Calle Soriano

Folhas do vento norte (IV). A poeira das casas

Posted in Sem categoria by iurimuller on 9 de setembro de 2014

O filtro de papel era grande demais para o espaço da cafeteira, de modo que teve que cortar um pedaço com a tesoura, no formato de um arco, para que pudessem estar com duas xícaras nas mãos poucos minutos depois, sentados à mesa da cozinha. Não era o café a bebida mais provável para aquele início de noite quente, mas naquela casa o hábito pode mais que o clima e as temperaturas – a casa em que desembarcara há algumas semanas, depois que um caminhão pintado de laranja e com mensagens religiosas estampadas na caçamba deixou seus poucos móveis e algumas caixas de papelão numa esquina silenciosa da cidade.

Era a quarta residência que habitava desde que passara a morar na cidade. Desde então, viveu tempos de um estranho nomadismo, de casas que se esvaziavam e que voltavam a se encher de sofás, cadeiras, livros, e de apartamentos nos quais dormia por uma ou duas noites, e que então não voltava a ver. Não foi assim por capricho ou porque as adaptações eram custosas; na verdade, as sucessivas mudanças se deveram às circunstâncias, aos papéis que faltaram para seguir numa casa, ao dinheiro que agora possibilitava algo mais do que um quarto de pensão, às companhias que trocavam de bairro e de maneira consciente ou não acabavam por levá-la junto com as malas e os pertences.

Sobre isso conversavam, sobre aquela sina dos habitantes da cidade: não pertencer, mudar-se com frequência e disciplina, ter os casacos sempre a postos, longe dos cabides definitivos dos armários clássicos, como que preparados para trocar de lado a qualquer momento. Com poucos exemplos, a medida em que a cafeteira expelia fumaça tal qual uma locomotiva em apuros, perceberam que era um traço comum de muita gente – alguns, mais flexíveis do que os inadaptados de sempre, depois de certo instante (a quarta ou a quinta mudança, por exemplo), nem percebiam mais. Trocavam de casa ou de apartamento, de andar ou de pensão, como quem troca de calçada para evitar o sol do meio-dia.

O café já estava servido nas duas xícaras de vidro e as partículas de açúcar permaneciam visíveis no fundo dos recipientes. Tomavam a goles longos, indiferentes ao sabor ou à doçura da bebida. Algumas caixas ainda estavam fechadas com fita isolante no chão da cozinha: dentro, repousavam talheres, pratos, panos de prato, potes de muitas cores, alguma chaleira com mais anos de vida do que tinham os seus donos. Os demais cômodos estavam tão ou mais esvaziados. A mudança ocorrera há poucos dias, restava muito por fazer. Ela disse que desta vez se sentira bem desde o princípio, que lhe agradavam as paredes envelhecidas da casa, a rua de pouco movimento em que se situava, e mais do que nada a existência da claraboia interna, o traço mais surpreendente da edificação que, há décadas, fora erguida nas cercanias do Parque.

E nem bem havia terminado de dizer que sim, que aquele lugar era agradável, muito mais do que os últimos dois ou três, e que viveria ali por meses, quem sabe alguns anos, que acreditava enxergar anunciações de felicidade nos janelões antigos, e então trancou a frase, de súbito. Após alguns segundos de silêncio, teve de remendar em tom de confissão: como se permanecer ou sair outra vez dependesse apenas de mim, ou de nós. E riram um riso baixo e nervoso, como quem ri da própria inocência.

***

A melhor parte disso tudo, ela tornava a dizer, está contida na própria ação: ao estar sempre pelas ruas, disponível aos sofás que te oferecem, aos catálogos de imobiliárias e mesmo aos quartos de hotéis, conhece-se alguns cantos até então completamente invisíveis da cidade. E algo sobre o funcionamento deste lugar. Por exemplo, dizia, eu só pude descobrir a força que o vento da cidade pode alcançar numa noite em que, ao sair de alguma festa, acabei por passar a madrugada na sala de uns amigos que agora já me são distantes, perto do Centro. Era um apartamento no décimo andar de um prédio antigo, que por sua vez foi construído na parte mais alta da rua.

Lá, quando chegou, dirigiu-se diretamente para a sacada. Dali, se viam os bairros ao longe e os trilhos da entrada da cidade, era uma visão aberta para as luzes da noite. E o restante, ela disse, descobri quando tentei dormir: eu lembro que precisava desesperadamente acordar cedo no outro dia. É certo, já conhecia a força do vento norte, seus lamentos de pássaro triste, e do vento sul, este de cantar gelado e capaz de arrepiar a pele e fazer qualquer um se encher de blusões mesmo no outono. Mas não havia passado uma noite inteira em claro por conta do barulho do vento, ao menos até aquele dia.

O vento fazia tremer as janelas dos quartos e da sala, derrubava os vasos de plantas que ficavam na sacada, tremulava as cortinas, impacientava os gatos. Não chegava em rajadas, mas num soprar constante e barulhento. Em algum momento, pensou que nos primeiros segundos o ruído havia sido tão forte que ele permanecera nos ouvidos e na cabeça, mas não no céu da cidade – e o que o restante da noite de insônia foi o resultado da imaginação atormentada pelo vento, e não pelo próprio vento. Enfim, disso jamais saberá. Na manhã seguinte, quando se despediu e buscou um ônibus que a levasse à Universidade, tentou ver entre as pessoas que esperavam na parada de coletivos alguém com olheiras parecidas com as suas. Assim, a hipótese de ter ventado forte por sete horas seguidas pareceria mais real.

Não foi outra vez àquele apartamento, embora tenha sonhado algumas vezes com cômodos e paredes similares. Agora, as xícaras estavam vazias, a cafeteira ainda funcionava. Tornaram a servir o café. A noite já parecia mais fresca e da cozinha era possível perceber que muita gente caminhava pelas ruas. O Parque, por sua vez, estava às escuras. Dentro de poucas horas, seria setembro novamente.

***

Aos poucos, desbravavam os cantos da casa nova. A claraboia foi o primeiro divertimento inesperado, mas houve mais: o banheiro com lajotas amarelas e laranjas, por exemplo, e cujo ligeiro contraste entre as cores parecia formar o mapa de algum país distante. Os poucos livros que sobraram na estante dos antigos proprietários, basicamente romances franceses com a lombada em profundo processo de desgaste. E as duas fotos que ela encontrou numa gaveta. Na primeira, um casal mais ou menos na altura dos quarenta anos de idade – a foto é nitidamente velha, hoje teriam um par de décadas a mais, no mínimo – posa para uma câmera em frente ao cassino de Mar del Plata; na outra, vê-se um homem caminhando de costas na direção de um avião, e não é possível identificar que cidade e aeroporto são aqueles.

Logo haverá outras fotos e objetos nas gavetas: fotos suas e dos seus, das cidades por onde passou. Alguns poucos cartões-postais que colecionou durante a vida, páginas das cartas que guardou. Moedas e pouco mais, mas com algo ocupará aquela casa, e algo ficará, perdido ou esquecido, por vezes dá no mesmo, para os próximos habitantes, que inevitavelmente chegarão. Oxalá demore, ela pensa. Está feliz ali, ela que andava desacreditada com os lares. Por pouco, não pagou a mensalidade de um hotelzinho da Avenida e organizou as coisas por lá. Mais fácil seria, apesar da estranheza do gesto. Preferiu insistir um pouco mais, e agora estava ali, tomando a segunda xícara de café passado na cozinha.

Quem eram os antigos habitantes da casa da claraboia e dos ladrilhos coloridos?, eles se perguntavam. Os funcionários que alugaram a morada de nada sabiam, e pouco se interessavam pelo passado dos lugares. Através dos rastros (as fotos, os livros), pouco se aproximavam de uma imagem minimamente nítida dos moradores. O certo é que deixaram o piso em bom estado de conservação, bem como os móveis que não tiraram da sala. Pode ter sido gente que nasceu na cidade e passou uma vida inteira ali, a uma quadra e meia do Parque, sempre perto das árvores, ou alguém que veio de fora e passou pouco tempo debaixo da claraboia: alguém que viu os negócios desmoronarem numa das galerias do Centro, ou que perdeu, por tragédia ou desamor, as companhias que o trouxeram para cá.

E deles, o que diriam os próximos, os que noutra manhã ensolarada desceriam de um caminhão de cor berrante, com mensagens religiosas na lataria, e passassem a ocupar os mesmos cômodos que desbravam agora, com entusiasmo inaugural? Talvez vislumbrem na poeira do tapete alguma história ou circunstância, talvez imaginem que na verdade eles eram uns quantos nômades que saltavam de um lugar a outro, deixando sempre algo pelo caminho, alguma coisa de que nem se lembrariam depois. Logo a noite tomou conta em definitivo do céu, a companhia foi embora para alguma outra casa, ela se viu sozinha – e em meio ao vento que corria na rua chegou setembro, ansioso e sem aviso, mas disso ela só percebeu na manhã seguinte, quando olhou para o calendário da parede.

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Folhas do vento norte (III). Nuvens no fundo do mar

Posted in Sem categoria by iurimuller on 5 de agosto de 2014

Olha como estão estranhas as nuvens, ouviu. E concordou que aquele era mesmo um dia incomum, ao menos no que diz respeito ao céu. O amanhecer molhado logo deu lugar a uma tarde fechada que, pouco a pouco, cedeu os espaços para a neblina. Com o crepúsculo, as luzes amarelas da cidade mostravam que as nuvens estavam a ponto de tocar o chão. Fragmentos da neblina sobrevoavam as ruas, roçavam nas árvores mais baixas, escondiam o teto dos postos de gasolina e adentravam os lugares menos imaginados. Em pouco tempo, naquela hora em que a tarde se retira para que a noite assuma os trabalhos, a cerração havia tomado as esquinas e os montes, descera para a cidade como se ali resolvesse ficar por alguns anos. Não se tratava de consistência física, mas de uma forte impressão de permanência.

No Centro, os caminhantes que quase sempre estavam alheios a tudo, e não seria diferente com a posição das nuvens num céu tão repetitivo, desta vez pareciam espantados: andavam devagar porque a atenção estava nos olhos, intrigados com aquelas nuvens de voo baixo, como pássaros recém-saídos de gaiolas. Alguns homens retiravam câmeras do bolso para fotografar, ainda que o fenômeno fosse delicado demais para a maioria das lentes. Houve também quem caminhasse depressa, um tanto por susto. Pensavam apenas em chegar logo em casa, para então fechar as portas, as janelas, tapar as saídas da lareira, se fosse o caso de ter uma no cômodo mais central. Assim impediriam que as nuvens também tomassem conta da sala, da banheira, da louça ainda por lavar que esperava na pia da cozinha. Que ocultassem os papéis da escrivaninha, escondessem o carro na garagem estreita e assim seguissem adiante.

O temor de ser tragada pela fumaça que descia não a atingia. Mais do que isso, o que gerava era curiosidade. Saiu a caminhar para tentar descobrir do que aquilo era feito. No Calçadão, percebeu que elas flutuavam com alguma velocidade, que não se contentavam em baixar e então ficarem quietas. Foi quando deteve os olhos no termômetro: enxergava a temperatura – digamos que naquele princípio de noite o aparelho apontava para dezoito graus – e logo em seguida um floco de nuvem se deslocava para o lado e tornava mais difícil a leitura, como se padecesse de uma súbita e assustadora miopia. Mas, segundos depois, este fragmento de névoa rumava para outro lado, quem sabe para a Praça, ou mesmo tomasse as ladeiras que acabam por desaguar no Parque, e então aqueles números se tornavam legíveis outra vez. Não pôde evitar um sorriso, e naquela hora viu que o lugar estava quase vazio. Há quanto tempo estava atrás dos rastros e da composição da neblina?

Metros adiante, viu-o, tal como uma aparição que só aparece mesmo em noites de cerrado nevoeiro, fantasma que não poderia tolerar a luz do sol no rosto. Parecia tão instigado quanto ela, e espiava para dentro de uma galeria para comprovar se as nuvens também haviam entrado naquele túnel por entre dois prédios comerciais. É possível que a tenha visto no mesmo momento, ela que deixava o termômetro para trás. Aproximaram-se, riram do acaso e da estranheza do que ocorria ali, agora sem outros espectadores. Ele disse que estava surpreso, que os jornais anunciaram que seria uma noite de lua grande, e não de uma tempestade de neblina como a que estavam vendo. Caminharam juntos, talvez esquecendo que o gesto pertencesse a outra época. E só detiveram o passo quando, na frente de uma entrada iluminada por duas lâmpadas brancas, um cartaz anunciava que a última sessão do Cinema começaria em poucos minutos. Era um filme sobre o fundo do mar, ao que parecia pelo título e a fotografia da chamada.

***

Pagaram menos de duas notas pelos ingressos e se apressaram para entrar na sala, deixando para trás as pipocas e os adereços. O ambiente estava quase vazio; nas fileiras do fundo havia alguns casais em silêncio e, um pouco mais à frente, alguns senhores idosos que esperavam com a coluna reta o início da sessão. Escolheram dois lugares no canto esquerdo, distante dos demais. As luzes se apagaram rápido, mas a tela se mantinha desligada. Algum problema técnico, talvez. Uma mulher jovem virou-se para a cabine do projecionista para saber o que acontecia ali, mas nada pôde descobrir. Sobravam alguns ruídos dispersos de conversação em voz muito baixa e o barulho de uma porta que batia ao longe. Por um momento, entre o susto e a graça, ela pensou que não poderiam mesmo enxergar nada ali dentro, pois a neblina teria se apoderado também daquele lugar. E nem bem terminou o fantasioso raciocínio quando a função começou e surgiram os primeiros créditos do filme em letra branca, numa filmagem que já parecia mostrar um cenário marítimo. Com o lanterninha, três rapazes atrasados procuravam uma poltrona qualquer nas primeiras filas, constrangidos pela situação.

Descobriram com rapidez algo que nem o cartaz e tampouco os créditos diziam: que a película era toda feita de imagens e sons, sem a presença de narração ou qualquer palavra escrita. Nem por isso deixava de ser conduzida por alguma espécie de enredo, é certo, mas se tratava de uma linha distinta e sutil. Por uma hora e meia, assistiram, em meio a um intenso silêncio, a peixes que nadavam nas cavernas mais fundas do Pacífico, espantaram-se com golfinhos que precisavam desviar de cargueiros em meio a uma longa travessia pelos mares, contemplaram plantas que se fixavam em rochas subaquáticas, algas, cores, fluxos d’água sem interpretação aparente para o espectador que sempre se manteve longe dos oceanos. Mais de uma vez, ela pensou em interromper o silêncio e conversar com ele num balbucio curto, quase indiscernível, para tentar saber qualquer coisa sobre o que havia feito dos últimos dias, mas viu que o companheiro de sessão estava mesmo atrelado ao destino dos seres do mundo abissal. Era preciso esperar que aquilo terminasse, embora fosse complicado saber em que ponto estavam – saíra sem relógio e o filme certamente se encerraria de modo abrupto, sem grandes anúncios de despedida.

Algumas cenas depois, a câmera deixou o fundo do mar e alcançou as águas desde o alto, numa tomada que indicava o fim da história. Os créditos finais apareceram na tela e as luzes dos corredores enfim se acenderam. Os senhores aplaudiram com surpreendente aprovação o que tinham acabado de ver. Aos poucos, todos já estavam no saguão do Cinema, que por sua vez está a poucos passos da rua. Boa parte da noite se passara ali dentro, no fundo do mar. E se antes a cidade já estava quase vazia (e os seus habitantes empenhados em escapar da neblina), por estas horas os caminhos estariam ainda mais desertos. Decidiram sair para a rua outra vez, deixar o Centro e encontrar algum espaço para conversar. Mais do que isso, queriam ver se as nuvens ainda sobrevoavam a cidade com o mesmo afã de antes da sessão.

***

Bastou colocar o pé esquerdo na rua para ter de fechar os olhos. Um vento forte e quente esparramava folhas pelo Calçadão, desarrumava cabelos e roupas, fazia-os recuar. Balançava placas e enlouquecia os cães, e teve força suficiente para afastar a névoa dali – ao longe, ainda se via seu rastro, para além dos montes. Demorou um par de instantes até que pudessem reabrir os olhos, mirar em volta. No céu, a prometida lua grande chegara, e iluminava tudo: podia mais que a luz artificial das luminárias públicas, que os letreiros envelhecidos das lojas de rua. Como que saída do fim do oceano, a lua grande os convidava a caminhar. E então rumaram ao Parque, num caminho quase automático, sem reparar em quase nada do trajeto.

Aquele não era um vento novo, desembarcava na cidade a cada agosto e voltava com certa frequência em outubro e em dezembro. Era raro de ser encontrado nos primeiros meses do ano e permanecia em algum esconderijo da Serra no início do inverno. E quando chegava, demorava para ir embora. Vento de carregar pétalas de flor e pequenas porções de terra, parecia fechado para estudos e naturalizações, porque surpreendia sempre. Mesmo os que viviam na cidade há décadas se mostravam despreparados para a sua chegada; na varanda de uma casa no norte, restava lamentar quando ele chegava espalhando as folhas dos jornais, mudando o humor mesmo das mulheres mais estáveis do lugar. E, tal como a neblina que aparecera horas antes, o vento também tinha o estranho poder de entrar pelas frestas, de não esperar convites. Alguns diziam que desde o seu primeiro sopro a regra do mundo mudava e tudo passava a ser uma questão de casualidade.

Quando chegaram, o Parque já estava com o céu limpo. Num espaço plano de grama, adolescentes tomavam vinho em garrafas de plástico e formavam um círculo. Eram os únicos seres acordados naquela hora; as cigarras já haviam desistido de cantar. Eles se aproximaram em silêncio, sentaram a uma distância em que escutariam as conversas com alguma clareza. No círculo, falavam da névoa de pouco antes, assunto que talvez estivesse em outras rodas, em outras regiões da cidade. Um deles começou a ler um poema improvisado, e antes de recitar os versos esclareceu que havia escrito naquela mesma tarde, enquanto via a Avenida abdicar da cúpula dos seus prédios para o controle das nuvens: ‘estão nublados / os dias os livros o céu / nublado o meu passo / nublada a minha cor / as minhas noites cheias de nuvem / que escondem luzes e catedrais (…)’. Ao lado do Poeta, uma menina disse, olhando diretamente para os dois forasteiros, que em tempos estranhos assim, de cerração e ventania, mesmo os poemas só poderiam seguir as regras do acaso e dos encontros fortuitos.

Publicado na revista o Viés.