domingos, José (parte do corpo encostado no balcão do bar, o copo de cerveja nunca vazio, a frase definitiva, jamais frouxa) comunicou a sério: vais ter que viajar, mostrar teu jogo em Buenos Aires, em Avellaneda, quem sabe em Lanús. Vais ter que descer a Buenos Aires para não cair pobre nesta terra de ninguém. Martín não se lembraria das palavras exatas de Don José, mas sim da cerimônia ao falar, da seriedade com que fez do boteco um recanto de silêncio formal que apenas ele poderia romper: hoje, na Argentina, há quem apenas jogue futebol e não precise de mais nada. No Racing, ninguém precisa mais trabalhar nas fábricas ou nos matadouros. Imagine você como deve ser no River, flaco.

Dias depois, sabe-se lá após quantas discussões familiares, embarcou num trem rumo a Buenos Aires. Disse aos amigos que voltaria, que era um teste para mostrar a alguns olheiros a naturalidade com que cabeceava sem fechar os olhos e o desarme exato que salvara tantos gols nos potreiros do interior. Em Buenos Aires, onde já havia estado, mas da qual não lembrava quase nada, ficou apenas algumas horas. Caminhou pelas ruas do centro e se imaginou vivendo num prédio muito alto, quem sabe na Avenida Corrientes, que tanto encantava a sua mãe; ou mesmo numa casinha austera da Balvanera, bairro em que poderia preservar os seus hábitos mais provincianos. O relógio preso ao pulso não permitiu que seguisse sonhando. Era preciso buscar a Estação de Constitución, de onde sairia o seu trem para Avellaneda.

 II.

Martín contemplava a Avenida Mitre, tão vazia aos domingos, através da vidraça de um café de esquina. Estava há meses em Avellaneda e já era conhecido nas ruas como o cumpridor quarto zagueiro do Independiente, ainda reserva, é certo, mas que havia entrado bem contra o Ferro Carril Oeste e o Chacarita Juniors, e falhado justamente no clássico que disputou em La Boca. Ganhava bem, treinava todos os dias ao lado de Ricardo Bochini e Daniel Saralegui, vivia perto do estádio e duas vezes por semana viajava a Buenos Aires para caminhadas sem rumo. Quase todos os meses telefonava para casa, mas antes de cada conversa encaminhava duas ou três cartas em que relatava a rotina da nova vida.

Eram tempos de felicidade e de estranhamento. Era jovem, vestia a camiseta de um dos maiores clubes do continente, poderia ser titular em quatro ou cinco times da primeira divisão que já tinham inclusive acenado com propostas. Mas sentia-se estranho por pensar que, de alguma maneira, chegara tarde demais a Buenos Aires. Nos jornais e nas ruas, discutia-se pela primeira vez mais sobre política do que sobre futebol. Tudo porque os militares haviam deposto Isabelita Perón da presidência em mais um golpe de Estado daquele século. No Independiente, alguns jogadores se mostravam preocupados e se comentava que o campeonato poderia parar.

Avellaneda, cidade de fábricas e de indústrias, de trabalhadores e de sindicatos, agora tinha em cada um dos seus bairros um enorme efetivo militar. Havia denúncias de que as prisões aumentaram, de que peronistas tiveram que deixar o emprego para trás e escapar para o interior com toda a família. Num final de manhã, pouco depois de tomar o último mate em casa, Martín passava pela Rua Libertador quando sentiu uma movimentação estranha no sobrado mais próximo. Ouviu uma porta bater e um grito ser sufocado. Pouco depois, dois jovens foram arrastados para um camburão por mais de dez oficiais, ainda antes do meio-dia, a poucas quantas do centro.

Nos treinos do Independiente, o assunto era tratado de forma evasiva. Havia quem desconhecesse por completo a situação política, sem saber o que havia ocorrido para que a viúva de Perón não frequentasse mais os salões da Casa Rosada. Outros sabiam tanto quanto Martín: que havia gente nervosa na Grande Buenos Aires, que alguns jornais publicavam reportagens pesadas, que os militares apareciam a todo instante nas rádios da capital e que alguns países europeus ameaçavam romper acordos políticos e comerciais com a Argentina. E havia Facundo, que desde que o dia do golpe estava ausente dos treinamentos e, quando apareceu, não falou com quase ninguém. O goleiro, diziam, poderia ser transferido para o futebol de Córdoba.

Martín conversou com Facundo no início da tarde de uma sexta-feira. Era abril, ventava, o sol parecia apenas cobrir o verde do gramado, sem agredir os olhos dos jogadores ou aquecer demais. Não eram exatamente amigos; compartilhavam, no entanto, de um dos espaços mais solidários possíveis: o banco de reservas de um estádio de futebol. O diálogo feito às pressas enquanto corriam ao redor do campo não serviu para grandes revelações. Facundo disse que poderia estar mesmo de saída, mas que isso nada tinha a ver com o campeonato do Independiente (apenas razoável, preenchido com boas atuações em casa e derrotas na condição de visitante, o empate no clássico com o Racing e o desastre em La Boca), mas que a despedida era motivada pelo país. “O país”, dizia Facundo, que parecia melancólico e misterioso demais para um goleiro reserva na Argentina.

III.

Facundo retirou todos os seus pertences do vestiário em poucos minutos. Agarrava as luvas e camisetas e as jogava com nítida pressa dentro de uma mala grande, na qual se deixavam observar outros objetos: documentos, livros, maços de dinheiro e mantas para o frio. Eram, mais do que nada, indícios de quem partiria para longe. Aquele boato do empréstimo para o Talleres de Córdoba finalmente deixava de fazer sentido. É certo que lá fazia mais frio do que na Província de Buenos Aires, mas não o suficiente para um jogador de futebol levar gorros ao estilo suíço. No rosto de Facundo, mais do que a pressa estava estampada a angústia, condição suficiente para que ninguém dirigisse a palavra a ele mesmo quando no vestiário descansavam cinco ou seis atletas.

Antes de atravessar a rua em direção a Avenida Mitre, Facundo avistou Martín, que caminhava na sua direção. Talvez o arqueiro esperasse mais um adeus singelo, sem abraços apertados e perguntas indiscretas. Martín, no entanto, permaneceu em frente ao colega e não precisou questionar nada. Via que algo estava fora do lugar naquela cena: ele deixando a sede com os pés ligeiros e uma mala nos ombros, o olhar entre amedrontado e nervoso, um par de desculpas na ponta da língua. Firmou os olhos nos seus. Pela primeira vez, Facundo foi sincero com alguém do clube.

Há semanas, disse, que tinha a casa rodeada por carros estranhos, que o telefone tocava e ninguém resmungava palavra alguma do outro lado da linha. Teve notícias de que um companheiro do partido (sim, militava com os peronistas da cidade há algum tempo) havia sido preso e possivelmente torturado; de modo que poderia delatar alguém, soltar endereços, nomes, números, senhas, mapas enquanto era violentado em algum galpão clandestino desta província que tinha se transformado em uma verdadeira zona de desgraças. Esparramou as frases como num pranto, e logo disse que precisava ir. Estava a caminho de Ezeiza, o povoado do aeroporto, e para tanto buscaria um trem em Constitución. No caminho, precisava passar em Buenos Aires para deixar uma carta e um bilhete num local seguro.

Desde então, Martín não teve mais notícias de Facundo. No outro dia, os jogadores do Independiente se reuniram no centro do gramado antes do treinamento. O técnico parecia ter muito a dizer, mas nada era relativo ao futebol. Antonio Villar, há duas décadas nas casamatas do futebol argentino, disse que nunca havia passado por nada parecido. Que esquecessem o tal Facundo, falou, que se concentrassem na próxima partida, na viagem a Santa Fé, nas armadilhas desta tabela meticulosamente organizada por estes torcedores do Boca Juniors que ocupam todas as cadeiras da federação. A orientação de Villar era quase uma súplica. Ele temia que o Exército, com ações cada vez mais disparatadas naquelas semanas de abril, pusesse os olhos até no campo do Independiente.

Os meses passaram e o clube não pôde superar o sexto lugar no campeonato da primeira divisão. Ao mesmo tempo em que se jogava futebol semana a semana, uma leva invisível de homens e mulheres deixava o país rumo a Estocolmo, a Porto Alegre e ao Rio de Janeiro por estradas noturnas ou nos aviões, sempre com disfarces desesperados, com documentos falsos e uma forte agonia no peito. Martín soube da história de alguns exilados antes de se tornar ele mesmo um deles, mesmo que de forma espontânea. Após uma boa pré-temporada em Mar del Plata, acertou com o novo empresário um passe para o futebol espanhol. Viveria perto de Barcelona, muito longe de Avellaneda.

 IV.

Martín viajou pela Espanha, visitou praias estranhas, encerrou a carreira como capitão do Osasuña e ganhou certo dinheiro. Conheceu o leste europeu e casou-se por lá com Marina. Ela tinha, como ele, os cabelos negros, o corpo moreno e os traços fortes cortando o rosto. Bem poderia ter nascido no norte argentino, mas era peruana – como ele, havia desembarcado na Europa por acaso. Martín assistiu à ditadura do outro lado do oceano. Na sua família, todos se mantiveram ilesos, com a exceção de um primo que, por borracho e brigão, desafiou um soldado num bar e acabou preso por dois meses. Os demais não se envolveram em nada e provavelmente sabiam tanto quanto ele, com a diferença de que estava a milhares de quilômetros da Argentina.

 

Não foi difícil encontrar notícias, de qualquer maneira. Os jornais franceses, distribuídos com pompa nas bancas de revista de todo o continente, noticiavam mais do que quaisquer outros a violação aos direitos humanos na América Latina. Desde Paris, opinavam que os militares argentinos eram mais sádicos do que os paraguaios, mais violentos do que os brasileiros, mais desafiadores do que os uruguaios e tão terríveis quanto os chilenos. De longe, pensou ele enquanto lia o Le Monde, é fácil comparar a tortura no terceiro mundo – no mesmo momento em que fechou o jornal e se viu tão distante da Argentina quanto o triste articulista.

Trinta anos depois, entrou num avião em Madrid e aterrissou no Aeroparque. Desceu em Buenos Aires após a primeira crise dos anos 2000, tempo em que duas a cada três lojas fecharam e no qual um a cada dois argentinos perdeu metade do que tinha no banco. Martín voltou numa época de reconstrução e reconciliação, tempo de levantar as casas, de salvar as fábricas, de reorganizar a política e desafiar a ditadura. A ditadura que, mesmo após ter entregado as armas, parecia ainda viva num canto da sala, visível e intocável, salvaguardada por uns quantos nostálgicos de má fé. Definitivamente, eram outros tempos. Avellaneda sofria com congestionamentos no trânsito, os trens eram precários, o Independiente jogava a segunda divisão e, em, Buenos Aires era inaugurada mais uma exposição sobre a resistência armada aos anos de chumbo.

As telas e os paineis tomavam conta de uma praça de Núñez, no norte da Capital. Era organizada por uma das tantas associações de familiares de vítimas da repressão que surgiram com a democracia. No caso desta, a narrativa era personificada. Cerca de vinte militantes, de diferentes organizações, partidos proscritos e seus braços armados, apareciam retratados numa foto em preto e branco e em poucas linhas biográficas. A distinção de outras honras semelhantes se dava por conta do enquadramento; havia se optado por relatar a trajetória de anônimos da resistência, e não dos mártires reconhecidos. Eram operários das fábricas, policiais rebeldes, estudantes universitários do interior. E, ao lado de um álamo, quase na última curva da praça, Martín pôde ver um rosto conhecido que havia ficado para trás durante as últimas três décadas. Ao lado da foto, leu:

“Facundo Saavedra, 24 anos, goleiro. Jogou no Club Atlético Independiente e no Club Almagro. Em cinco anos, entrou em campo cerca de trinta vezes pela primeira divisão. Militou no Partido Comunista e logo passou às fileiras da guerrilha peronista de Avellaneda, na qual atuou até 1977. Foi morto em plena Estação de Constitución, enquanto esperava o trem na plataforma destinada a Ezeiza. Seu destino deveria ser o exílio. Na foto ao lado, Facundo aparece entre Martín Guzmán (à esquerda, na época zagueiro do Club Atlético Independiente) e Juan Manuel Benítez (à direita, antigo meio-campista e também companheiro de equipe)”.

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Estilhaços de uma noite de maio

Posted in Jornalismo by iurimuller on 1 de junho de 2013
Um pedaço de San Telmo para Rodolfo Walsh

Um pedaço de San Telmo para Rodolfo Walsh

Por Iuri Müller
Publicado no Sul21 em novembro de 2012

Em uma estação da linha General Roca, a de Wilde, partido de Avellaneda, Francisco Alonso vê o trem que se aproxima e encerra com rapidez o assunto anterior: “as balas sempre passaram perto, mas eu escapava. Talvez pela disposição da lua, das marés, caso eu apele à cultura popular”. Francisco Alonso, “El Negro” – o peronista revolucionário, o que pegou em armas para resistir à ditadura militar, o que esteve apurando o tiro em Havana e que viu Juan Domingo Perón inaugurar largos viadutos no sul da Província de Buenos Aires – há pouco rememorava sentimentos de quatro décadas atrás. Comia fiambres, bebia cerveja fria e recordava. Nem tanto os passos firmes da Revolução Cubana, que pôde ver de perto nos anos sessenta. Tampouco dedicaria muitas frases à participação na guerrilha peronista. Alonso falava da noite em que viu a Confitería La Real de Avellaneda salpicada por disparos criminosos, a noite em que os companheiros caíram mortos ao seu lado. Noite que talvez se perdesse na conturbada história argentina daqueles anos não fosse pela investigação de um jornalista que, entre um trago e outro, começou a questioná-lo assim: “Alonso, o que de fato aconteceu naquela noite de 1966?”.

Francisco Alonso, um metro e sessenta de altura, dono de um bigode que esconde algumas palavras, hoje vive perto do bar que sediou de forma involuntária a matança daquele ano. Mas no sábado em questão ruma até Wilde e aceita o convite para um almoço improvisado. Quem o convida, o recebe e apresenta é Enrique Arrosagaray, articulista e escritor da mesma cidade. Enrique dedicou parte da vida a investigar a história, as contradições e os textos de Rodolfo Walsh (1927-1957), autor de, entre outros títulos, “Operação Massacre”. Alonso, ao que consta, é o último protagonista vivo de “¿Quién mató a Rosendo?”, o livro-reportagem em que Walsh ilumina o então obscuro tiroteio daquele ano. Um fato que se tornou passado há mais de quatro décadas. Alonso se assusta com a conta, com as recordações que sempre voltam, mas muitas imagens se mantiveram firmes na memória. Lembra a pizza que pediram ao garçom, o brinde que ergueram a um dos amigos, a discussão que inicia perto de um dos banheiros, as primeiras trompadas com o grupo do mafioso Augusto Timoteo Vandor, as balas voando no saguão do bar. (more…)